Ter fogo no rabo é uma locução com duas aplicações diferentes. Na primeira, ela é empregada para identificar as crianças inquietas e em permanente movimentação, aquelas que não conseguem ficar sossegadas em um canto por mais de um minuto; em outro, tem relação com as pessoas possuidoras de muito desejo sexual, as assanhadas que não podem ver homem, as messalinas modernas donas de uma vida lasciva e voluptuosa.
Referindo-se aos meninos e meninas ainda na primeira fase de vida, a professora Nair Gurgel, do Departamento de Letras da Universidade Federal de Rondônia, ao comentar as obras de Ziraldo, conhecido desenhista e escritor de histórias infantis, esclarece que “Ter fogo no rabo” é também uma expressão popular muito utilizada para crianças inquietas, que não sossegam. Ter fogo no rabo quer dizer não conseguir sentar-se por muito tempo, como se algo estivesse queimando as nádegas, o bumbum, a bunda, enfim, o rabo mesmo. Fogo e rabo são duas simbologias ligadas ao 'diabo' ao 'capeta', o que nos permite buscar nas vozes da História e na interpretação do leitor, a voz do autor. O menino maluquinho é uma criança muito danada, esperta, sagaz, inquieta, enfim, “endiabrada”.
Mas os adultos também estão incluídos nesse rol de desassossegados, de dominados pela inquietude. E é por isso que o professor Reinaldo Polito, dono de um curso de expressão verbal, nos relembra em seus ensinamentos:
“A expressão parece meio vulgar, mas se a minha avó, que era uma santa de mulher, já usava essa frase para identificar as pessoas que não paravam no lugar, por que eu, que perto dela posso ser visto com um tridente na mão e num cenário de labaredas, não ousaria usar? Por essa explicação você já percebeu que ouvinte com fogo no rabo é aquele que dá a impressão de que a cadeira está sempre queimando seu traseiro e por isso sai de um lugar e vai para o outro, sai da sala e volta, torna a sair e retorna. Minha sugestão é que não dê muita importância a esse tipo de importunador. Ele chama a atenção dos ouvintes na primeira ou segunda vez em que se levanta, mas depois as pessoas se acostumam, esse movimento deixa de ser novidade e ninguém mais se importa com as idas e vindas dele. Mesmo que você venha a se incomodar, o que poderia fazer? Parar a cada entrada e saída seria ainda pior. Também não é um caso tão comum, mas de vez em quando aparece alguém deixando aquele rastro de fumaça, identificando um legítimo ouvinte que tem fogo no rabo”.
No campo do erotismo a expressão também tem a sua hora e vez de ser usada, principalmente nesses tempos de completa e absoluta liberação sexual que caracteriza o mundo moderno. A dupla sertaneja Teodoro e Sampaio, por exemplo, apresenta em seus espetáculos em todo o país, a música intitulada Fogo no Rabo, autoria de Praense e Teodoro, cuja letra diz em alguns versos:
“Alô, meu bem, aqui é o Ricardão e eu tô na praça. / Oh, meu bem / meu coração ta pulando. / Manda seu marido embora / que seu macho está chegando. / To na praça, tô carente. / Se eu não te ver eu me acabo. / Hoje eu vou te encontrar / e não tem marido bravo. / Vou levar minha pistola / e já vou com a mão no cabo. / Nós vamos lá pro motel / vamos fazer um trembel / e apagar o fogo do rabo / Fogo no rabo”.
Edu Lobo e Chico Buarque, não ficam atrás. Em Frevo Diabo, seus versos dizem o seguinte:
“É bom, é brabo, é o frevo / Diabo no corpo, torto, corpo / Pára mais não / Fogo no rabo de qualquer cristão / Solta o frevo diabo e adeus procissão / Pelo sinal da santa cruz pandemônio / No dia da padroeira / Não tem romeira? / Tem, são morenas / Não tem novenas, / diabo, a gente é feliz / Não tem sermão? / Tem não, tem orquestra / E cana, e briga, e fogo, / e festa na matriz.
Como se vê, a expressão “Ter fogo no rabo” cria uma figura de imagem para mostrar como são os indivíduos agitados, os que nunca param, os buliçosos, turbulentos e os que parecem sentir prazer em tirar o sossego dos outros. No âmbito do convívio social, essas pessoas, cada uma a seu modo, são praticantes de atividades desordenadas, incoerentes, acompanhadas de emoções perturbadas e distorções de imaginação e percepções. Pelo menos é isso o que dizem os entendidos.