O padre André João Antonil sugere em seu livro “Cultura e Opulência do Brasil”, editado em 1982, ter sido ”um mulato que teria acompanhado uma bandeira paulista, como o que por primeiro teria encontrado ouro no Cerro Tripuí nas Minas Gerais. Eram “granitos cor de aço” que ele vendeu em Taubaté a um preço irrisório, sem saber o que havia encontrado. Mandaram umas amostras para o governador do Rio de Janeiro, Arthur de Sá, e verificou-se que ‘era ouro puríssimo’. Outros indicam o nome de Antônio Rodrigues Arzão, que, por volta de 1693, teria garimpado substancial lavra na Casa da Casca, da qual também não chegou a tirar proveito. Seu concunhado, porém, um tal de Bartolomeu Bueno Siqueira, conseguiu tal intento, só que nas barrancas de Itaverava.
A descoberta de ouro no Brasil colônia iniciou um novo ciclo de prosperidade em Portugal, permitindo que a corte portuguesa passasse a desfrutar de muito luxo e muita riqueza. Desde fins do século 17, quando o açúcar das Antilhas começou a ser vendido por holandeses, franceses e ingleses, superando dessa forma o produto brasileiro, a economia lusa se enfraquecera porque passara a depender basicamente do vinho, e ele não era suficiente para manter equilibradas as suas relações de troca. Com isso a dívida junto aos ingleses foi aumentando, e a chegada do ouro brasileiro aconteceu em boa hora pois resolveu os problemas financeiros da coroa. Para isso a colônia entregava grande parte do metal produzido em suas minas através do imposto cobrado pela metrópole, mas apesar do peso da arrecadação que conseguia, o rei Dom João V desconfiava que, na verdade, o ouro retirado das minas era em quantidade bem maior do que a declarada por seus administradores. Por causa disso ele reforçou a fiscalização, instalou casas de fundição para onde deveria ser levado todo o ouro a fim de que fosse fundido em barras, o que possibilitaria um controle mais rigoroso, e decretou que o imposto devido passaria a corresponder à quinta parte do ouro produzido, ou seja, vinte por cento de tudo que fosse extraído.
Esse ouro seguia para Portugal em navios especiais conhecidos como a “nau dos quintos”. Por outro lado, os portugueses degredados vinham para o Brasil nessas mesmas embarcações, e sobre esse tipo de viagem se dizia que era “ir na nau dos quintos”. Para completar, a idéia que se fazia sobre a colônia, naquela época, era a pior possível, já que os portugueses acreditavam que nela só seriam encontrados índios selvagens, criminosos, violência, aventureiros de toda a espécie, piratas em busca de riquezas, febres desconhecidas e doenças sem cura. Tudo isso fazia com que os portugueses acreditassem ser o Brasil a sucursal do inferno, resultando daí que quando o barco trazendo o ouro brasileiro subia o rio Tejo, os que o avistavam diziam “lá vem a nau dos quintos do inferno”, associando assim as suas duas certezas.
E essas naus não eram poucas. Em seu livro “História Econômica do Brasil”, o escritor Roberto Simonsen revela que entre 1700 e1770, a produção do ouro brasileiro alcançou cerca de 50% do que o resto do mundo extraiu entre os séculos XVI e XVIII. O Barão von Eschwege estimou que de 1600 a 1800, esse total alcançou 951 toneladas, valendo 130.000.000 de libras esterlinas; Pandiá Calógeras atingiu mais ou menos essa aproximação: 135.000.000 de libras esterlinas e 983 t., entre 1700-1801; já o Barão von Humbold aumentou-o para 194.000.000 de libras esterlinas, cobrindo um período maior, de 1500 a 1803.
A expressão “quinto dos infernos” é decorrente dessas circunstâncias, e serve hoje como indicativo do lugar para onde se deseja encaminhar as pessoas que de alguma forma estão pisando no pé da gente. E se possível, sem passagem de volta.