Robin Hood foi um personagem fantástico criado em 1377 pela fértil imaginação de William Langland, que o colocou como o herói do poema épico Piers Plowman? Ou será que ele só ganhou notoriedade após a divulgação de Gesta de Robin Hood, uma coleção de seus feitos e aventuras que os trovadores ingleses cantaram por todo o país a partir de 1400, transformando-o numa espécie de Batman dos tempos antigos?
Ninguém sabe dizer, nesse caso, aonde está a verdade ou a ficção. Do que se tem conhecimento é que muito depois disso o estadunidense Howard Pyle (1853-1911), ao publicar no início do século 20 o livro Robin dos Bosques, ressuscitou a figura do arqueiro inglês, despertando nos donos da indústria cinematográfica de Hollywood o interesse pela filmagem de diversas aventuras do “justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres”. E foi o que eles fizeram. Entre essas histórias, exibidas em cinemas do mundo inteiro, encontram-se Robin Hood, de 1922, com Douglas Fairbanks no papel principal; As Aventuras de Robin Hood, de 1938, com Errol Flynn no papel principal (considerada a versão mais marcante da série); Rogues of Sherwood Forest, de 1950, com John Derek no papel de Robin; Robin Hood, de 1973, em formato de desenho animado dos Estúdios Disney, com todos os personagens transformados em animais que agiam como humanos; Robin Hood, o príncipe dos ladrões, lançada em 1991, com Kevin Costner no papel principal; e A comédia Robin Hood: Men in Tights, de 1993, dirigida por Mel Brooks.
Talvez por isso o histórico personagem, verdadeiro ou não, tenha dado nome à lei mineira 12.040, de 28 de dezembro de 1995 (Lei Robin Hood), que dispõe sobre a distribuição da parcela de receita do produto da arrecadação do ICMS pertencente aos municípios de Minas Gerais.
Apesar de tamanha divulgação, até hoje a existência do famoso arqueiro inglês permanece envolvida em dúvida, incerteza e incredulidade. Se ela aconteceu, realmente, isso ocorreu há mais de setecentos anos, por volta do século 13, ou um pouco antes, mas o problema é que os muitos autores que a narraram mudaram-lhe a data e local de nascimento, acrescentaram-lhe amigos inexistentes, atribuíram-lhe feitos não comprovados, e descreveram as suas paixões de forma bem mais intensa do que o verdadeiramente se sucedeu. Diz a lenda que Robin Hood roubava dos ricos para dar aos pobres, e vivia com a sua gangue e Maid Marion na Floresta Sherwood, perto de Nottingham. Mas isso é um mito ou realidade?
De conformidade com alguns relatos, Robin viveu de 1160 a 1247. Neles também se assegura que o famoso justiceiro foi nomeado Conde de Huntingdon pelo rei Ricardo Coração de Leão, e que, ao morrer, seus amigos e companheiros o enterraram em Kirklees Priory, West Yorkshire. Mas como os historiadores contemporâneos não o citam em seus trabalhos - o que é estranho, tendo em vista a popularidade que envolve o nome Robin Hood -, isso fez com que muitos passassem a acreditar que o herói lendário foi apenas uma figura mítica criada para simbolizar a luta pela contra as leis injustas dos barões da Idade Média.
Em Nottinghan, condado ao norte da região central da Inglaterra, encontra-se a floresta de Sherwood, famosa como refúgio de Robin Hood e seus companheiros. A cidade do mesmo nome perpetua a memória do celebrado fora-da-lei através de inúmeras estátuas colocadas em locais públicos (como a da ilustração acima), dando seu nome a algumas ruas, ou promovendo um festival anual que o homenageia, sem que isso, porém, responda à indagação que se faz sobre a veracidade da história contada e cantada há séculos. Isso porque as informações existentes sobre esse personagem são absolutamente conflitantes.
Uma das versões revela que Robin Hood, cujo nome verdadeiro seria Robert Hood, aliou-se ao conde de Lancaster (Tomás de Lancaster - 1277/1322), na revolta contra a administração do rei Eduardo II, motivada pela cobrança abusiva de impostos, enquanto outra sustenta que o alvo de sua atividade criminosa era o príncipe João Sem Terra (1167/1216), que usurpara o trono de Ricardo Coração de Leão (1157/1199), seu irmão, enquanto este participava de uma cruzada à Terra Santa. Entre um episódio e outro, o intervalo é de cem anos. Coincidência ou não, parece que no final do século 13, na mesma região de Sherwood, pelos menos cinco homens acusados de atividades criminosas, eram conhecidos pela alcunha de Robin Hood.
Para o historiador Joseph Hunter, um homem chamado Hood, nascido em 1290 e natural do condado de York, onde viveu, era filho de um guarda-florestal a serviço de um nobre. Por sua vez, Tony Molyneux-Smith sustenta em livro de sua autoria que a origem da lenda é Sir Robert Foliot, lorde de uma família que escolheu usar o nome de Robin Hood para esconder a sua verdadeira identidade. Por isso tudo, o economista Rodrigo Constantino (www.rodrigoconstantino.blogspot.com) afirma em seu texto “A Imoralidade de Robin Hood”, que “Não há como localizar historicamente Robin Hood com certeza. A existência de um fora-da-lei nas florestas de Sherwood, durante a Idade Média parece ser um fato.
Mas evidências apontam para vários possíveis indivíduos que se encaixam nas narrações lendárias, e como Robin Hood tornou-se um apelido comum para foras-da-lei, fica praticamente impossível determinar qual foi o verdadeiro. Uma das fontes da lenda Robin Hood foi o historiador escocês John Major, que retrata em 1521 suas ações, que teriam ocorrido no final do século XII. Mas qual foi o verdadeiro e original Robin Hood, e quando exatamente ocorreram suas ações, não são pontos importantes para o objetivo desse texto. Aqui pretendo apenas tratar da "herança maldita", para usar termo em moda, que essa lenda representa até os dias atuais”.