VITÓRIA DE PIRRO

Pirro (318 a.C.-272 a.C.), rei de Épiro, antiga região da Grécia (atual Albânia) à beira do mar Jônio (ilustração), tornou-se famoso por ter sido um dos principais opositores aos romanos. Bisneto do grande guerreiro grego Aquiles, e primo materno de Alexandre Magno, rei macedônio, teve sua vida marcada não só por grandes feitos militares, mas também por dificuldades e atribulações diversas, inclusive quando de sua morte: segundo conta a lenda, em 272 a.C. ele decidiu intervir numa disputa cívica em Argos, e para isso entrou com o seu exército na cidade, às escondidas, mas acabou envolvido em confusa batalha travada nas ruas estreitas da localidade. Durante a luta, uma velha que observava tudo do alto de um telhado, atirou uma telha em Pirro, que caiu atordoado, disso se aproveitando um soldado inimigo para matá-lo. Outra versão, porém, diz que ele foi envenenado por um servo.

 

A história registra que em 281 a.C., a cidade grega de Tarento, no sul de Itália, foi atacada pelos romanos, cujo império, àquela altura, já crescera o bastante para almejar a conquista da Magna Grécia, ou Itália do Sul. Diante da iminência da derrota, os tarentinos não encontraram outra solução senão pedir auxílio a Pirro, que encorajado pelo oráculo de Delfos concordou em atendê-los. Acontece que as pretensões do rei de Épiro iam bem mais além do que o simples socorro solicitado pelos moradores de Tarento, pois ele almejava ardentemente satisfazer seu desejo de conquista formando um império na Itália. Para isso aliou-se a Ptolomeu Cerauno, rei da Macedónia e seu vizinho mais poderoso, organizou seu exército e embarcou em seguida para a Itália, aonde chegou em meados de 280 a.C., à frente de uma extraordinária força militar composta por 3.000 cavaleiros, 2.000 arqueiros, 500 fundeiros, 20.000 soldados de infantaria e 20 elefantes de guerra. Com esse grande número de guerreiros Pirro pretendia não só evitar a conquista de Tarento pelos romanos, mas principalmente subjugar os inimigos que encontraria pela frente.

 

Devido à superioridade da sua cavalaria e dos seus elefantes, Pirro derrotou os romanos na batalha de Heracléia, perto do golfo de Tarento, primeiro confronto direto entre os dois adversários. Nela, os romanos perderam 7.000 homens, ao passo que Pirro sofreu cerca de 4.000 baixas. Embora o número das mortes registradas pelos dois lados fosse bastante alto, seu resultado, porém, não costuma ser considerado como uma vitória de Pirro. Porque isso aconteceu no ano seguinte, em 279 a.C., quando os soldados epirenses invadiram a Apúlia, região que forma o calcanhar e a espora da bota da Itália: nessa ocasião os dois exércitos tornaram a se defrontar na batalha de Ásculo, atual Ascoli Satriano, a 30 quilômetros ao sul de Foggia, onde Pirro obteve a muito custo uma vitória sofrida e preocupante. Os romanos tiveram 6.000 homens mortos, e seus adversários, nada menos que 3.500. Foi um duro golpe no exército de Pirro, que não teria como suportar outro desfalque semelhante caso voltasse a enfrentar os soldados de Roma. Tanto que ao ser cumprimentado pela vitória conquistada à custa do sacrifício de tantos homens, ele teria respondido com estas palavras: "Mais uma vitória como esta, e estou perdido”.


Apesar de tudo, Pirro tentou mais uma vez invadir a Itália romana. Isso aconteceu em 275 a.C.., mas nessa oportunidade seu exército foi derrotado na batalha de Beneventum. Diante desse fracasso ele retornou à Grécia e conquistou militarmente a Macedônia, atacando depois Esparta. Foi durante essa campanha que encontrou a morte em uma das vielas da cidade de Argos.

 

Por ter sido um homem impressionantemente belicoso e um líder infatigável, embora não tivesse sido um rei propriamente sábio, Pirro foi considerado um dos melhores generais militares do seu tempo. Aníbal considerou-o o segundo melhor, a seguir a Alexandre Magno. Pirro era também conhecido por ser muito benevolente. Como general, as maiores fraquezas políticas de Pirro eram a falta de concentração e apetência para esbanjar dinheiro (grande parte dos soldados que integravam suas tropas eram mercenários dispendiosos).

 

A trajetória militar do rei de Épiro em sua obstinada intenção de construir um império na Itália, deixou como herança a expressão vitória de Pirro, usada para simbolizar tudo aquilo que se consegue a um custo bem mais alto que as vantagens obtidas.