PASSAROLA - E o homem começou a voar

A passarola, do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, foi o primeiro aeróstato (aeronave que ganha altura e se mantém no espaço por efeito da ação de um gás mais leve do que o ar) a elevar-se na atmosfera, sendo a experiência realizada 73 anos antes da famosa prova dos irmãos Montgolfier.

 

O funcionamento desse aparelho vem sendo discutido pelos pesquisadores desde longa data, supondo alguns que ele se tratava de um aeróstato de ar quente. O inventor, porém, percebendo que sua invenção poderia acarretar-lhe a acusação de feiticeiro, procurou preparar a opinião pública apresentando-a como uma aplicação de magnetismo, explicação que mesmo sendo bastante vaga, ainda assim tornaria mais difícil a temida acusação. A forma de ave dada ao aparelho não corresponderia às necessidades reais de seu funcionamento, mas sim à  sua aceitação mais fácil pelo público.

 

Sobre o assunto, encontra-se em www.novomilenio.inf.br/santos o relato de que em abril de 1709 o rei dom João V recebera do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão uma petição com os seguintes dizeres:

 

Senhor. Diz o licenciado Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar, da mesma sorte do que pela terra, e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas por dia nos tais instrumentos. Se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos, e às terras mais remotas, quase no mesmo tempo em que se resolverem, porque interessa a Vossa Majestade muito mais do que nenhum dos outros príncipes, pela maior distância dos seus domínios, evitando-se, dessa sorte, os desgovernos das conquistas que provêm, em grande parte, de chegar muito tarde as notícias delas. Além do que poderá Vossa Majestade mandar vir o precioso delas, muito mais brevemente e mais segura poderão os homens de negócio passar letras, e cabedais e todas as praças sitiadas poderão ser socorridas, tanto de gente, como de munições, e víveres a todo tempo e tirarem-se delas todas as pessoas que quiserem. Sem que o inimigo o possa impedir, descobrir as regiões que ficarão mais vizinhas aos pólos do mundo.

 

O rei concedeu a licença solicitada, foi verificar com seus próprios olhos o que era aquilo, e assim, em 8 de agosto do mesmo ano, na sala dos diplomatas do palácio real português, sua majestade testemunhou a primeira experiência com a Passarola (*). De acordo com as parcas informações existentes sobre ela, nesse dia, de um canto da sala, subiu de repente um pequeno balão de papel em forma de pirâmide, com armação de arame e tendo um pequeno fogo dentro. Esse desconhecido objeto voador continuou subindo vagarosamente, subiu mais ainda, chegou aos quatro metros de altura, e estava quase tocando o teto quando uma ordem foi dada e dois lacaios o derrubaram usando varapaus, enquanto os fidalgos riam da cena. O motivo? Ele poderia ter queimado o forro da sala e as cortinas, começando assim um grande incêndio.

 

Depois disso o padre Bartolomeu de Gusmão (ilustração) ainda testou algumas vezes o seu invento perante o rei e a corte, conseguindo, no dizer de um cronista da época, “elevar ao ar, mais de vinte palmos, um globo de papel grosso, metendo-lhe no fundo uma tigela com fogo”. Em uma outra tentativa, realizada no pátio da embaixada na Casa da Índia (castelo de São Jorge, em Lisboa), o aparelho aterrou no Terreiro do Paço, e pouco depois, em outubro do mesmo ano, "o balão subiu novamente, mas foi de encontro a uma parede ou cimalha e incendiou-se igualmente", conforme revela o historiador Visconde de Taunay. Ocorreu ainda uma derradeira tentativa, em 1709, também na capital portuguesa, em que o balão subiu quatro metros. A julgar pelos raros e imperfeitos desenhos que restaram, e pela pouca documentação que sobreviveu ao grande terremoto de Lisboa em 1755, Bartolomeu de Gusmão estaria a bordo de seu aeróstato no momento em que ele subiu, tornando-se portanto o primeiro homem do mundo a elevar-se aos ares por meio de um balão.

 

Isso é tudo o que se conhece com segurança sobre as experiências do padre Bartolomeu. Sem que se saibam as verdadeiras razões, as experiências terminaram, supondo-se que isso tenha sido motivado pela tremenda chacota que os ignorantes e invejosos fizeram do seu invento. Não é de crer que elas tenham sido um fracasso total, pois os cronistas são unânimes em descrever que a subida destes balões de ar quente surpreenderam, e muito, a assistência. Os irmãos Montgolfier só ganhariam fama como autores das primeiras experiências bem sucedidas com aeróstatos, cerca de 74 anos depois (4 de junho de 1783), mas infelizmente, a informação que se encontra em determinada enciclopédia com copyright mundial, é a de que os experimentos feitos pelo padre Bartolomeu, com o mesmo objetivo, ocorreram em 1790, ou seja, 76 anos após a sua morte.

 

Pode-se aquilatar o feito do padre santista ao se considerar que nem os irmãos franceses sabiam que era o simples aquecimento do ar, preso no interior do revestimento do balão, a causa da sua ascensão, atribuindo-a à fumaça da fogueira. O hidrogênio, depois empregado largamente nesses balões, só foi descoberto em 1766, pelo cientista inglês Henry Cavendish, e batizado mais de duas décadas depois pelo químico francês Lavoisier.

 

Nascido em Santos em dezembro de 1685, Bartolomeu foi conhecido pela inteligência e espantosa memória. No local em que existiu a casa onde nasceu, depois ocupado por uma construção em estilo colonial - na Rua do Comércio, 47 -, existe uma placa registrando o fato, afixada em 7 de setembro de 1922, por ordem da Câmara Municipal de Santos como homenagem ao "precursor da aviação": Nela constam os seguintes dizeres: "Neste solo existiu a primitiva casa em que nasceu o grande brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o precursor da aviação. Homenagem da Câmara Municipal em sete de setembro de 1922".