Na mitologia grega, Hermes tinha o privilégio de ser o mensageiro dos deuses, e a cada uma das atribuições que as entidades divinas lhe davam, correspondia uma determinada qualificação. Assim, ele se tornou o deus dos rebanhos, das estradas e encruzilhadas, dos mercados, do lucro, da eloqüência, dos concursos, dos ladrões, encarregado de conduzir as almas ao inferno, e outros mais. Galante e conquistador por natureza divina, tornou-se pai de muitos filhos, entre os quais Hermafrodito, Autólico (padroeiro dos ladrões) e Pã (o deus agreste).
As diversas atribuições concedidas a Mercúrio davam-lhe uma importância considerável no conselho dos deuses. Por outro lado os homens também lhe imputavam muitos talentos, como a de quem formara em primeiro lugar uma língua exata e regular, quem inventara os primeiros caracteres da escritura, quem regulara a harmonia das frases, quem pusera nome a uma infinidade de coisas, quem instituíra práticas religiosas, quem multiplicara e fortalecera as relações sociais, quem ensinara o dever aos esposos e aos membros da mesma família. Ensinara também aos homens a luta e a dança, e em geral todos os exercícios ao ar livre que necessitavam força e graça. Finalmente foi ele o inventor da lira, à qual deu três cordas, e que ficou sendo o instrumento de Apolo.
Suas qualidades, no entanto, foram obscurecidas pelos inúmeros defeitos que demonstrou, porque “sendo mensageiro dos deuses e particularmente de Júpiter, ele os servia com um zelo infatigável e sem escrúpulo, mesmo nos empregos pouco honestos” (Márcio Pugliese, em seu livro “Mitologia Greco-Romana”). Daí a razão de ter sido acusado de inúmeras ladroeiras e finalmente expulso do céu, reduzido à função de guardador de rebanhos na Terra. Como deus, Hermes (Mercúrio, para os romanos) é representado por uma figura trazendo asas no chapéu e nas sandálias, e tendo nas mãos uma vara (caduceu) encimada por duas asas e com duas serpentes entrelaçadas, que na antiguidade era a insígnia dos arautos e dos mensageiros.
Revela a história que a federação da Acaia, situada ao norte do Peloponeso, na Grécia, tinha como centro político e religioso a cidade de Hélice, famosa em virtude do seu templo dedicado a Posseidon (Netuno, para os romanos), senhor do mar e da navegação, mas destruída no ano de 373 a.C. por um terremoto e uma onda gigantesca. Lá também Hermes era honrado, e seus seguidores perguntavam junto ao ouvido da sua estátua aquilo que desejavam saber. Depois eles cobriam a própria cabeça com um manto, saíam do templo, e as primeiras palavras que ouvissem nas ruas seriam a resposta do deus mensageiro às suas dúvidas e hesitações. Foi assim que nasceu a convicção de que “a voz do povo é a voz de Deus”.
A crendice popular até hoje segue o mesmo caminho. O folclorista Câmara Cascudo revela em seu livro “Superstições no Brasil”, que se uma jovem colocar uma moeda na fogueira e retirá-la do braseiro pela manhã, dando-a ao primeiro pedinte que encontrar, terá como noivo alguém com o mesmo nome do mendigo. Ou então se colocar água na boca e esconder-se atrás da porta, o primeiro nome que ouvir será o do futuro cônjuge. Isso porque, como vimos, “vox populi, vox Dei”.