1930 - ASSASSINATO DE JOĆO PESSOA

João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, eleito presidente da Paraíba em 1928, foi assassinado no dia 26 de julho de 1930, no interior de uma confeitaria em Recife, Pernambuco. De sua biografia consta que razões de cunho político motivaram o homicídio, mas outros relatos dão versão diferente ao acontecimento. Um deles pode ser encontrado no site da Assembléia Legislativa de Pernambuco, cujo endereço é www.alepe.pe.gov.br. O texto diz que:

 

Em 1928, foi eleito presidente do seu Estado (...) No ano seguinte teve seu nome lançado para vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, pela Aliança Liberal. (...) A campanha foi conturbada na Paraíba, principalmente quando um dos aliados de João Pessoa, o "coronel" José Pereira, chefe político no município de Princesa, rompeu com os aliancistas e aderiu (...) à candidatura Júlio Prestes e Vital Soares, apoiada pelo presidente Washington Luís. Sob o comando de Pereira, a cidade de Princesa iniciou uma rebelião contra o Governo estadual. Nesse período, realizou-se o pleito presidencial que deu a vitória à chapa governista. Inconformados com o resultado, os opositores iniciaram um movimento para impedir a posse de Júlio Prestes. (...) Sem armas para enfrentar os rebeldes, a Polícia paraibana passou a invadir casas e escritórios de pessoas suspeitas de estocar armamentos e munições destinadas aos comandados de José Pereira. O jornal paraibano A União noticiou, então, a invasão à casa de João Dantas, (...) de onde vários papéis foram confiscados. Entre essa documentação, estavam cartas de amor trocadas por Dantas e uma namorada, Anayde Beiriz. O episódio levou à exacerbação dos ânimos e culminou com o assassinato de João Pessoa, na Confeitaria Glória, no Recife, por João Dantas. Discute-se, ainda hoje, o real motivo do crime: se político ou passional.

 

Em www.paraiba..pb.gov.br, texto datado de 05.01.2005 lança um pouco mais de luz sobre a tragédia. Com o título “Um centenário de nascimento da poetisa Anayde Beiriz, mártir da maior cafajestada da história política da Paraíba”, ele diz:

 

O próximo dia 18 de fevereiro é a data que marca o centenário do nascimento da professora e poetisa paraibana Anayde Beiriz. Provavelmente, esta data passaria despercebida por muitos não fosse uma reforma que atualmente está em andamento na casa localizada à rua Santo Elias, 176, em João Pessoa. (...) O fato serviu para resgatar um pouco da história de Anayde Beriz, que no filme "Paraíba, mulher macho", teve sua importância reduzida à condição de mera amante do assassino do presidente João Pessoa. Diferentemente do que é apresentado no longa metragem de Tizuka Yamazaki, Anayde Beiriz não foi uma simples passageira do tempo que entrou para história por trágica casualidade do destino, mas provavelmente a mais importante personagem feminina da história paraibana. Anayde escrevia para os jornais da época. Mulher bastante ousada que ia de encontro aos preceitos dogmáticos de uma sociedade dominada pelo machismo conservador, ela foi a primeira a usar os cabelos pintados e cortados muito curtos, à "la garçonne". Passeava pelas ruas desacompanhada, fumava, usava decotes sensuais e era avessa á idéia de casar e ter filhos. Aos dezessete anos concluiu o curso normal, diplomada em primeiro lugar da turma, e com vinte anos ganhou um concurso de beleza. Porém, em seus curtos vinte e cinco anos de vida, destacou-se como uma combatente defensora da igualdade de direitos para ambos os sexos, professora, amante das artes e poetisa, cujos poemas de singular apelo sensuais eram classificados como devassos até por setores das classes intelectuais menos comprometidos com as normas morais vigentes.


Em 1928, Anayde Beiriz, com vinte e três anos de idade, iniciou seu romance com o  advogado e ativista político João Dantas, ferrenho adversário de João Pessoa,  então presidente da Província da Paraíba. Eles mantinham uma relação amorosa bastante liberal para a época. Um casal apaixonado que trocava confidências amorosas através de cartas e poemas eróticos, os quais eram guardados no escritório de João Dantas, como partes integrantes de suas vidas privadas. Em 1929, João Pessoa, na qualidade de vice, e Getulio Vargas, como presidente, lançaram chapa de oposição à Presidência da Republica. Na Paraíba, o cel. José Pereira, de Princesa, a quem João Dantas se ligava politicamente, era o principal adversário político do Presidente da Paraíba. Em 1930, a campanha pela sucessão do Presidente da República Washington Luís foi bastante acirrada, mas, realizado o pleito, a chapa situacionista, encabeçada por Júlio Prestes, foi declarada vitoriosa. Nada mais restava a chapa de oposição, formada por Getúlio Vargas e João Pessoa, senão lamentar a derrota,. Porém, alguns fatos ocorridos na Paraíba iriam mudar o rumo da história do Brasil. De retorno à Capital, vindo da Serra de Teixeira, onde visitara seu ao pai enfermo, João Dantas constatou que seu escritório fora invadido e saqueado pela polícia, a mando de João Pessoa, e todo o seu conteúdo espalhado e afixado em lugares públicos, expostos à curiosidade alheia. Apercebeu-se, João Dantas, que as cartas,  poemas eróticos e fotografias sensuais, e até mesmo o diploma de Anayde, eram motivos de galhofas de toda a sociedade. João Dantas se sentiu profundamente humilhado ao ver o seu sagrado direito de privacidade ser violado.

 

O resto da história todos sabem qual foi. Sabiamente, diz um velho provérbio: "Quem governa faz a História, pois a História pertence aos vencedores". Por muito tempo a história oficial tentou esconder os verdadeiros motivos que culminaram na tragédia da Confeitaria Glória. Getulio Vargas chegou ao poder graças á morte de João Pessoa, e como gratidão o transformou em mito. Não se discute a ética nem o caráter dos mitos, por isso João Pessoa tem resistido incólume  ao julgamento da história. Para que escrever que naquela ocasião João Pessoa foi ao Recife se encontrar com uma amante, se fica mais sublime dizer que ele foi tratar de assuntos políticos, como  fazem os grandes estadistas? Que importa saber se na Confeitaria Glória João Pessoa contava triunfantemente aos correligionários a humilhante peça que armara contra seu adversário político?

 

Concomitantemente, a história oficial deixou transparecer que João Dantas era um homem rude, de pensamento retrógrado e posições anárquicas, que alimentava um amor libertino por uma insignificante e devassa professorinha de uma colônia de pescadores. Por outro lado, João Pessoa, foi elevado à categoria de herói assassinado, João Dantas e Anayde Beiriz foram relegados aos grupos dos fracos e arrependidos, que renunciam ao sagrado direito de viver através do louco caminho do suicídio. Desta forma, hoje o nome de João Dantas continua prescrito na história política da Paraíba, enquanto que João Pessoa dá nome à cidade em que nasceu. Anayde Beiriz teve o corpo enterrado como indigente, na capital pernambucana.