A expressão, que significa dádiva ou oferta que traz prejuízo ou aborrecimento a quem a recebe, surgiu em decorrência da Guerra de Tróia. A razão desse conflito está ligada à realização de um concurso em que três deusas (Hera, Afrodite e Atena) disputavam o título de rainha da beleza. Para juiz foi convidado Paris, filho de Priamo, rei de Tróia, a quem as três divindades femininas tentaram subornar; ao final, ganhou Afrodite, que havia prometido dar ao julgador a mais bela mulher do mundo, compromisso que a obrigou a ajudar o troiano no rapto da bela Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta. Mais adiante, quando os gregos velejaram para Tróia a fim de recuperar a rainha raptada, os outros deuses tomaram partido de um e outro lado, e por isso Zeus tentou afastá-los da guerra. Mas sua esposa Hera, que apoiava os gregos, usou perfumes para fazê-lo adormecer, e quando Zeus finalmente acordou, os troianos já haviam sofrido pesadas baixas.
A luta em torno dos muros de Tróia durou dez anos (1250 a 1240 a.C.). A Ilíada, do poeta Homero, trata apenas das seis semanas do último ano da guerra, mas o poema é uma história empolgante. Aquiles, a figura central dessa obra histórica, discute com Agamenon, fica furioso e ofendido e por isso se retira magoado para a sua tenda, enquanto os troianos sob o comando de Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia, afastam os gregos das muralhas da cidade. Quando Pátroclo morre, Aquiles reaparece para comandar os invasores de volta a Tróia, onde mata Heitor, mas convencido pelos deuses entrega a Priamo o corpo do guerreiro vencido, para que este seja sepultado com as honras de um herói.
Os gregos venceram a guerra com um truque que se tornou famoso. Segundo Thomas Bulfinch, em O Livro de Ouro da Mitologia, “... os gregos começavam a desanimar de conquistar Tróia pela força, mas a pedido de Ulisses resolveram recorrer a um estratagema. Fingiram estar fazendo preparativos para abandonar o sítio, e uma parte dos navios foi retirada e escondida atrás de uma ilha vizinha. Os gregos construíram, então, um imenso cavalo de pau, que fingiram ser um sacrifício oferecido a Minerva, mas que de fato estava cheio de homens armados. O restante dos gregos embarcou então em seus navios, que zarparam, como se estivesse partindo definitivamente. Os troianos, vendo que o acampamento fora levantado e a frota partira, chegaram à conclusão de que o inimigo abandonara o sítio. As portas foram abertas e toda a população saiu para gozar a liberdade há muito negada de passear à vontade no local onde estivera o acampamento. O grande cavalo foi o principal objeto de curiosidade. Todos queriam saber qual seria a sua finalidade. Alguns sugeriam que ele fosse levado para dentro da cidade, como troféu, ao passo que outros se mostravam receosos dele...”.
Finalmente, após muita discussão, o cavalo de madeira foi levado para dentro da cidade “ao som de cantos e aclamações triunfais, e o dia terminou festivamente. À noite, os homens armados que se encontravam dentro do cavalo, abriram as portas da cidade aos seus amigos, que haviam voltado com a proteção da noite. A cidade foi incendiada, e a população, entregue ao festim e ao sono, passada a fio de espada e Tróia completamente destruída".
Vitoriosos, os gregos uniram, de novo, Helena a Menelau, e todos voltaram para casa. Porém um deles, Ulisses, que tivera a idéia do cavalo de madeira, demorou dez anos para chegar em casa, o que resultou no segundo grande poema de Homero, a Odisséia.
Na grande epopéia do povo romano, Eneida, escrita por Virgílio, encontra-se a frase: “Eu temo os gregos, mesmo quando eles trazem presentes”. Inspirada na passagem mitológica que colocou um ponto final na Guerra de Tróia, essas palavras confirmam o sentido da expressão “presente de grego”, que outro não é senão o enunciado no início desta página: da dádiva ou oferta que traz prejuízo ou aborrecimento a quem a recebe. Da mesma forma como os troianos pagaram alto preço pelo cavalo de madeira que os gregos lhes deixaram como presente às portas de sua cidade, há mais de três mil anos