CONTO-DO-VIGÁRIO

Conto do vigário é o furto feito por meio de uma mentira artificiosa, contada a um indivíduo ingênuo que quer passar por espertalhão e acaba logrado. Uma de suas aplicações consiste no seguinte: o ladrão (vigarista) conta à provável vítima uma história complicada sobre uma importante soma em dinheiro que se acha guardada num embrulho (paco) e que ele deseja confiar provisoriamente, por motivo de comodidade ou necessidade, a uma pessoa honesta, em troca de algum dinheiro mais miúdo de que precisa no momento. O otário, na esperança de enganar o desconhecido que o considera de uma honestidade a toda prova, aceita o negócio e dá o seu dinheiro ao vigarista. E assim que se encontra longe dele, abre o embrulho e verifica que ele contém apenas papéis ou jornais velhos simetricamente cortados e disfarçados sob uma nota de real valor. Apesar de pouco usada nos dias de hoje, de vez em quando ainda se tem notícia de que alguém foi vítima desse golpe.

 

Daí o uso da expressão conto-do-vigário, para a qual existem algumas explicações curiosas e interessantes. Em uma delas se diz que a histórica cidade mineira de Ouro Preto havia recebido em doação uma imagem de Nossa Senhora dos Passos, e que por causa disso os vigários de duas igrejas locais, a de Nossa Senhora do Pilar e de Nossa Senhora da Conceição, iniciaram uma disputa por ela. Como os dois sacerdotes não conseguiam chegar a um acordo, o da igreja do Pilar sugeriu ao outro postulante que a estatueta fosse colocada em cima de um burro que deveria ser levado até o meio do caminho entre os dois templos e deixado solto no local, a fim de poder escolher para que lado ir.

 

A igreja situada na direção tomada pelo animal ficaria com a imagem. Assim foi feito, e ao ser libertado da corda que o prendia, o burro encaminhou-se lépido e fagueiro rumo à igreja do Pilar, que ficou com a santa, conforme combinado. Mais tarde se ficou sabendo que ele fizera isso porque pertencia ao padre de lá e, portanto, estava acostumado a percorrer o caminho que seguira, mas apesar dessa descoberta a estatueta sagrada não mais saiu do lugar onde estava.

 

Uma outra versão revela que quando a corte portuguesa embarcou às pressas para o Brasil, em fins de 1807, trouxe consigo um indivíduo que se apresentava como herdeiro de um vigário português muito rico, informando ainda que o mesmo se encontrava doente e às portas da morte. Sendo assim, dizia o farsante, dentro de pouco tempo ele deveria receber uma fortuna, mas infelizmente, o afastamento repentino de Portugal o deixara sem recursos. Com essa conversa mole e o aparente relacionamento com a realeza, ele conseguiu crédito para consumir de tudo, do bom e do melhor, sempre prometendo pagar as contas tão logo o parente moribundo finalmente desencarnasse. Mas como o pendura foi aumentando, e os credores demonstrando impaciência crescente com aquela situação, o espertalhão achou por bem desaparecer da noite para o dia, deixando para trás as dívidas contraídas e a lembrança do vigário com um pé na cova.


Como essa, existem algumas outras histórias que também procuram explicar a origem da expressão "conto-do-vigário", sem que se possa dizer qual delas é a verdadeira. Ou, pelo menos, se existe alguma que possa ser considerada dessa forma. O fato é que com a frase-feita o povo intitula o golpe aplicado por alguém em cima de outro alguém, incluindo aí todas as trapaças reveladas diariamente pelo noticiário policial, desde as mais simples, como a do indivíduo que na rodoviária alega estar precisando inteirar o dinheiro da passagem, até as mais sofisticadas, praticadas normalmente pelo pessoal que freqüenta os níveis superiores da sociedade.