LAGO PARANOÁ - Brasília

O Paranoá, lago artificial de Brasília, Distrito Federal, foi criado durante a construção da cidade - época em que o presidente da República era Juscelino Kubitschek de Oliveira - com o objetivo de aumentar a umidade relativa do ar em suas proximidades, e também oferecer uma fonte de lazer aos futuros moradores da nova capital. Formado pelas águas represadas do rio que lhe deu o nome, o reservatório tem 40 quilômetros quadrados de extensão, profundidade máxima de 48 metros, 80 quilômetros de perímetro e algumas praias artificiais. Nele encontra-se a barragem do Paranoá, que produz energia hidrelétrica.

 

Embora as obras da barragem formadora do lago tenham sido iniciadas em 1957, o embrião da idéia que possibilitou sua construção surgiu muitos anos antes. Em 1763, quando o Rio de Janeiro se tornou a nova capital brasileira (anteriormente era Salvador), a proposta de levar a sede do poder governamental para o interior já era defendida por muitos, mas ficou nisso. Mais adiante, a mesma pretensão ressurgiu na pessoa de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que desejava transferir a corte para Paracatu, no sertão mineiro, mas também não foi além da vontade insatisfeita. Somente em 1891 a possibilidade dessa mudança se fortaleceu porque a Constituição então outorgada determinava que uma área de 14.400 km2 deveria ser reservada no interior do país, a fim de abrigar a nova capital.

 

Para que tal determinação fosse cumprida o presidente Floriano Peixoto formou em 1892 a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, conhecida como Missão Cruls, com 22 integrantes, que após sete meses de trabalho elaborou um levantamento minucioso sobre a topografia, o clima, a geologia, a flora, a fauna, os costumes e recursos materiais da região. No relatório dessa comissão, apresentado em 1896 por Louís Ferdinand Cruls, astrônomo belga que chegara ao país em 1874, foi inserido o parecer do botânico francês, Auguste Glaziou, que dizia a certa altura: "...entre os dois grandes chapadões conhecidos pelos nomes Gama e Paranoá, existe imensa planície sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa; outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos d’água formando o rio Paranoá; o excedente desse lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais, pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas. É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte (dique ou tapagem provida de chapeletas e cujo comprimento não exceda 500 a 600 metros, nem a elevação de 20 a 25 metros) forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos”.

 

Apesar desses estudos o interesse pela construção da nova capital permaneceu adormecido durante anos, até que em 7 de setembro de 1922, aniversário da Independência, o presidente Epitácio Pessoa mandou assentar em Planaltina a pedra fundamental da futura capital do país, no ponto considerado como o centro territorial do Brasil. Depois disso, somente em 1946 a Constituição então aprovada determinou a elaboração de estudos sobre a localização da nova capital federal, e dois anos depois a comissão nomeada pelo presidente Eurico Gaspar Dutra para realizar esse trabalho, constatou que o Quadrilátero Cruls era realmente o melhor local para a construção pretendida.

 

Em 8 de junho de 1953 o presidente Getúlio Vargas assinou o decreto 32.976, criando a Comissão de Localização da Nova Capital Federal para proceder aos estudos definitivos relacionados com a escolha do sítio e área da nova capital, partindo desse órgão, ou mais especificamente, de sua Subcomissão de Planejamento Urbanístico, a proposta de implantação de um lago em torno da cidade, por meio da construção de uma barragem no rio Paranoá. Essa obra, segundo os relatos da época, despertava a atenção de todos, sobretudo pelo seu ineditismo: um lago em pleno Cerrado, cercado de canteiros de obras por todos os lados.

 

As obras da barragem foram iniciadas em dezembro de 1957, aproveitando o desnível existente na garganta do rio, mas o projeto da usina hidroelétrica a ser instalada no local só foi concluído em fevereiro de 1958. Para os trabalhos de construção das duas obras foi feito um empréstimo oficial de 10 milhões de dólares junto ao Export & Import Bank – Eximbank, mas ambas apresentaram vários problemas técnicos e financeiros, o que provocou, inclusive, uma auditoria administrativa. Feita de terra com núcleo de argila, enrocamento (maciço composto por blocos de rocha compactados, usado como proteção contra a erosão provocada pelas ondas e movimento de subida e descida no nível da água) no talude de montante (lado de onde a água vem) e grama no de jusante (lado para onde a água vai), a barragem tem 630m de extensão (600m em terra e 30m em concreto) e altura de 48m.

 

O lago Paranoá começou a ser formado com o fechamento dessa barragem, em 12 de setembro de 1959, dia do aniversário de Juscelino Kubitschek. Segundo os cronistas que registraram em muitas páginas os detalhes de sua construção, depois de cheio ele passou a guardar os segredos e mistérios que se escondem no fundo daquelas águas, e os que hoje se deliciam com o desfrutar saudável que elas podem oferecer, não têm idéia de que houve um tempo que o esgoto brasiliense era ali despejado, in natura, o que praticamente chegou ao fim graças às estações de tratamento.

 

Além da pesca amadora em pequena escala, que permite a captura de acarás, tilápias, carpas, traíras e algumas outras espécies, o lago possibilita a prática de esportes náuticos como o do velejamento, por exemplo, um dos melhores programas de fim de semana na capital. Diversos clubes de recreação situam-se às suas margens, o mesmo acontecendo com restaurantes e vários pontos turísticos que proporcionam a todos o lazer e descanso merecidos.