Vizinho é uma palavra oriunda do latim (vicinu). Entre seus vários sentidos (iminente, análogo, de igual gênero ou classe, afim, etc.), inclui-se o de habitante ou morador de casa próxima àquela onde moramos, embora, nos tempos de agora, quem resida em um desses edifícios que tomaram conta de nossas cidades esteja vivendo praticamente encostado nos ocupantes do apartamento ao lado do seu, porque separado deles por uma simples parede de tijolos em pé. Não é muito, diga-se de passagem, e por isso mesmo essa proximidade inevitável permite que cheguem aos ouvidos alheios os sons e movimentos que deveriam ser particulares porque dizem respeito somente aos que os produziram, e a mais ninguém, o que volta e meia acaba provocando algum desentendimento ou mal-estar entre os condôminos da direita e esquerda, ou vice-e-versa.
O ser humano sempre viveu em aglomerados, certamente em busca da proteção que uns poderiam dar aos outros. Ao se sentirem seguros, porque cientes de que a ajuda, caso necessária, estaria a uma distância de grito, homens e mulheres passaram a viver mais sossegados e tranqüilos em seus respectivos cantos, sem muitos sobressaltos diurnos ou noturnos, e foi assim que se solidificou o espírito de integração e afinidade entre os que tinham suas casas de morada a distâncias relativamente curtas das dos seus vizinhos. Esse modo de vida ainda pode ser observado nas pequenas cidades, aonde, em muitos casos, a ligação existente entre confrontantes é mais forte do que a mantida entre eles e muitos de seus parentes de sangue. Por isso, nesses lugares, é comum os vizinhos acabarem unidos por forte amizade, tornando-se amigos, compadres e confidentes.
O mesmo não acontece, no entanto, nos centros urbanos mais desenvolvidos, que é onde se concentra atualmente a maioria da população brasileira. Hoje, nessas cidades, predominam edifícios de todos os tipos e tamanhos, cujo espaço interno é dividido em pequenos, médios ou grandes apartamentos, que por sua vez abrigam famílias também de todos os tipos e tamanhos. Infelizmente, nesses prédios o relacionamento entre os que nele residem praticamente deixou de existir porque os condôminos se fecham em suas respectivas moradias, chegando a ponto de grande número deles desconhecer por completo quem são, ou o que acontece com os seus vizinhos de porta. A insegurança dos tempos modernos faz com que seja cada vez maior o número de pessoas receosas de estabelecer novos relacionamentos, e por isso elas se mantêm distantes umas das outras, isoladas em seus pequenos domínios, protegidas por guaritas de segurança, câmaras de vídeo, fechaduras especiais, grades, cercas eletrificadas, cadeados, trancas e outras coisas assemelhadas.
Essa situação de completo desconhecimento sobre quem mora ao lado é descrita em interessante crônica de João Carlos Lopes dos Santos, advogado, marchand e consultor de mercado de arte (www.pitoresco.com), quando em certo trecho ele relata que “Tenho um amigo que mora num edifício, tipo dois apartamentos por andar, numa daquelas ruas internas e aparentemente tranqüilas da Tijuca. Um dia, vira-se o meu amigo para sua mulher e pergunta: ‘você tem visto o nosso vizinho de porta?’. Diante da resposta negativa da mulher - homem adora dedução -, comentou: ‘a mulher dele anda triste, abatida; outro dia, no elevador, entrou muda e saiu calada. Não sei não, mas estou achando que o vizinho abandonou a mulher’. Dias depois, a mulher do meu amigo - mulher é bicho curioso - dá retorno ao diálogo: ‘você não sabe da maior, peguei a vizinha aí do lado no elevador e perguntei pelo marido. Você não vai acreditar:o marido dela chamava-se Antenor e morreu de infarto fulminante há dois meses e meio”.
A poetisa Cora Coralina (1889-1985), mulher simples e doceira de profissão, produziu uma obra rica em motivos do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás. Dela é a frase “vizinho é mais que parente, pois é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente”. Por sua vez, Tião Martins, poeta, publicitário e professor (www.tiaomartins.blogspot.com) sugere em um poema seu que “Vizinhos são pedacinhos da casa ali ao lado. São aliados na luta da vida contra a rotina certeira. Não falha: o carteiro passa, o cachorro late, o pedinte pede, o porteiro bate. Somos vizinhos de sempre, de frente, de fundos, seguimos essa rua que vai dar no fim do mundo”. E ao ler essas palavras, uma de suas leitoras comentou: “Que legal Eu gostava da época em que morava em vila e todo mundo freqüentava a casa de todo mundo... era uma eterna festa! Saudades daquele tempo... mas, hoje em dia, moro em prédio e mal conheço quem mora do meu lado. A vida dá voltas e muda muita coisa.... ninguém tem mais tempo pra nada... ninguém conhece ninguém... com raríssimas exceções”. O que é uma verdade.
A explicação para esse estado de coisas talvez possa ser encontrada nas atribulações que a vida moderna impõe a todos nós, com os seus males e desatinos espreitando a gregos e troianos em cada virada de esquina, em cada sinal de trânsito, em cada segundo de desatenção, fazendo surgir, em contrapartida, o medo, o desinteresse por novas relações, e o isolamento de cada um em seu “casulo” residencial. Como conseqüência, a sociabilidade foi para o brejo; os princípios de boa convivência esquecidos por muita gente que adotou a cultura do eu em prejuízo do sentimento de comunidade, aí definida como grupo de pessoas que vivem juntas formando uma unidade social com limites bem determinados; e surgiram, então, os maus vizinhos, um tipo de pessoa da qual todos nós desejamos manter a maior distância possível.
Mas o bom vizinho não desapareceu por completo. Ele ainda existe, principalmente nas pequenas localidades interioranas, podendo também ser encontrado nos bairros menores das cidades de maior porte, confirmando a afirmativa do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), de que ao tomar consciência de sua necessidade de se agrupar, o homem tornou-se um ser eminentemente social. Por isso o Dia do Vizinho é comemorado em muitos municípios, como em Santa Maria (RS), aonde o “Dia Municipal do Vizinho” acontece no terceiro domingo de agosto, além de outros mais. Em Goiás, São Paulo e Distrito Federal, a comemoração é feita no dia 20 de agosto, data do natalício de Cora Coralina.
Agora que você sabe disso, que tal estreitar relacionamento com seu vizinho de porta? Não é nada, não é nada, talvez possamos reconstruir, assim, um mundo onde as pessoas voltem a conviver em paz e harmonia, sem sobressaltos ou desconfianças da própria sombra, o que, afinal de contas, é o desejo que cada um de nós carrega bem dentro do coração.