Duas lendas gregas guardam grande semelhança entre si: a de Sísifo, lendário rei de Corinto, e a de Tântalo, não menos famoso rei da Lídia. Segundo a Ilíada, de Homero, Sísifo foi o mais astuto e o mais sábio dos homens, tendo edificado a cidade que governava e construído o grande muro de defesa que protegia o istmo de Corinto, uma estreita faixa de terra ligando a península do Peloponeso ao continente. Entrincheirado em sua cidadela, o rei espoliava impunemente os viajantes que pretendiam atravessar aquela região.
A antiga Corinto, situada a poucos quilômetros da cidade atual, provavelmente surgiu novecentos anos antes de Cristo graças a invasores que dominaram aquela região, e em virtude da localização privilegiada do istmo tornou-se o principal entreposto comercial da época, propiciando a criação de numerosas colônias. Sua importância era tão grande que nela o apóstolo São Paulo estabeleceu uma de suas primeiras igrejas, dirigindo a seus habitantes as duas epístolas conhecidas como I e II aos Coríntios, textos bíblicos nos quais os censurava pelas divisões que os agitavam e escândalos que surgiam entre eles, e depois os felicitava pela docilidade para com seus avisos, ao mesmo tempo em que refutava as calúnias que alguns falsos irmãos haviam espalhado contra ele. A velha cidade, sob domínio grego a partir de 1822, foi destruída por um terremoto, e a nova fundada em 1858.
Com relação a Sísifo, uma das versões sobre esse rei diz que ele havia prendido a Morte e que a conservou amarrada até que Ares (Marte), em atenção ao pedido que lhe fora feito por Hades (Plutão), foi soltá-la. Por isso, quando o rei morreu, foi condenado ao Inferno, mas chegando lá ele se lastimou tanto que foi autorizado a voltar à Terra a fim de castigar quem o tinha denunciado. Vendo-se novamente em sua cidade, Sísifo recusou-se a retornar à região dos mortos, razão pela qual foi preso por Hermes (Mercúrio) e reconduzido para lá, onde foi condenado ao suplício que se tornou famoso: era obrigado a levar um grande bloco de pedra ao pico de uma das montanhas mais altas daquele lugar sinistro, mas quando se aproximava do cume a rocha rolava de volta ao lugar onde estava antes, e se porventura o sentenciado parasse no caminho, era chicoteado por uma das Erínias, as deusas da vingança. E ele então recomeçava a tarefa que lhe fora imposta. Esse tormento, que deveria durar eternamente, também é conhecido como Rochedo de Sísifo, e simboliza todo o trabalho que é inútil, cansativo e parece não ter fim.
Sobre Sísifo, diz Thomas Bulfinch em seu O Livro de Ouro da Mitologia: “Ixion lá estava, preso a uma roda que girava incessantemente, e Sísifo, cuja tarefa consistia em rolar uma enorme pedra até o alto de um morro. Mas quando já se encontrava bem avançado na encosta, a pedra, impelida por uma força repentina, rolava de novo para a planície. Sísifo a empurrava de novo morro acima, coberto de suor, mas em vão”. Outro autor, Márcio Pugliesi, a ele se refere em Mitologia Greco-Romana - Arquétipos dos Deuses e Heróis: “Uma grande quantidade de autores afirma que (Sísifo) teria sido um dos piores malfeitores da Ática, responsável pela morte de todos os estrangeiros que lhe caíam nas mãos e, ademais, especialista em latrocínios. De qualquer modo, seu nome ficou associado a trabalhos intermináveis e incessantes. O professor Tércio Sampio Ferraz Jr, em seu livro Introdução ao Estado de Direito, refere-se a uma categoria de normas como comandos-Sísifo, isto é, aqueles cujo cumprimento implica a realização ininterrupta de ações; como exemplo, pode-se citar o seguinte: ‘Sempre que a porta estiver fechada, deve ser aberta; e sempre q eu estiver aberta, deve ser fechada”.
A expressão “trabalho de Sísifo” é aplicável, portanto, em todos os casos de labor infrutífero, de trabalho em vão ou de esforços baldados e inúteis, sem término e sem qualquer finalidade proveitosa.