Prosopopéia é uma figura de retórica que dá vida, voz e sentimento a animais e seres inanimados ou imaginários. Além disso, essa palavra também é usada em sentido figurado, abrangendo o discurso empolado ou veemente, as frases afetadas e pernósticas, os subterfúgios, a vaidade exagerada, o orgulho desmedido e a fanfarronice.
A prosopopéia já era empregada pelos homens que viveram no passado distante, sendo mais comum, porém, na literatura antiga. É evidente sua relação com a tendência humana, nas fases menos adiantadas da civilização, de atribuir vida, fala e sentimento aos animais e seres inanimados. Assim também aconteceu nos movimentos literários dos tempos passados, como no período renascentista, por exemplo, época em que a prosopopéia foi usada com certa freqüência, tornando-se bastante comum nas fábulas e apólogos, uma vez que nelas os animais e seres inanimados ganham vida e expressam características humanas, falando, pensando, brigando e manifestando seus sentimentos.
A frase “O cipreste inclina-se em fina reverência, e as margaridas estremecem, sobressaltadas”, embutida em um poema de Cecília Meireles, é um exemplo dessa figura de linguagem. Nela, tanto ao cipreste, inclinando-se em “fina reverência, como às margaridas, que “estremecem sobressaltadas”, são atribuídas ações próprias dos seres humanos. A mesma coisa acontece na letra da música “O Bêbado e a Equlibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc “... a Lua , tal qual a dona do bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel, e nuvens, /lá no mata-borrão do céu, chupavam manchas torturadas – que sufoco!”. E também nas frases “O jardim olhava as crianças sem dizer nada”,. “As casas espiam os homens que correm atrás das mulheres”.
Na música, a prosopopéia tem presença constante, e como amostras dessa assiduidade podem ser citadas as seguintes composições:
- “Admirável gado novo”, de Zé Ramalho – “os automóveis ouvem a notícia”.
- “De repente Califórnia”, de Lulu Santos e Nelson Mota – “O vento beija meus cabelos, / as ondas também minhas pernas / o sol abraça o meu corpo / meu coração canta feliz”.
- “As Pastorinhas”, de Noel Rosa e João de Barro - “A estrela d‘alva / no céu desponta / E a lua anda tonta / com tamanho esplendor (...)”.
- “João e Maria”, de Chico Buarque e Sivuca - “Agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês...”
- “Estrela do Mar” (1952), de Paulo Soledade e Marino Pinto - "Um pequeno grão de areia, / que era um pobre sonhador / Olhando o céu viu uma estrela / Imaginou coisa de amor".
O mesmo acontece na criação poética, como, por exemplo, nos versos de Jorge Lima:
“A ventania às vezes surpreendia
as janelas abertas do meu lar
e então as doces sombras se moviam
trêmulas, trêmulas a bailar”.
Ou, então, nos de Machado de Assis:
“Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”.
E também ma literatura:
Com Mario Quintana:
- Onde estão os meus verdes? Os meus azuis? / O arranha-céu comeu.
- As águas riem como raparigas / à sombra verde-azul das samambaias.
- Dorme, ruazinha, é tudo escuro.
Ou Eça de Queirós:
- Entretanto, Lisboa arrojava-se aos meus pés.
- A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.
E também Machado de Assis:
- Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume.
- O meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu asas na direção da casa de Virgília.
- Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: – Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
Ou CarlosDrummond de Andrade:
- Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.
- Bateu Amor à porta da Loucura. / Deixa-me entrar – pediu – sou teu irmão.
E Castro Alves:
- Andrada! Arranca esse pendão dos ares! Colombo! Fecha a porta dos teus mares!
- Vi a Ciência desertar do Egito (...).