BRAILLE - Leitura para cegos

O sistema que permite às pessoas cegas o uso das pontas dos dedos para leitura de textos escritos recebeu o nome do francês Louis Braille (1809-1852), músico e professor do Instituto de Cegos de Paris, mas este, na verdade, levou a fama por algo que não criou sozinho. Acontece que um oficial do exército francês vinha desenvolvendo um método que lhe permitisse ler com segurança, na obscuridade das trincheiras, as mensagens recebidas do seu comando, sem necessidade de usar nenhum tipo de luz que despertasse a atenção do inimigo.

 

Por isso o militar, cujo nome era Charles Barbier, trabalhava em seu projeto de leitura por tato, mas quando percebeu que ele era perfeito para os deficientes visuais, entregou-o a Braille, um adolescente que havia perdido a visão aos três anos e estava então com doze anos de idade, a quem encarregou de efetuar os testes necessários. O rapazinho usou o sistema durante alguns anos, aproveitando esse tempo para introduzir nele uma modificação que o aperfeiçoou: reduziu de doze para seis os seus pontos em relevo, representando símbolos inscritos sobre papel especial e com os quais se podiam realizar sessenta e três combinações diferentes, desde simples letras e acentos, a pontuações, algarismos, sinais algébricos e notações musicais. Assim, os cegos conseguiriam ler colocando as pontas dos dedos sobre esses sinais.

 

Admitido como professor do instituto parisiense de cegos, Louis Braille preocupou-se com as deficiências que observava na educação dos seus companheiros de infortúnio, e por isso, pensando em reduzi-las, publicou dois anos depois, em 1829, o alfabeto que dava aos cegos a condição de leitura com as pontas dos dedos colocadas sobre sinais em relevo. Os deficientes visuais e seus professores aprovaram de imediato esse sistema, porque ao permitir que um cego bem treinado pudesse ler até cerca de duzentas palavras por minuto, ele abria as portas do conhecimento e da informação aos que até então não tinham condição de instruir-se por meio da palavra escrita.

 

O professor Louis Braille também se interessou pela música. Hábil executante de órgão e violoncelo, ele estendeu a essa arte o seu sistema de escrita por sinais. Vitimado pela tuberculose o professor faleceu em 1852, mesmo ano em que seu método foi adotado oficialmente na Europa e na América do Norte. Mais tarde, as autoridades mundiais reconheceram-no como um grande benfeitor da humanidade.

 

Joana Belarmino ([email protected]), jornalista, professora do curso de comunicação e turismo da Universidade Federal da Paraíba, Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é autora do texto intitulado O Início: Louis Braille, publicado em A Bengala Legal, página pessoal de Marco Antonio de Queiroz, também conhecido como MAQ (www.bengalegal.com), cujo texto tomamos a liberdade de reproduzir:

 

“O rosto é inexpressivo. Cabeça e corpo se encolhem para dentro. É a metáfora do 'ensimesmamento'. No cinema, na arte, na literatura, a criação devolve ao homem cego o que já lhe dera a sociedade: um 'mundo de silêncio e trevas', um 'não lugar' na vida, na poesia, na paixão. Em muitos lugares do mundo, pessoas cegas foram e são 'estrangeiras' em sua própria pátria. Na tribo, nas grandes metrópoles, na aldeia, o olhar que as tocou não as reconheceu como 'parte' da comunidade; andarilhos da idade antiga e medieval, reclusos da modernidade, estranhos no seu próprio mundo, os cegos persistiram na arte de 'aprender a ver', dentro da sua cegueira".

 

"Houve quem falasse desse acontecimento de 'cegos videntes'. A mitologia, o cinema, a literatura, a poesia, 'animaram' uma espécie de metáfora da cegueira como 'visão'. A metáfora porém, em geral alçou o indivíduo cego para além da sua terra; elevou-o para perto dos deuses, fez dele um ser que continuava 'estranho"'no mundo dos viventes".

 

"Subtraídos do mundo da normalidade, impunha-se para os indivíduos cegos, a luta pela sua conquista. Aquele homem que aprendera a ver o mundo desbastando pedras, palmilhando estradas, ou despertando os homens do alto da mesquita, à força das suas orações. Aquele homem tosco, de cabeça baixa, que se encolhia para escutar o canto de um pássaro ou sentir o cheiro da mercearia mais próxima onde pediria o seu pão, teve que inventar um modo novo de demonstrar a sua 'visão' e assim partilhar do seu mundo como seus iguais, os outros homens".

 

"E da pedra fez-se o fogo; o fogo fundiu o ferro e num dia longínquo, um menino cego curvado sobre uma mesa de escola, inaugurou o gesto de 'ler' o mundo com suas próprias mãos. Louis Braille”.