Fé foi
uma deusa romana muito antiga, cuja festa era celebrada no dia 1º de outubro. Fiadora da veracidade e da lealdade tanto nas relações da vida pública como da privada, seu culto deu origem à locução "bona fide", que traduzia o procedimento leal, correto, de "boa fé". Seu templo localizava-se pouco acima do Capitólio romano, perto do templo de Júpiter, e seu prestígio devia ser bem elevado, pois na época imperial a figura da deusa foi representada com certa freqüência nas moedas que circulavam entre os romanos.
Como se observa, a expressão "boa fé" vem de longa data, tanto que o romano Marco Túlio Cícero (106 - 43a.C), que foi um excelente orador e escritor, fez menção a ela em pronunciamento onde defendia a necessidade de que os donos do poder agissem com correção e honestidade. Sobre Cícero, sua produção literária é a maior que se possui entre todos os escritores latinos, sendo precedida em qualidade apenas pelos poemas de Virgílio. Ele abordava temas diversos, desde orações, ensaios filosóficos e coleções de cartas, a estudos de retórica, a arte de bem falar que cultivava com esmero e que lhe possibilitou escrever o De Oratore, uma de suas mais obras famosas.
Educado cuidadosamente para a tribuna e para a vida pública, Cícero iniciou sua carreira política em 81 a.C., tornando-se admirado pelos discursos que fazia. Entre eles estão as 14 Filípicas, proferidas no decurso dos meses de setembro de 44 a março de 43 a.C., e que motivaram os senadores que compunham o Segundo Triunvirato romano a afastar de vez qualquer dúvida que tivessem sobre a inclusão de seu nome na lista dos cidadãos condenados à expulsão do império, ou simples extinção. Prevaleceu, no caso, a segunda hipótese, e assim o orador e escritor acabou sendo morto no interior de sua residência situada nas proximidades de Formia. Mas além da oratória contundente, também pesou contra Cícero seu posicionamento contrário ao imperador Antônio, que sucedeu a César, o que o fez lançar-se sem reserva a favor do Senado na luta contra o novo ditador. Por isso calaram sua boca.
Em Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de 1995, o filósofo francês André Comte-Sponville faz considerações interessantes sobre a boa-fé. Analisando-a, ele diz que “A boa-fé é uma sinceridade ao mesmo tempo transitiva e reflexiva. Ela rege, ou deveria reger, nossas relações tanto com outrem como conosco mesmos. Ela quer, entre os homens como dentro de cada um deles, o máximo de verdade possível, de autenticidade possível, e o mínimo, em conseqüência, de artifícios ou dissimulações. Não há sinceridade absoluta, mas tampouco há amor ou justiça absolutos: isso não nos impede de tender a elas, de nos esforçar para alcançá-las, de às vezes nos aproximarmos delas um pouco. A boa-fé é esse esforço, e esse esforço já é uma virtude”.
E conclui mais adiante: “Dir-se-á que a boa-fé não prova nada; estou de acordo. Quantos canalhas sinceros, quantos horrores consumados de boa-fé? E, muitas vezes, o que há de menos hipócrita que um fanático? Os tartufos são legião, porém menos numerosos talvez, e menos perigosos, que os savonarolas e seus discípulos. Um nazista de boa-fé é um nazista: de que adianta sua sinceridade? Um canalha autêntico é um canalha: de que adianta sua autenticidade? Como a fidelidade ou a coragem, a boa-fé tampouco é uma virtude suficiente ou completa. Ela não substitui a justiça, nem a generosidade, nem o amor. Mas que seria uma justiça de má-fé? Que seria um amor, ou uma generosidade de má-fé? Já não seriam justiça, nem amor, nem generosidade, a não ser que corrompidos à força de hipocrisia, de cegueira, de mentira. Nenhuma virtude é verdadeira, ou não é verdadeiramente virtuosa sem essa virtude de verdade. Virtude sem boa-fé é má-fé, não é virtude”.
Com virtude ou sem virtude, o fato é que a expressão "de boa fé" permaneceu viva durante todos esses séculos, identificando tanto as pessoas corretas e em cuja palavra se pode confiar, como também os homens ingênuos e sem maldade, facilmente enganados pelos mal-intencionados, desonestos e prevaricadores, e que por isso mesmo são tratados como homens de má-fé.