SUPLÍCIO DE TÂNTALO

A expressão é usada para designar a condição do indivíduo que usualmente se vê condenado a abandonar aquilo que possui ou está ao seu alcance, ou então a colocar de lado os desejos formulados e projetos idealizados, mesmo quando eles estão prestes a ser alcançados ou concluídos. Sua origem tem ligação com o castigo imposto a Tântalo, rei da Lídia, um reino que sob a dinastia dos Mérmnadas (700-546 a.C.) tornou-se culto e poderoso, tendo contribuído de forma considerável para o progresso industrial na antiguidade, especialmente no tocante à cunhagem de moedas.

 

Diz a lenda que Tântalo, filho de Zeus, o deus supremo, com a ninfa Plota, foi admitido à mesa dos imortais, e durante uma das refeições decidiu roubar o néctar e a ambrosia para que os humanos pudessem apreciá-los. O néctar, que conhecemos como a substância açucarada segredada pela flor, era a bebida consumida no Olimpo, e a ambrosia, que dava e conservava a imortalidade dos deuses (para alguns poetas tratava-se de um alimento sólido, e para outros, de uma bebida deliciosa), constituíam a dieta diária das entidades divinas, e por essa razão estavam proibidos para os seres humanos. Sobre ambos, contava Calíoco (310-240 a.C.), poeta e gramático grego, que a ambrosia havia corrido pela primeira vez de um dos chifres da cabra Amaltéia (ama de Júpiter, algumas vezes figurada como uma ninfa, e outras como uma cabra), ao mesmo tempo de que do outro brotava o néctar.

 

Não satisfeito com o que havia feito e pretendendo vingar-se de Tros (herói grego de cujo nome se originou o da cidade de Tróia), com o qual havia se desentendido, Tântalo raptou Ganimedes, filho de seu desafeto, e o levou a Zeus, para que servisse de copeiro no Olimpo. Em seguida estrangulou seu próprio filho Pélops e o serviu aos deuses num festim, só para observar os paladares divinos. Em virtude disso, e por ordem de Zeus, foi precipitado no Tártaro, abismo situado no fundo do inferno e no qual já haviam sido aprisionados os titãs rebeldes, onde foi atado pelas deusas Erínias (as da vingança) a uma árvore carregada de frutos, no meio de um regato que corria límpido e cristalino, e ali, sedento e faminto, ele via a água escapar-lhe incessantemente dos lábios e os ramos se levantarem sempre que ele procurava alcançá-los com as mãos. Mas na versão do poeta grego Píndaro (522-443 a.C.), Tântalo aparece sob um rochedo, cuja queda iminente ameaça sua cabeça.

 

Sobre Pelóps, cujo nome está relacionado à instituição dos primeiros Jogos Olímpicos, é interessante lembrar que foi morto pelo pai, mas salvo pelos deuses, que o ressuscitaram. Ele então deixou a Lídia e emigrou para a Grécia, instalando-se na região posteriormente chamada de Peloponeso, em sua homenagem. Já em sua nova moradia, Pelóps decidiu casar-se com Hipodâmia, filha de Enômao, rei da Elida, que para afastar os pretendentes à mão da moça estabelecera que a autorização para o casamento só seria concedida como prêmio a quem o vencesse em uma corrida de carros. Em compensação, quem fosse derrotado por ele, morreria. O rei tinha cavalos divinos presenteados por Ares (Mercúrio), e com esses animais havia vencido facilmente os doze primeiros candidatos, dos quais cortara as cabeças e as pendurara na porta de sua casa, para desencorajar os possíveis futuros interessados.

 

Acontece que Hipodâmia apaixonou-se por Pélops e o ajudou a subornar Mirtilo, o cocheiro do rei, que assim sabotou o carro de Enômao e assegurou a vitória do pretendente. Em virtude disso o casal e o cocheiro tiveram de fugir e posteriormente, por razões desconhecidas, Pélops teve de matar Mírtilo, que lançou sobre ele, segundo alguns autores, a maldição que marcaria sua família daí em diante.