SÃO FAVAS CONTADAS

Fava é o nome dado a quase cem variedades de plantas da família das leguminosas, cujos frutos são vagens inchadas, retas ou curvas, contendo de três a oito sementes grandes e de formato oval. Tal designação também inclui as ervilhas, feijões, lentilhas, soja e amendoim, grãos ou vagens extremamente energéticos e com baixo teor de água quando comparados com as verduras frescas, razão pela qual podem ser armazenados por longos períodos. As favas também são importantes como fontes fornecedoras de proteína vegetal.

 

A fava é cultivada desde as épocas antigas, e os egípcios, que evitavam comer seus grãos porque estes eram considerados impuros pelos sacerdotes, se tornaram, tempos depois, grandes produtores do cereal. Os gregos também cultivaram esta planta em grande escala, apesar da proibição de Aristóteles, Pitágoras e seus seguidores, que afirmavam haver semelhança acentuada entre as favas e os corpos animados e por isso atribuíam a elas uma alma sujeita ao fenômeno da transmigração (segundo sua doutrina, a passagem das almas de uns para outros corpos). Essa superstição teve muitos adeptos em Roma, inclusive Cícero, mas Horácio a ridicularizou afirmando que só não a comeria porque nela poderia estar hospedada a alma de algum parente seu.

 

Os romanos fizeram dela um de seus alimentos principais, e já naquele tempo Catão alertou sobre a capacidade que tinha este vegetal de melhorar as terras onde era cultivado. Dessa época em diante a cultura da fava se desenvolveu em quase toda a Europa, sendo sua farinha, rica em proteína digestível, misturada à do trigo nos períodos em que este se tornava escasso. No período dos descobrimentos marítimos ela também foi um dos grandes recursos alimentares utilizados pelos navegadores portugueses, porque resistia bem às variações atmosféricas e por isso se mantinha por mais tempo em boas condições de consumo.

 

Acontece que em épocas passadas as sementes de fava também foram aproveitadas em finalidades diferentes, como a de efetuar contas, por exemplo, ou nos processos de votação, sendo que nesse caso os eleitores favoráveis a alguém ou alguma coisa depositavam na urna sementes brancas, e os contrários, sementes pretas, da mesma forma como acontece hoje em dia em alguns clubes chiques quando seus conselheiros, usando agora outros materiais, decidem se a admissão de um novo sócio vai ou não vai ser sacramentada. Depois, bastava contar o número de favas brancas e favas pretas encontradas na caixa, sendo declarado vencedor aquele que tivesse o maior número das primeiras (alguns dicionários registram “fava preta” como sendo voto de reprovação).

 

Esse procedimento é antigo, e o folclorista Luiz da Câmara Cascudo registra que na obra póstuma “Comédia Ulisippo” , editada em Lisboa, em 1618, seu autor, Jorge Ferreira de Vasconcelos, falecido em 1585, já anotava a seguinte fala “E porque sei isto há muitos dias, quem de mim quiser alguma coisa, meta a mão na bolsa, porque são favas contadas”. Modernamente, a expressão “são favas contadas” indica a certeza de que as coisas estão decididas e que não existe o menor risco de que elas possam ser alteradas de alguma forma. A palavra também é empregada nas expressões “mandar à fava, ou às favas”, com sentido de despedir algum importuno, e “vá à fava, ou às favas”, traduzindo frase de desprezo que se diz à pessoa importuna, com a intenção de afastá-la, embora não sejam conhecidas as razões que provocaram o surgimento das duas.

 

Um registro interessante sobre as favas é que durante a Idade Média a festa de Epifanía (Dia de Reis) era celebrada em países cristãos europeus com um bolo especial que continha uma dessas sementes, símbolo de fertilidade e de fartura.  Esse costume vinha do tempo dos romanos antigos, que nas Saturnais elegiam como rei ou rainha da festa aquele que encontrasse a fava, da mesma forma como continuou acontecendo posteriormente. Mas desde o final do século XIX essas favas foram trocadas por figuras de porcelana que hoje encantam os colecionadores.