SANGRIA DESATADA

A sangria constitui um dos processos terapêuticos mais antigos, e sua prática ainda pode ser observada entre os atuais povos selvagens. Ao lado dela, foi igualmente tradicional o emprego, para o mesmo fim, das sanguessugas, ventosas, cauterizações e outros meios, todos esses processos baseados a princípio na crença de que os males do corpo eram causados por um demônio que se incrustava nele causando dores, inflamações e outras conseqüências, e que para alívio do paciente seria necessário expulsar esse ser maligno, o que se fazia por meio de uma abertura na parte correspondente do corpo, para que ele saísse por ali junto com o sangue que jorrava. Mais tarde, verificou-se empiricamente que a operação produzia realmente determinados efeitos às vezes diferentes da intenção inicial, e então a tradição consagrou certas normas para que a sangria pudesse ser realizada.

 

Além disso, algumas perdas naturais de sangue, como sangrias pequenas do nariz e as menstruações, mostraram ter efeito benéfico, o que orientou igualmente o homem primitivo no sentido de determinadas práticas de sangria. Para os antigos, o sangue constituía um dos quatro humores do corpo, ao lado da pituita (um líquido branco e viscoso segregado particularmente pelo nariz e pelos brônquios, e que aparece na expectoração e no vômito dos alcoólatras), da bílis amarela e da bílis negra. A lenda grega atribui a invenção da sangria a um filho de Esculápio, ou Asclépio, deus da medicina, que a teria usado quando fugia de Tróia: foi dessa forma que ele salvou a vida de uma filha do rei de Cária.

 

O uso da sangria se desenvolveu extraordinariamente nos séculos posteriores, mas suas indicações atuais estão condicionadas mais aos sintomas que às afecções, notadamente na hipertensão venosa e transtornos cardiovasculares, além de algumas outras situações específicas. A expressão “sangria desatada” ainda representa alguma coisa da simbologia de antigamente, porque continua nos trazendo a idéia de pressa, de urgência, de celeridade, e é usada agora para expressar justamente a necessidade de que algo precisa ser feito o mais depressa possível, sem que essa providência esteja necessariamente restrita ao campo da medicina. Já a sua negativa significa justamente o contrário, ou seja, que o problema a ser resolvido não é tão preocupante e por isso pode ser enfrentado com um pouco mais de calma.

 

No texto “Modismos na História da Medicina”, uma adaptação do livro “Vertentes da Medicina”, o autor Joffre M. de Rezende esclarece que “Na História da Medicina encontramos modismos que atravessaram milênios, ao lado de outros de breve duração; modismos limitados a um povo ou a determinada área geográfica e outros que tiveram aceitação universal; modismos intermitentes que surgiram, desapareceram e renasceram sob nova aparência. O primeiro deles que gostaríamos de mencionar, por sua importância e universalidade, é a sangria. Todos os povos, de todas as latitudes, e em todas as civilizações, utilizaram-se da sangria no tratamento das doenças. Inicialmente como um ritual impregnado de conteúdo místico e posteriormente sob o fundamento de doutrinas que justificavam tal prática. Desde a medicina hipocrática até o século XIX, antes de Virchow, predominou a teoria dos humores para explicar todos os fenômenos biológicos e a sangria se destinava a eliminar as impurezas contidas no sangue, causadores do estado mórbido. Por meio dela retirava-se o humor "vicioso" e outros tipos de humores que se acreditavam responsáveis pelas doenças. Galeno deu grande importância à sangria. Indicava sangria como tratamento das inflamações, da febre da dor. Tinha o bom senso, todavia, de contra-indicar o seu uso nas crianças e nos velhos. É interessante assinalar que no Renascimento, quando todos os valores eram questionados, houve acirrada polêmica não sobre o valor da sangria, mas sobre o local mais adequado para praticá-la. Quanto mais grave a doença maior era o número de sangrias e maior a quantidade de sangue retirado. No Brasil, a sangria era utilizada pelos jesuítas, que chegavam a praticá-la como medida preventiva em casos de epidemias. Usou-se e abusou-se da sangria.

 

Outra variante da sangria consistia na aplicação de sanguessugas. As sanguessugas são vermes que vivem em águas estagnadas, represas e lagos, e que se alimentam de sangue de animais que penetram nessas águas. São dotadas de uma ventosa na extremidade proximal e cada exemplar pode sugar entre 10 a 15 ml de sangue. Foram muito utilizadas em substituição à sangria. No início do século XIX o comércio de sanguessugas constituía uma atividade bastante lucrativa, sobretudo na Europa. Os hospitais da França, somente no ano de 1824, despenderam meio milhão de francos na aquisição de sanguessugas para uso em seus pacientes. Broussais, professor de Patologia Geral em Paris, tornou-se campeão no emprego de sanguessugas, chegando a aplicar centenas de sanguessugas por dia no mesmo paciente. As hemorróidas, especialmente, eram tratadas pelas sanguessugas aplicadas localmente”.