EPÔNIMO

Epônimo é tudo o que dá ou empresta seu nome a alguma coisa. Um bom número das palavras que usamos foram inspiradas em nomes próprios de personagens reais ou fictícios, sem que muita gente se dê conta da lembrança contida no vocábulo que acabou de pronunciar ou escrever. Como é o caso, por exemplo, de homérico, freudiano, masoquismo, darwinismo, shakespereano, alexandrino e um sem número de outros adjetivos e substantivos inspirados em homens cujas ações e feitos lhes garantiram a inclusão do nome na extensa relação eponímica existente.

 

Apesar da presença dos epônimos em todas os segmentos de atividade humana, a científica é a que concentra o maior número deles. Isso porque centenas de pesquisadores tiveram seus nomes incluídos no vocabulário medicinal ao batizarem problemas de saúde e detalhes anatômicos, da mesma forma como aconteceu com o mal de Alzheimer, com a síndrome de Down, o mal de Parkinson, e outros, a tal ponto que o médico Max Grimberg, diretor da Equipe de Cardiopatias do Incor (Instituto do Coração) e professor da Faculdade de Medicina da USP, lançou o livro Epônimos em Cardiologia, em que trata dos casos em que doenças cardíacas e métodos de tratamento correspondentes são batizados com o nome do pesquisador que mais se destacou no estudo de cada um deles. Um exemplo é a doença de Chagas, uma infecção endêmica cujo agente foi descoberto pelo médico mineiro Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas (1879-1934).

 

Alguns desses nomes devem ser substituídos em prazo ainda indeterminado, porque essa é a intenção dos 21 anatomistas eleitos por colegas de mais de trinta países para integrar o Comitê Federativo de Terminologia Anatômica, cuja missão é a de definir uma nova nomenclatura relativa às diferentes partes do corpo humano. A maioria das novidades contidas nesse trabalho diz respeito às artérias cerebrais e à descrição minuciosa do sistema nervoso, mas entre as outras, algumas são até curiosas para os leigos. Como a do tendão de Aquiles que passaria a ser denominado tendão calcânio porque este é o osso ao qual o tendão se prende; ou então o do pomo-de-Adão, a ser trocado por proeminência laríngea em virtude desta existir em homens e mulheres, enquanto o pomo, que significa fruta polpuda como a maça, vem sendo usado porque a crença religiosa admite que um pedaço da maçã do pecado original ficou engasgado no pescoço de Adão e seus descendentes.

 

O uso de epônimos na conversação é um procedimento normal e corriqueiro, e como exemplos podem ser lembrados os seguintes:

 

Larápio - Existiu na Roma imperial um juiz corrupto que se tornou conhecido por vender sentenças (donde se conclui que essa prática tão em moda nos dias atuais já vem de longa data). Seu nome era Lucius Antonius Rufius Appius, mas como ele o abreviava em sua assinatura rubricando apenas L.A.R. Appius, a palavra daí formada - larapius - integrou-se ao  vocabulário e passou a designar os ladrões com ou sem toga, os gatunos e pessoas desonestas, de forma geral.

 

Erro crasso -  Marcus Vinicius Crasso foi um cônsul romano que em 53 antes de Cristo, como comandante do exército que invadia a Síria, tomou duas decisões infelizes: a primeira foi a de iniciar a campanha militar em momento impróprio, e a segunda, a de pretender encurtar caminho por um vale estreito onde suas forças se colocaram em situação indefensável, e por isso mesmo foram aniquiladas pelos inimigos. Dessa passagem histórica surgiu a expressão indicativa de falhas e enganos grosseiros e catastróficos.

 

Sadismo - O Marquês de Sade (ilustração), Donatien Alphonse François Sade (1740-1814) foi um escritor e militar francês que por mau comportamento se viu desligado do exército e condenado à prisão. Dos seus 74 anos de vida, 29 foram passados em cadeias de várias cidades francesas (morreu em um asilo de loucos), o que não o impediu de escrever alguns romances, entre eles a História de Julieta ou a Prosperidade do Vício, em 6 volumes, que dada à sua obscenidade, lhe valeram duas sentenças de prisão. Ganhou fama em virtude das reclamações que as prostitutas parisienses apresentavam à polícia, queixando-se de que ele usava chicotes, cinturões e correntes nos encontros amorosos de que participava. É do marques de Sade que deriva o termo usado para indicar um tipo de perversão sexual, e por extensão, fazer mal aos outros, ou maltratar pessoas ou animais.

 

Dantesco - Durante Alighieri, ou Dante Alighieri (1265 - 1321), poeta italiano, escreveu A Divina Comédia, obra considerada o monumento supremo do humanismo cristão. Dividida em O Inferno, O Purgatório, e O Paraíso, o poema, que descreve uma viagem do poeta ao mundo dos mortos, é uma verdadeira enciclopédia que reflete toda a ciência da época, tendo sido lida e admirada através dos séculos. Das passagens constantes do primeiro livro dessa trilogia épica de Dante - O Inferno - derivou dantesco, expressão que serve não só para designar o que é horroroso, pavoroso e tétrico, mas também tudo o que possui a energia do autor, sua força de imaginação.

 

Mausoléu - Cária foi um antigo reino na Ásia Menor, à beira do mar Egeu, que teve um rei de nome Mausolo. Quando este morreu, em 352 antes de Cristo, sua esposa Artemísia mandou erigir em Halicarnasso um monumento para guardar os restos mortais de seu marido. Esse sepulcro suntuoso, tão imponente que se tornou uma das sete maravilhas do mundo antigo, foi destruído posteriormente por invasores.

 

Daltônico - Esse é o nome dado à falta de sensibilidade que certos indivíduos apresentam em relação a determinadas cores. Essa deficiência na visão foi percebida pela primeira vez por John Dalton, químico e físico inglês (1766-1844), que em 1794 publicou o estudo Fatos Extraordinários Relativos à Visão das Cores, no qual apresentava as primeiras observações acerca do que posteriormente viria a chamar-se daltonismo.

 

Carrasco - Carrasco, na origem, é um nome próprio; é o último sobrenome de Belchior Nunes, um algoz que ficou conhecido em Lisboa antes do século 17. De nome próprio passou a substantivo comum e hoje é sinônimo de verdugo ou algoz, ou seja, carrasco é o executor de pena de morte.