Diz a Bíblia que “Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e escolheram esposas entre elas". O Senhor então disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de cento e vinte anos. Naquela época viviam gigantes na terra, como também daí por diante, quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são os heróis tão afamados em tempos antigos (Gênesis 6:1/4)".
Na mitologia grega há uma geração de Gigantes que não pertence às divindades primordiais. Trata-se de Oto e Efialtes, filhos de uma aventura amorosa do deus dos mares Poseidon (na ilustração acima), ou Netuno para os romanos, com Ifiméia, esposa do titã Aloeu, que apesar da infidelidade da mulher os acolheu e criou, daí o nome por que são conhecidos. Em uma das versões que falam deles, os gêmeos juntaram-se aos outros Gigantes rebelados contra Zeus (Júpiter), e então, empilhando várias montanhas que lhes serviriam como escada, tentaram chegar ao Olimpo, residência dos deuses. Segundo a lenda, o objetivo maior que tinham em mente não era o de destronar Zeus, mas sim o de raptar as deusas Hera (Juno) e Ártemis (Diana), e levá-las com eles. Ao tentar impedi-los, Ares (Marte) foi aprisionado em um pote de bronze e ali permaneceu durante treze meses, até ser salvo por Hermes (Mercúrio) após a derrota dos agressores. Diante de tanta ousadia, Zeus fulminou os dois rebelados com um raio, aprisionando-os para sempre nos infernos.
No relato escrito pelo historiador e gramático Apolodoro de Atenas (século 2 a.C.), autor de Biblioteca, obra que trata da Mitologia Grega, o deus Areu (Marte) matou o monstruoso Peloro durante a guerra contra os Gigantes, e por isso Mimas, irmão deste último, “pensando exclusivamente na vingança, curvou-se para o mar e dele quis arrancar a ilha de Lemnos para atirá-la contra o causador de sua fúria. Marte evitou o choque e com um golpe de lança furou a cabeça de Mimas, cujo cérebro se esparramou à direita e à esquerda”. Menos feliz em outras ocasiões, “ele foi aprisionado por Oto e Efialtes, que o mantiveram agrilhoado durante treze meses”. Em sua obra, Apolodoro (na ilustração abaixo) diz que “Oto e Efialtes tinham tentado escalar o céu colocando o monte Ossa sobre o Olimpo e o Pélion sobre o Ossa. Para evitar-lhes a perseguição, Ártemis (Diana) viu-se obrigada a transformar-se em corça, e estando a fugir precipitadamente, os dois irmãos Gigantes, que vinham um em cada direção, atiraram, ao mesmo tempo, os seus dardos contra ela, e dessa maneira mataram um ao outro”.
Já em Notícia da Mitologia, editado originalmente na França e publicado em Lisboa no ano de 1780, o mesmo episódio é apresentado da seguinte forma: “O gigante Aloeu tinha desposado Ifimédia, mas ela, sendo roubada por Netuno, deu ao mundo Oto e Efialtes, denominados os Aloídes, que foram criados por Aloeu como se fossem seus próprios filhos. Eles cresciam nove polegadas todos os meses, e sua grandeza enorme os fazia tão fortes que não havia nada superior às suas forças. Eles pretenderam, então, destronar Júpiter, e para o assaltarem de modo a que não pudesse defender-se, puseram o monte Ossa e o monte Pelion sobre o Olimpo, e dali, ameaçando o soberano dos deuses, tiveram a insolência de exigir Juno e Diana. Marte, quis opor-se à essa empresa, mas foi aprisionado e preso a grossas cadeias, ficando assim durante treze meses em sua prisão de bronze. E ali permaneceria mais tempo se Mercúrio não o tivesse livrado. Sentindo-se inferiores a tão terríveis inimigos os deuses recorreram a um artifício. Diana, vendo-os sobre um carro, transformou-se em corça e se lançou no meio deles, que ao atirarem as suas flechas feriram-se um ao outro e morreram das feridas. A fábula acrescenta, por uma contradição comum neste gênero, que Júpiter os precipitou no fundo do Tártaro. Estes dois Aloídes, filhos de Netuno, eram, sem dúvida, famosos corsários que se fizeram formidáveis pelos seus roubos, e não podiam ser subjugados pela força. O artifício de que se serviu Diana para os entregar à morte, significa que Júpiter, incapaz de acabar com eles em luta descoberta, achou o meio de os desunir e discordar, de sorte que eles se destruíram um ao outro”.
Outra explicação para esse episódio conta que Ifimédia, apaixonada por Poseidon, o deus dos mares, costumava passear na beira da praia, e ali pegava com suas mãos a água das ondas e as derramava sobre o peito. Poseidon, que a observava, acabou cedendo ao seu amor e lhe deu dois filhos, Oto e Efialtes. Como o esposo de Ifimédia se chamava Aloeu, essas crianças tornaram-se conhecidas como Aloídas. Eram grandes, muito grandes, fortes e, sobretudo, agressivas. Além disso, mostravam um desenvolvimento extraordinário, pois a cada ano cresciam cerca de meio metro em largura e um metro e meio em altura. Aos nove anos de idade, quando já estavam com 13 metros de altura e 4,5 de largura, eles decidiram fazer guerra aos deuses.
Começaram colocando o monte Ossa sobre o monte Olimpo, e o monte Pélion em cima dos outros dois, ameaçando escalar o céu. Depois anunciaram que jogariam montanhas no mar, levando-o para onde até então era a terra. Aprisionaram Ares num vaso de bronze e deixaram-no assim durante treze meses, até que Hermes, ao libertá-lo, o encontrou num estado de esgotamento extremo. Puseram-se em seguida a fazer a corte às deusas. Oto queria raptar Hera, enquanto Efialtes perseguia Ártemis. Todas essas façanhas atraíram para os dois irmãos o castigo dos deuses. Ártemis, seguindo conselho de Apolo, conseguiu enganar os gigantes transformando-se em corça e saltando entre eles, que na ânsia de caçar o esplêndido animal atiraram suas lanças um contra o outro, matando-se.
Segundo outra versão, Oto e Efialtes foram eliminados por Apolo quando este descobriu o plano deles. Mas também se diz que foram fulminados por Zeus e precipitados nos Infernos, conhecendo um suplício sem fim: amarrados a uma coluna cercada por serpentes, eles são torturados perpetuamente por uma coruja que grita sem parar.