DA PÁ VIRADA

A pá de pedreiro é um instrumento de trabalho manual ligeiramente côncavo, metálico e com cabo de madeira, usado em serviços de construção e de limpeza para recolher, transportar ou revirar terra, areia, cascalho e algo mais. Por isso é fácil perceber que quando uma delas está virada, ou seja, emborcada, com a sua face deprimida voltada para o chão, ela se torna inútil porque não tem nenhuma serventia. Foi daí que surgiu o sentido inicial dado à expressão “da pá virada”, identificando o homem vadio, sem ocupação regular, que não trabalha e vive entregue à vagabundagem, porque da mesma forma como ocorre com a ferramenta deixada naquela condição, ambos não servem para nada.

 

Entretanto, como no Brasil o passar do tempo às vezes altera o entendimento de palavras e frases, foi isso o que aconteceu com essa locução. E realmente, o significado corrente dado à expressão “da pá virada” tornou-se diferente da idéia de inutilidade que a pá deitada ao contrário no solo deixa transparecer, porque ao invés disso, a locução é usada para identificar não só a criança travessa e inquieta, mas também o homem de maus instintos e grande criador de casos, embora também sirva como uma espécie de elogio ao indivíduo corajoso, competente e produtivo. 

 

Quanto à primeira definição, praticamente toda família tem, ou já teve entre os seus membros, um garoto endiabrado, desses que a grande maioria dos que convivem com ele de alguma forma consideram como malcriado ou pestinha porque se comporta como um capeta em forma de guri? Por causa dessas criaturinhas imprevisíveis muitos pais recebem freqüentes reclamações de professores e diretores de escola sobre a indisciplina e a falta de atenção com que seus filhos se comportam em sala de aula, mas ao mesmo tempo as mães também não sabem o que fazer quando ele está em casa correndo para todos os lados, trepando nos móveis e quebrando os enfeites da sala. Crianças desse tipo são as “dá pá virada”, embora ninguém consiga explicar qual a relação entre elas e a ferramenta deixada no chão com o fundo para cima.

 

Sobre o assunto, os especialistas dessa área de atuação médica aconselham que nesses casos é sempre bom procurar conhecer o alcance do problema, porque embora a agitação, na maioria das vezes, tenda a se acalmar com o avanço da idade, pode ser que, por outro lado, a criança esteja sofrendo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, distúrbio que atinge de 3% a 5 % da faixa etária entre 6 e 13 anos. Até o fim da década de 80 falava-se somente em hiperatividade, uma das manifestações mais conhecidas, caracterizadas pelo alvoroço permanente. Mais recentemente, o distúrbio passou a ser tratado de maneira ampla, incluindo sintomas de impulsividade (como a impaciência) e a desatenção (esquecimento ou dispersão, por exemplo).

 

No que diz respeito à maldade e espírito ruim dos homens, os registros sobre o antigo Serviço de Proteção aos Índios contém informações sobre as perversidades cometidas por um indivíduo paranóico conhecido como "Pá Virada", contra indefesos curumins da tribo Parakanã, assassinados pelo infame processo de terem os crânios esfacelados de encontro aos troncos das árvores. Dizem que "Pá Virada" ou "Pá Torta" era um bandido famoso pela crueldade e violência que empregava contra os indígenas, e o apelido dado a ele explica por si só, e de maneira clara, o por que da expressão ser usada para identificar não apenas os indivíduos dessa espécie, mas também todos aqueles cujo procedimento contraria habitualmente as normas e regras que orientam e tornam possível a boa convivência humana.

 

Ainda bem que a locução também tem o seu lado bom, porque ela pode ser usada nos casos em que alguém se destaca de forma positiva em alguma coisa. Embora não seja comum, também se diz nesses casos, e até mesmo com certa admiração e respeito, que “o cara é da pá virada”.