Ascetas são os indivíduos que seguem a doutrina baseada no desprezo do corpo e das sensações físicas, e que tendem a assegurar, pelos sofrimentos corporais, o triunfo do espírito sobre as paixões e os instintos. Os faquires são ascetas mendicantes indianos da religião muçulmana, que se submetem às piores flagelações sem dar qualquer sinal de sensibilidade. Eles costumam usar um pequeno cajado de ferro ou de pau, um prato para recolher esmolas, e um rosário de 33, 66 ou 99 contas, correspondente ao número de atributos de Deus. Também deixam crescer o cabelo, a barba, e muitas vezes as unhas, devotando-se à vida incorpórea e procurando atingir a perfeição espiritual por meio do domínio dos sentidos. Os fenômenos observados nos faquires (como a incombustibilidade de certas partes do corpo, a insensibilidade, etc.), que parecem contrariar as leis físicas, têm sido explicados pela ciência como manifestações de êxtase, arrebatamento definido como sendo um estado de espírito em que uma idéia fixa e dominante absorve de tal modo as faculdades físicas e intelectuais do indivíduo, que ele perde por completo a consciência de si e se torna insensível a toda e qualquer ação externa.
As diversas ordens de faquires podem ser dividas em dois grupos: os ba-schar, ou com lei, que seguem os preceitos da religião muçulmana e pertencem a uma ordem religiosa de dervixes, com normas fixas e obrigados a cumprir certos ritos religiosos; e os bi-schar, ou sem lei, maometanos que não se sujeitam a um dogma religioso nem praticam cerimônias rituais. Além dessas duas categorias, existem ainda os adeptos de cabelos e barbas revoltas, pertencentes à religião de Xiva, deus da geração e destruição. Conhecidos como saniassis, eles constituem diversas ordens cujos membros vivem de esmolas, andam cobertos de cinzas, guardam silêncio por tempo tão prolongado que muitos perdem por completo o dom da fala, e praticam muitas vezes as flagelações mais extravagantes, uns vivendo sentados sobre leitos de pregos, outros enterrados até a cintura, etc. Existe ainda, entre os faquires, uma forma de suicídio religioso praticado por meio de karivat, lâmina cortante em forma de meia-lua, de cujas extremidades pendem correntes rematadas por dois estribos. Colocando a lâmina em conato com o pescoço, o faquir dá um forte impulso nos estribos, cortando assim a cabeça.
Apesar das diferenças existentes entre as ordens de faquires, há um conjunto de práticas comuns denominado faquirismo. Isso levou muitos estudiosos a admitir que em tempos remotos, missionários indianos tenham exercido influência sobre os pensamentos da Pérsia, sobre a escola de Alexandria e, posteriormente, sobre diversas confrarias e sociedades secretas do mundo muçulmano. Observa-se, por exemplo, que os dervixes muçulmanos formam comunidades bem semelhantes aos dos mosteiros budistas, subdividindo-se nas grandes categorias de dervixes dançadores e dervixes berradores. Depois de um demorado noviciado e muitas provas, eles recebem uma iniciação especial e fazem então um voto de castidade, pobreza e humildade.
Práticas diversas contribuem para que o indivíduo atinja o estado de êxtase em que será insensível às formas mas diversas de sofrimento físico. Tais práticas podem abranger canto, danças furiosas, o ressoar mais ou menos rápido e ritmado do tambor, embriaguez com bebidas ou pomadas especiais que chegam a provocar anestesia local, a exaltação da memória e uma sugestibilidade anormal. Em suma, uma série de processos que facilitam o êxtase, podendo este chegar ao grau de sono letárgico.
Sobre o faquirismo, o escritor e teatrólogo Plínio Marcos (1935-1999) escreveu o seguinte texto: “Sabe quem é Zé Ramos Tinhorão? Um santista que é, sem nenhum favor, o maior historiador de música popular brasileira. E, vira e mexe, vai a Portugal. Vida de rico é assim mesmo. E o nosso historiador merece. Mas, deixa isso de lado. O que quero contar, e que pesa na balança, é que numa dessas viagens ele viu - e se assombrou - com uma figura que se exibia nas esquinas de Lisboa. Era um homem pálido. Muito pálido. Vestido de terno preto, camisa branca e gravata preta. O traje deixava o figuraço ainda mais pálido. E ele ficava imóvel. Incrivelmente imóvel. Não mexia um músculo do rosto. Não piscava. Ficava estático. Como uma estátua. Como um bicho empalhado. Só fazia isso. O público, também imobilizado, ficava com os olhos fixos no homem de preto. Ficavam todos presos no artista, por muito tempo. Como se estivessem magnetizados por aquele espantoso não fazer”.
“Aos poucos, quase imperceptivelmente, o figuraço, como se tocado levemente por uma brisa suave, começou a pender para um lado. Demorou um pouco para um dos lusos que assistia, notar o movimento e gritar afobado: - o gajo vai tombar no chão.Toda a platéia, inclusive o Zé Ramos Tinhorão, prendeu a respiração. E o homem de preto inclinando, inclinando, inclinando... Quando parecia que era impossível não cair ele começou devagar, bem devagarinho, a retroceder à posição inicial. Aí uma bela moça entrou na fita, correndo uma sacola e recolhendo uns trocos. Nessa altura do campeonato, o Zé Ramos Tinhorão saiu de fininho. Por essas e outras economias é que ele ficou rico...”.
“Na Europa inteira se confunde esse tipo de artista com faquir. Mas não tem nada a ver. É tipo de artista de mafuá, de circo mambembe, de fim de feira. Tem artista desse naipe que se deixa enterrar com cobras por vários dias de jejum. Fica deitado durante semanas, só de tanga, numa cama de pregos, com aranhas e escorpiões passeando pelo corpo. Mas não é faquir. Pode ser grande ilusionista, mestre prestidigitador, hipnotizador capaz de provocar visões coletivas, mas não é faquir. O que é? Artista. Enganador. Charlatão. Sei lá... Mas não é faquir. O europeu confunde muito o feiticeiro, o dervixe e o iogue com faquir. Nada a ver. Esses jamais seriam autoflageladores. Esses podem ser santos, curadores, mas nunca se autopuniram como faz um faquir. Tivemos aqui no Brasil um faquir famoso, o Silke. Cheguei a conhecê-lo pessoalmente no bar dos artistas de circo ali no largo do Paissandu. Ninguém botava fé nele. Diziam que suas temporadas de jejum eram fajutas. De noite - afirmavam - ele comia escondido. Ele sofria muito com essas acusações. Mas o campeão do mundo dos faquires, o Silke, morreu de repente. Ninguém ligou. Ainda por cima, tiraram um sarro nele. Espalharam que morreu de fome. E tem mais: se passar fome fosse arte, o Brasil seria campeão do mundo no assunto”.