A casaca é uma peça do vestuário surgida na França do século 17 e adotada como uniforme militar por alguns países europeus durante o século 18. No início elas eram de cor escura e tinham as abas dobradas para cima e abotoadas atrás, mas depois também foram usadas nas cores azul e verde, com as de luxo sendo adornadas de ouro e prata e exibindo bordados primorosos nas golas, punhos, bolsos e cintos. As dos serviçais, por sua vez, eram feitas na cor do símbolo ou emblema da casa e mostravam o seu brasão de armas.
Foi nessa época que Carlos Manuel III (1701-1773), então com 29 anos de idade, tornou-se rei da Sardenha, reino situado ao norte da Itália atual e constituído em 1720 pelo Ducado da Sabóia, ao qual a ilha da Sardenha acabava de ser cedida. Graças à esmerada educação militar e política que recebera, o novo rei empenhou-se em ampliar e consolidar seu território através de alianças ora com a França, ora com a Áustria e até mesmo com a Inglaterra, ou então enfrentando esses e outros países em conflitos armados que proporcionaram às suas tropas vitórias importantes e derrotas como a de Madonna dell'Olmo, quando ele declarou: “Podemos ser oprimidos, mas nunca aviltados”. Foi agindo dessa forma, ao longo dos 43 anos de seu reinado, que Carlos Manuel III garantiu a posse definitiva de cidades como Novara e Tortona, da região de Pavia além do Pó, e reconquistou Asti, Nizza e Savona, além de promover reformas financeiras, administrativas e judiciárias, que melhoraram as condições de vida do povo. Carlos Manuel III casou-se três vezes e teve vários filhos.
O interessante na história é que como as alianças militares firmadas por esse rei ambicioso se alternavam com certa regularidade, ele se via forçado, nessas ocasiões, a substituir em sua casaca de gala as cores que homenageavam o ex-aliado, trocando-as pelas do que passara a ocupar a mesma condição. Surgiu daí a expressão “virar a casaca”, que é usada hoje em dia quando algum cidadão esquece a antiga paixão por um time de futebol e começa a torcer por outro. Ou coisa semelhante. Assim como acontecia nos tempos em que o rei da Sardenha volta e meia mandava mudar o colorido de sua vestimenta de festa, essa frase-feita certamente tem tudo a ver com as cores que identificam as bandeiras dos clubes, uma vez que a casaca, na atualidade, é sempre preta e usada somente nas grandes cerimônias.
Muito embora a palavra “casaca” identifique há muito tempo uma peça do vestuário, ela acabou sendo usada como elemento de rima em um grito de guerra de conhecido clube do Rio de Janeiro. Isso aconteceu na década de 20, quando atletas do Internacional de Regatas, Boqueirão e Vasco da Gama, agremiações que disputavam os campeonatos de regatas, mas não possuíam sede própria, reuniam-se nas ruas. Eles formavam grupos conhecidos por nomes como Grupo dos Lindos (Internacional de Regatas), Grupo das Garrafas (Boqueirão) e Grupo dos Supimpas (Vasco da Gama), que promoviam reuniões festivas a que davam o nome de “reco-reco”. Alguns dos Supimpas acabaram ganhando um outro apelido, o de turma da Fuzarca (que significa farra), cujos integrantes foram aumentando, aumentando, a tal ponto que resolveram ampliar suas atividades esportivas e sociais, para que todos pudessem se reunir diariamente.
Por causa disso foi construída uma quadra de vôlei na rua México, centro da cidade, onde os atletas de remo, natação e pólo aquático, passaram a se encontrar. Além disso, eles freqüentavam as hoje extintas praias do Calabouço (próxima ao aeroporto Santos Dumont) e das Virtudes (defronte à igreja de Santa Luzia e Santa Casa da Misericórdia), também ponto de encontro de jovens do centro da cidade, e dos bairros da Lapa, Santa Teresa e adjacências. Nessas ocasiões, como a turma da Fuzarca divertia-se a valer cantando o seu nome, alguém resolveu introduzir o “casaca”, para fazer rima com “fuzarca”, e isso acabou se tornando prática comum em todos os lugares onde os atletas do Vasco da Gama disputavam competições. Foi dessa forma que o grito de guerra vascaíno ganhou as ruas, tornou-se popular, invadiu os estádios e tornou-se conhecido dos que simpatizam ou antipatizam com o clube:
Ao Vasco, nada? / Tudo! / Então como é que é? / Casaca! Casaca! / Casaca, zaca, zaca! / A turma, é boa, / é mesmo da fuzarca! / Vasco! Vasco! Vasco!