A tristeza é sintoma de muita coisa: desde melancolia, consternação e abatimento, até a falta de alegria, a desolação, a saudade e outros sentimentos do mesmo tipo, que se tornam perceptíveis através do aspecto acabrunhado e deprimido de quem está vivendo algum problema sério ou sofreu qualquer tipo de perda, de decepção. De outro lado, dívida é simplesmente o que se deve, o que se tem que pagar. Melhor dizendo, seu sentido é o da coisa que se está obrigado a entregar ou fazer em relação a outra pessoa, o que inclui desde o dinheiro, mola mestra do mundo, até a inocente retribuição do almoço dominical que a família do fulano ofereceu à do beltrano para fortalecer a amizade entre elas.
A dívida financeira é, ou era, a pior de todas elas, porque se o indivíduo tem o compromisso de pagar algum valor em data previamente combinada, e não dispõe do dinheiro, isso é, ou seria, motivo suficiente para fazer o devedor perder noites e noites de sono, desesperado, sem saber como solucionar o problema. Tem gente, inclusive, que se matou por causa disso. A diferença nos tempos de conjugação do verbo ser (é/era, é/seria) que aparece aí atrás, deve ser explicada pelas diferenças que existem agora (em relação ao passado) no ato de “viver a vida”, ou seja, o que as pessoas não faziam antes, por não ser social ou honestamente correto, fazem hoje no maior descaramento do mundo, porque a “modernidade” ensinou aos brasileiros que não há por que se preocupar com o apontamento do seu nome no SPC, nos cartórios de protesto, no registro de cheques devolvidos por falta de fundos, nas delegacias policiais ou até mesmo no STF. Para tirar o dele “do rumo”, basta dizer que não sabia de nada.
Quanto aos recalcitrantes, os que ainda dão valor ao princípio ético de “nome limpo na praça“, é recomendável a leitura do livro “Tristezas não pagam dívidas”, de Mara Luquet, lançado pela Editora Saraiva, cuja sinopse diz que “Neste livro, a autora deixa a companhia daqueles que costumam pagar tudo em dia e ainda conseguem guardar dinheiro no fim do mês para se juntar aos milhares de brasileiros que têm problemas para pagar suas dívidas. No livro, ela conta diversos casos reais vivenciados por ela, que quebrou duas vezes, e por amigos e parentes. Com essas histórias o leitor vai se divertir muito, mas, principalmente, vai aprender a lidar com o problema das dívidas sem culpa e com muita responsabilidade. Não há razão para ter vergonha, grandes gênios, como Mozart, Balzac e Lincoln, já tiveram problemas para pagar suas dívidas”.
O recado da autora Luquet não poderia ser mais pertinente, uma vez que a adequada administração da economia doméstica, ou empresarial, é o procedimento que mantém do lado externo da porta os problemas criados pela falta de dinheiro. Trocando em miúdos, isso quer dizer que se você ganha dez, e gasta onze, “está lascado”, conforme se diz aí pelas ruas. Se ganha dez, e gasta dez, continua sendo imprevidente, porque a falta de lastro pode fazer com que, um dia, o seu balão financeiro se solte das amarras e desapareça nas alturas do endividamento. Mas se ganha dez, e gasta nove, aí sim, você tem a necessária paz e tranqüilidade para desfrutar das belezas que só são vistas por quem tem olhos para vê-las.
Alguém já disse que tristezas não pagam dividas... mas um sorriso pode atrasá-las. Bobagem! Dívidas são dívidas, e os que se importam com elas se sentem na obrigação de resgatá-las na data aprazada, no que estão absolutamente corretos. Mas fazendo isso, preferentemente, com algo que tenha o mesmo valor pecuniário, e não com lágrimas, lamentos e desculpas. Antigamente o brasileiro acreditava que tristezas não pagam dívidas, frase que alguns estudiosos da língua falada e escrita garantem ter sido encontrada em registros referentes ao século 17, mas que se tornou popular entre nós a partir dos anos 40 do século passado, quando um filme estrelado por Oscarito desnudou nas telas o nascente jeitinho brasileiro de “empurrar com a barriga”, do “amanhã a gente dá um jeito”, do “vamos esperar pra ver como é que fica”, do “não existem provas!”, do “eu fui enganado”, e outros trambiques mais.
Oscarito foi um famoso ator, compositor e comediante. Nascido em Málaga, na Espanha, mas naturalizado brasileiro (seu nome completo era Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Dias), ele se tornou o rei das chanchadas produzidas pela companhia cinematográfica Atlântica e estreou um filme com esse mesmo título, cuja apresentação diz que “Até os anos 30, o país era predominantemente agrário, carregando o legado escravista e ainda não existindo como nação. Não era uma totalidade política, territorial, econômica e social integrada num sistema. A Revolução de 30 instaurou uma centralidade política que inexistia na Velha República, iniciando uma revolução industrial e uma racionalização do Estado com o propósito de dar nova cara ao Brasil. Do ponto de vista cultural e, sobretudo após 1937, o Estado brasileiro inaugurou uma série de políticas públicas: ensino fundamental, definição do português como língua oficial de ensino em escolas primárias, incentivo à cultura brasileira, visando à construção e ao desenvolvimento da brasilidade. Nesse momento, foram inventados os símbolos de identidade nacional: Carnaval, futebol e samba".
E deu no que deu.
A partir daí a frase Tristezas não pagam dívidas, cujo sentido lógico é o de que as pessoas em dificuldades financeiras não devem ficar tristes, foi adotada pelo povo brasileiro como nenhum outro havia feito até então. Virou letra da música do saudoso sambista Ismael Silva (cujos versos iniciais dizem: Tristezas não pagam dívidas / Não adianta chorar / Deve-se dar o desprezo / A toda mulher que não sabe amar), e deu nome a livros, crônicas, histórias e coletâneas para todos os gostos, principalmente porque somos um povo alegre e devemos uma barbaridade. Somadas, nossas dívidas externas e internas passam de quantos bilhões de dólares? Ninguém sabe. Uma informação relativamente recente, fornecida por escritório que atua entre os “graúdos” do meio financeiro, diz que em 2003 a dívida externa brasileira era de US$ 165 bilhões de dólares. E se somos 165 milhões de brasileiros, significa dizer que a quota-parte de cada um de nós nessa montanha astronômica de contas a pagar, é de exatamente 165 mil dólares, fora a dívida interna.
Não vá chorar por causa disso, meu amigo! Porque tristezas não pagam dívidas, a não ser as dos autores de novelas da tevê, e dos psicanalistas, é claro...