O livro “As Mil e uma Noites” é uma coletânea de fascinantes histórias árabes, criadas, narradas verbalmente e preservadas pelos povos que viveram há muito tempo nos territórios da antiga Pérsia e da Índia. Essa maravilhosa obra da literatura oriental reúne pequenos contos em número exatamente igual ao mencionado no título, cada um deles servindo como exemplo de como se valia a imaginação para transmitir aprendizado e educação social às gerações que iam se sucedendo, um comportamento cultural que infelizmente já não mais existe no mundo moderno.
Os historiadores não conseguem estabelecer com exatidão a data de criação desses contos, mas o fato é que eles não foram concebidos originalmente para entreter as crianças, ou os jovens e adolescentes. O passar do tempo fez, porém, com que no ocidente algumas dessas narrativas, entre elas a de Ali Babá e os quarenta ladrões, a de Aladim e a lâmpada maravilhosa , e as sete aventuras de Simbad, o marujo , acabassem sendo adaptadas para livros destinados ao público infantil.
No início da obra em questão fica-se sabendo que o sultão Shariar, ao voltar de uma caçada, encontrou sua mulher nos braços de um escravo. Enfurecido com o adultério ele mandou matar os dois amantes, transformando-se, depois disso, em um homem desiludido e violento, dominado pelo amargor. Em virtude do acontecido o acabrunhado soberano decidiu dormir a cada noite com uma esposa diferente, e para que jamais voltasse a ser traído por nenhuma delas, ordenou a seu conselheiro que as executasse dia a dia, logo após o nascimento do sol. E assim foi sendo feito, até o momento em que uma das candidatas a esposa, de nome Sherazade, imaginou uma forma de escapar do destino que havia sido traçado para ela, acabando também com as mortes.
Dessa maneira, na noite de núpcias ela começou a contar uma história ao sultão que a ouvia com atenção, cuidando-se, porém, para não terminá-la mesmo com o surgimento do sol no horizonte. Desejando conhecer o final da aventura, Shariar resolveu poupar naquele dia a vida da moça, mas assim que voltou a escurecer a jovem esposa retornou a narração e em pouco tempo chegou ao seu final, iniciando, porém, logo em seguida, uma nova história. E assim aconteceu dia após dia, mês após mês, até que ao atingir a milésima e uma noite, exatamente dois anos e duzentos e setenta e um dias após ter sido chamada pela primeira vez aos aposentos do sultão, a ardilosa Sherazade já era mãe de três filhos, e mais que isso, havia conquistado definitivamente o coração do seu príncipe, que encantado com ela, revogou finalmente a decisão de executar suas esposas a cada manhã.
São muitas as interpretações dadas às histórias das Mil e Uma Noites. Em uma delas, feita no dia 04.06.1986, durante a Semana de Estudos Árabes realizada pelo Centro de Estudos Árabes da USP, o já falecido Jamil Almansur Haddad, poeta, ensaísta e médico psiquiatra, autor de “Al-Qamar, minha amante” e “Orações negras”, ambos premiados pela Academia Brasileira de Letras, disse que:
- “A facilidade de falar sobre as Mil e Uma Noites decorre, antes de mais nada, do caráter infinito dessa produção, que nos faculta imenso material de pesquisa e de observação. Acontece, porém, que precisamente esse caráter infinito é, também, sua grande dificuldade: como sintetizar, como condensar?... (...) O que se sabe do raconto das Mil e Uma Noites é que Chahrzad contava histórias ao rei Chahryar. Este costumava matar as mulheres depois do único encontro de amor - extremamente feliz, acredito, para o sultão -, mas não para as mulheres, que seriam irremediavelmente mortas. E o fato de ela contar-lhe histórias, de maneira infinita, tem um sentido imediato de luta contra a morte e um outro sentido amplo, geral, social, político, o de evitar que acabassem tendo esse destino, outras mulheres, as mulheres de seu povo”.
(...) Diante do rei Chahryar, a quem contava histórias, Chahrzad tinha uma intenção muito séria, do ponto de vista que estou destacando: evitar que suas companheiras de sexo fossem vítimas desse procedimento neurótico. O que se nota é que ela submetia o rei a um certo tipo de psicanálise; só que, em vez de mandá-lo falar, quem falava era ela (esse é o recurso terapêutico novo, talvez os especialistas meditem sobre ele). Contava histórias e é possível que essas histórias contassem episódios em que o rei se sentisse identificado e deles extraísse lições que norteassem sua conduta. Ela produziu um efeito terapêutico. Uma terapêutica pela poesia, terapêutica pelo canto; basicamente, terapêutica pela palavra, como existe a terapêutica pela música. Enfim, os contos das Mil e Uma Noites como método de cura... É possível que, por esse caminho, houvesse curado o rei”.
(...) Para finalizar, o que é que as Mil e Uma Noites ensinaram ao mundo? Isso é coisa séria, pois é o que determina que o mundo não pare, determina que o mundo não se estagne. As Mil e Uma Noites trazem a grande lição do Sonho.