O fenômeno fisiológico conhecido pelo nome de orgasmo, que nos machos ocorre com a ejaculação, é o conjunto de reações e sensações que definem o clímax de uma relação sexual. Certas doutrinas e teorias psicológicas modernas colocam essa função no centro da vida humana, e o orgasmo no centro da vida sexual. Baseando-se nesse tipo de relação como única função biológica para cuja realização é necessária uma outra pessoa, fazem dela modelo para todas as demais relações entre o eu e ela ou eu e ele.
O prazer sexual, acaso da natureza, não é necessário para a reprodução, pois o reprodutor poderia simplesmente ser coagido a copular e, inclusive, ser eliminado depois, como ocorre entre abelhas e aranhas. Apesar disso, grande parte das regras sócio-religiosas têm como base a hipotética unidade reprodução-prazer, tanto que em muitos sistemas éticos a relação sexual por prazer é considerada imoral e até pecaminosa, caso a reprodução seja deliberadamente impedida. O orgasmo, como tema, é freqüentemente debatido nos meios de cultura de massa, com pequeno número de idéias básicas, cuja repetição se faz cansativa. O problema não consistiria em discutir o assunto, mas em mudar os costumes.
De uma relação sexual entre o macho e a fêmea pode nascer uma criança. Mas desde que os meios anticoncepcionais separaram ato e efeito, toda a argumentação tradicional foi abalada. O erótico passou a ser analisado como um campo específico de prazer e felicidade que deve ser deixado ao arbítrio dos interessados, pois é socialmente inócuo e não prejudica ninguém. Nesse campo, os preconceitos tradicionais parecem não ter mais função, principalmente as diferenças acentuadas e injustas entre direitos e deveres de homens e mulheres.
O psicanalista Wilhelm Reich, que deu continuidade e clareza a muitos dos conceitos de Freud, considera o orgasmo uma espécie de comunhão cósmica, o retorno à pulsação da água marinha no oceano da vida. A imagem poética do cientista fundamenta-se numa minuciosa e penetrante observação clínica de trinta anos. Diz Reich que a vida é eminentemente uma pulsação, e que o processo de socialização – a educação – tem feito apenas com que as pessoas percam sua mobilidade original e assumam rígidas atitudes defensivas para se protegerem de um mundo hostil, perseguidor, punitivo e repressivo.
Diante disso, todas as pessoas desenvolvem uma casca defensiva que as prende e as prejudica seriamente no contato vivo com as coisas. Essa casca é feita de tensões musculares crônicas que constituem a couraça muscular do caráter, o jeito característico de ser. Mas a maioria das pessoas não abandona essa casca nem mesmo durante o encontro sexual, o que atrapalha o contato e principalmente a comunhão. Com esse esquema Reich explicou a grande variedade de experiências sexuais. Com ele, pôde também correlacionar a estrutura do caráter e da sociedade, mostrando que as dificuldades sexuais são produto do processo educativo.
Podem ocorrer inúmeras combinações de caracteres – de cascas – felizes ou infelizes, gerando-se assim infinitas qualidades de orgasmo. Um indivíduo prepotente e competitivo, por exemplo, não consegue abandonar-se, nem tampouco se entregar por completo à relação amorosa. Sua atuação sexual será possessiva, agressiva, invasora, e seu orgasmo explosivo e acompanhado de acentuado grau de inconsciência. De certo modo ele não experimenta o prazer, o que seria a impotência orgástica a que Reich se refere, definindo-a como a característica mais importante do comum e corrente ser humano de hoje devido ao represamento da energia biológica no organismo, o que lhe alimenta a fonte de energia de todo tipo de sintomas das chamadas doenças modernas, como estresse, depressão, ansiedade, falta de auto-estima e irracionalismo social.
Por outro lado, uma mulher passiva, omissa e resignada, pode sentir imenso prazer com um indivíduo despótico e brutal. De algum modo eles se completam. Essa mesma mulher diante de um homem bem educado e gentil pode sentir-se fria. Ela pode escolher, mas recua sempre: acostumou-se a que decidam por ela. O companheiro truculento, por sua vez, poderá mostrar-se impotente diante de uma mulher voluntariosa e apaixonada, que ao mesmo tempo o desafia e o ameaça.
Assim, diante da enorme variedade de experiências sexuais, torna-se inútil estabelecer padrões válidos para todas. Não existe nada mais pessoal que o orgasmo, que tem muito mais a ver com a cultura e a educação, que com a natureza.