PRIAPO

Deus responsável pela fertilidade das colheitas, do gado e das mulheres, Príapo era filho de Dionísio (Baco) e Afrodite (Vênus), sendo representado por seus seguidores como uma divindade semelhante a um fauno. Originário da Ásia Menor, seu culto espalhou-se pela Grécia e Itália Meridional, onde as primeiras frutas dos campos e jardins eram a ele oferecidas.

 

Em Roma, Príapo personificou, sobretudo, a virilidade, a geração e o amor físico, sendo o patrono dos devassos. Na Idade Medida, tornou-se o protetor do gado, dos pastores, agricultores e pescadores, bem como das mulheres grávidas. Sua imagem é apresentada como um homem idoso mostrando um grande órgão genital ereto, o que deu origem à palavra priapismo, com significado de ereção dolorosa e persistente, sem desejo sexual, ou excitação sexual exagerada.

 

 

Segundo a mitologia grega, Dionísio (Baco, retornando vitorioso de batalhas nas Índias, foi recebido ardorosamente por Afrodite (Vênus), resultando daí o nascimento de Priapo. Enciumada de Afrodite, deusa da beleza, que carregava consigo um cinto em que estavam encerradas as graças, os atrativos, o sorriso sedutor, o falar doce, o espírito mais persuasivo, o silêncio expressivo e a eloqüência dos olhos, a deusa Hera (Juno), esposa de Zeus (Júpiter), trabalhou para que a criança nascesse com a sua enorme deformidade (curiosamente ele sempre é representado com um pênis de tamanho exagerado). Sua mãe mandou educá-lo em Lampasaco, cidade grega à margens do Helesponto, lugar atualmente conhecido como Dardanelos, uma estreita passagem que separa a Ásia Menor de uma das extremidades meridionais da Europa, onde por conta de sua libertinagem e desregramento tornou-se objeto de terror e repulsa. A cidade foi tomada por uma epidemia e os habitantes, vendo nisso uma retaliação por não terem dado atenção ao filho de Afrodite, fizeram rituais e pediram que Priapo ficasse entre eles.

 

Esse deus é também representado por um busto em cima de uma pilastra, com cornos de bode, orelhas de cabra, uma coroa de folhas de vinha ou de loureiro. Os antigos borravam as estátuas com cinábrio ou zarcão, algumas vezes colocando instrumentos de jardinagem junto à imagem, cestos para fruta, foice, um bastão para afastar ladrões e uma vara para amedrontar os pássaros. Ou então depositavam sobre o monumento cabeças de burro e outros animais que os habitantes lhe ofereciam em sacrifício. Existia ainda um ritual onde meninas virgens sentavam em cima de um falo gigante representando Priapo.

 

Em sua homenagem celebravam-se em Roma as Priapéias, oportunidade em que  mulheres vestidas de bacantes, sacerdotisas do culto de Baco e participantes das bacanais (festas religiosas que gregos e romanos celebravam em honra ao deus), dançavam e tocavam instrumentos musicais, especialmente a flauta. Segundo mitólogos, “essas festas representavam uma sobrevivência dos ancestrais rituais da fertilidade, um resíduo místico dos tempos do matriarcado”.

 

 A palavra Priapéia identifica o antigo cântico em louvor de Priapo, deus da luxúria, ou qualquer festividade em sua honra. Daí, por extensão, o significado de poesia licenciosa. Referindo-se à entidade mitológica, Airto Ceolin Montagner, professor da UERJ/ UNIGRANRIO, esclarece que “a antologia conhecida como Carmina Priapea contém oitenta e seis pequenos poemas dedicados a Priapo, uma divindade sui generis”. E tomando como referencial o LXXXVI Carmen Priapeium, o professor explica que seu desejo é o de indicar “as peculiaridades dessa divindade junto ao imaginário mítico-religioso romano, observando que não se trata apenas de um culto do obsceno ou de uma referência literária cômico-erótica a uma divindade fisicamente anômala sob o ponto de vista da sexualidade. A presença de Priapo é mais abrangente, uma vez que interessa ao literato, ao antropólogo e ao sociólogo, ao médico, ao estudioso das antiguidades, ao sexólogo. O leitor encontrará aqui um esboço de uma figura mítica ou de um deus que não faz parte do Panteão dos deuses, nem toma assento no Olimpo, ao lado de Minerva, de Diana ou de Vesta”.

 

Os versos acima mencionados são os seguintes:

 

Salve, Priapo, santo pai das coisas, / salve! dá-me a brilhante juventude, / dá-ma, para que aos bons meninos e meninas / eu agrade com meu fascínio insolente / e, com namoros e jogos freqüentes, / eu dissipe os tormentos de amor nocivos ao meu espírito / e não tema a excessivamente dura velhice, / nem me angustie com o pavor da mísera morte / que me arrastará às hostis moradas do Averno, / onde o rei encerra as sombras das almas dos mortos, / donde os fados negam que alguém retorne. Salve, santo pai Priapo, salve! / Reuni-vos todas quantas sois, / ó donzelas que cultivais o bosque sagrado, / que cultivais as águas sagradas! / reuni-vos quantas sois e dizei ao poderoso Priapo / com voz suavíssima: / “Salve, Priapo, santo pai das coisas!”. / Cravai em seguida mil beijos na sua virilha, / cingi-lhe bem o falo do coroas perfumadas / e de novo dizei todas:

 

“Salve, Priapo, santo pai das coisas!”, / pois defendendo-vos dos sangrentos homens maus / ele consente que ides pelos bosques / e pelas sombrias estradas silentes e calmas; / ele afasta das fontes também os ímpios / e os sacrílegos de impudente pé, / os que ultrapassam os fluidos sagrados e os tornam turvos, / e os que lavam as mãos e nem vos invocam / com ligeira prece, ó divinas donzelas! Dizei todas: “Ó Priapo, sê propício, salve!” / “Ó Priapo, santo pai Priapo, salve!” / ó Priapo, potente amigo, salve! / ou se desejas ser chamado de pai e criador / do mundo ou de própria natureza e Pan, salve! / pois pelo teu vigor é concebido / aquilo que enche o solo, os céus e o mar. / Salve, portanto, Priapo, salve, santo! / Se o desejas, o próprio Júpiter põe / de lado seus raios cruéis / e Cupido abandona sua brilhante morada. Honram-te a boa Vênus, o férvido Cupido, / as gêmeas irmãs, as Graças, e Lieu, dispensador de alegria, / pois sem ti nem se satisfaz Vênus, / as Graças ficam sem graça, Cupido e Baco, desagradáveis. / Ó Priapo, potente amigo, salve! / Invocam-te com sua prece as virgens pudicas / para que tu desates o pequeno cinto há muito tempo atado / e te suplica a esposa para que o nervo do esposo / esteja muitas vezes rígido e sempre potente: / “Salve, santo pai Priapo, salve!”.