Intentona Comunista foi o nome dado à tentativa de golpe contra o governo Getúlio Vargas, realizada em novembro de 1935 pela Frente das Esquerdas da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Planejada por oficiais e praças do Exército brasileiro, a ação militar, de natureza política, visava, sobretudo, a derrubada do presidente da nação, exigindo que em seu lugar fosse instalado um governo popular voltado para o fim das oligarquias, do imperialismo e do autoritarismo. Em plano secundário ficaram outras exigências dos rebelados, entre elas a decretação do fim da dívida externa e a implantação de um programa de reforma agrária destinado a dar terra a quem precisava de terra. Segundo declaração de um dos seus líderes, capitão Agildo Barata, a revolução classificada por ele como nacional-libertadora, embora efetivada através de um movimento armado, “não se propõe a ultrapassar o quadro da ordem social burguesa”.
O mentor do levante foi Luis Carlos Prestes, capitão do Exército e líder tenentista convertido ao comunismo, que para planejá-lo e dirigi-lo contou com a participação de um grupo internacional composto pela alemã Olga Benário, mais o argentino Rodolfo Ghioldi, o alemão Arthur Ernst Ewert e sua mulher Elise, Ranieri Gonzales, Inês Túlchniska, Abraham Gurasky e outros militantes ligados ao Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC), num total de 22 agentes coordenados por Páviel Vladimírovich Stuchiévski e Sófia Semiônova Stúchskaya. Os partidos de Direita, no Brasil, sempre caracterizaram essa interferência do CEIC no movimento como prova do seu caráter antinacional, em que os militantes brasileiros teriam agido como simples fantoches do bolchevismo internacional, mas a verdade é que Prestes superestimou o seu prestígio e sua capacidade de articulação política nos meios militares para prevalecer sobre a opinião e posicionamento do Partido Comunista Brasileiro, marginalizando, no caso, o secretário-geral da agremiação, Antônio Bonfim, o Miranda (na ilustração acima, Luiz Carlos Prestes sendo conduzido à prisão).
A maioria das versões sobre esse episódio considera que Prestes supunha ser o programa nacionalista da ANL bem atraente, e por isso mesmo capaz de atrair partidários não só entre operários e trabalhadores do campo, mas também em meio aos pertencentes à chamada burguesia “progressista” contrária ao imperialismo e fascismo. Mas quando o governo federal decretou a ilegalidade da Aliança, no que foi apoiado tanto pelos mais ricos como também pelos cidadãos pertencentes à classe média, que viam com temor a infiltração comunista no movimento, ele decidiu, de comum acordo com a CEIC, promover uma ação armada limitada à área militar, o que acabou dando ao movimento a característica de conspiração militar típica sem nenhuma articulação com as bases populares. Daí a razão de muitos preferirem denominá-lo como o “golpe militar de 1935”.
O levante eclodiu primeiramente em Natal (RN), no dia 23 de novembro; depois, em Recife (25 do mesmo mês), e finalmente no Rio de Janeiro (dia 27). O de maior importância foi o do Rio de Janeiro, de proporções mais amplas porque envolveu, simultaneamente, três unidades do Exército: o 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha; o 2º Regimento de Infantaria e o Batalhão de Comunicações, na Vila Militar; e a Escola de Aviação, no Campo dos Afonsos. Segundo versão divulgada pelas forças legalistas, os amotinados teriam ferido e matado alguns companheiros que dormiam por saber que os mesmos não aprovavam suas idéias, o que até hoje gera margem a dúvidas. O noticiário jornalístico da época revela que “a luta foi atroz e sem quartel, com os insurretos tentando expandir a rebelião a todo custo, esbarrando na mais férrea resistência das forças legalistas, até que, finalmente, foram derrotados”.
O episódio mais dramático do levante comunista foi a tentativa feita pelos rebelados para conquistar o Regimento de Aviação no Campo dos Afonsos, à época ainda integrando o Exército (a Força Aérea Brasileira só seria criada em 1941), pretendendo com isso apossar-se das aeronaves lá estacionadas e com elas bombardear a cidade do Rio de Janeiro. De conformidade com os relatos feitos no dia dos acontecimentos, as unidades da Vila Militar que acorreram à base aérea conseguiram instalar peças de artilharia em suas imediações e com elas bombardear a pista de pouso e decolagem, impedindo, dessa forma, a partida dos aviões. Em seguida, unidades de infantaria, apoiadas por fogo de artilharia, retomaram em pouco tempo o domínio das instalações em poder dos revoltosos.
Reprimido o movimento, o Congresso Nacional aprovou, em dezembro de 1935, uma emenda constitucional que permitiu a equiparação da "comoção intestina grave", com finalidades subversivas das instituições políticas e sociais, ao estado de guerra. Foi com essas características que o estado de guerra foi decretado no Brasil nos anos de 1936 e 1937.
No combate travado no 3º Regimento de Infantaria, morreram 28 militares, entre oficiais, sargentos e praças. Para lembrá-los foi erguido na praça General Tibúrcio, Praia Vermelha, um “Monumento em homenagem aos heróis que tombaram na covarde tentativa de implantar o comunismo no Brasil”. Ele ocupa o antigo local onde estava sediado o 3º RI, que, sublevado, foi completamente destruído.
Por trás da estratégia equivocada deste levante estava, de um lado, a avaliação superestimada que Prestes fazia de seu prestígio junto aos demais companheiros de farda, e de outro a crença da Internacional Comunista de que numa sociedade ‘semi-colonial’, bastaria proclamar o movimento para produzir uma sublevação espontânea que englobaria de militares a operários.