DAR COM OS BURROS N\'ÁGUA

O interior brasileiro é um celeiro farto de pequenas histórias que vieram sendo transmitidas de pai para filho através de gerações, todas elas com um fundo moral e educativo semelhante ao contido nas antigas fábulas de Esopo, La Fontaine, Fedro e outros fabulistas, o que pode ser facilmente percebido. Um exemplo disso é a frase-feita "dar com os burros n’água", inspirada, segundo dizem, em um caso supostamente verdadeiro, e que se manteve vivo na lembrança do povo porque também veio caminhando de boca em boca, durante a passagem do tempo.

 

Conta-se que dois tropeiros receberam de uma pessoa a incumbência de transportar determinada carga para um certo lugar. O dono da mercadoria tinha pressa em recebê-la, mas considerando que qualquer dos caminhos que os condutores dos animais percorressem rumo ao seu destino era muito acidentado, deu a eles o direito de escolher o que a tropa de cada um deveria levar, prometendo-lhes um prêmio a quem chegasse mais depressa com seus burros no local determinado. Diante disso, e pensando na recompensa que poderiam receber pelo serviço, eles decidiram que o primeiro levaria a carga de algodão, porque era leve, mas volumosa, e o segundo, a carga de sal, que apesar de não ser muito grande, era pesada e difícil de ser transportada. E em seguida iniciaram a jornada, mas por caminhos diferentes.

 

Em determinado trecho do percurso os tropeiros tiveram que vadear o mesmo rio, e foi então que aconteceu o inesperado. Porque na pressa de vencer o obstáculo o primeiro conduziu os burros para a água, o algodão encharcou, seu peso ficou insuportável, a carga foi levada pela correnteza e o pobre homem só a muito custo conseguir salvar a própria vida. Noutro ponto, o segundo fez a mesma coisa: entrou com os animais na água, mas quando chegou à outra margem, eles estavam descarregados, já que o sal havia se dissolvido. Dessa forma, a ânsia de ganhar dinheiro fez com que os dois condutores deixassem de cumprir e receber o que haviam tratado, pois ao induzi-los a dar com os burros n’água, provocou não só a perda da carga que lhes havia sido confiada, mas também a remuneração pelo serviço que prestavam.

 

Daí que a expressão "dar com os burros n’água" até hoje continua sendo usada quando se fala dos que fracassam na organização de qualquer empreendimento, mas a história que a originou tem uma outra versão pouco conhecida: a de que apenas um dos tropeiros não se deu bem na travessia do rio, porque o outro conseguiu passar com a carga que levava e por isso recebeu o prêmio prometido.

 

A expressão (popular) é dar com os burros na água (ou n'água) e significa isso mesmo. Em Portugal, usa-se mais no diminutivo: dar com os burrinhos na água. Significa, portanto, «não conseguir levar avante um empreendimento»; «ser mal sucedido»; «arruinar-se»; «falhar o negócio». Foi pela primeira vez registada por Manuel Viotti, no seu Dicionário de Gíria Brasileira. Vem dos tempos, ao que se julga, em que os tropeiros – negociantes ou meros condutores de 'tropa' (caravana de animais de carga, mulas e burros, nomeadamente), como se diz no interior Brasil – tresmalhavam-se numa qualquer travessia, intempérie ou fuga desordenada (por causa de um assalto, perseguição, etc.). Literalmente, davam mesmo com os burros na água... Por analogia, passou a empregar-se a expressão sempre que alguém se estatela por isto ou por aquilo.