1932 - SUICÍDIO DE SANTOS DUMONT, O

Depois de famoso, Santos=Dumont (que assinava dessa forma para indicar que considerava igualmente importante sua ascendência brasileira e lusitana, com a francesa) veio algumas vezes ao Brasil. A primeira, em 1914, foi rápida, e nela o inventor mineiro não pôde satisfazer o desejo do povo, que era o de vê-lo voando em nossos céus.

 

Numa outra, em 1917, insatisfeito com a pouca atenção que nossas autoridades lhe davam, enviou carta ao presidente da República, pensando em ser ouvido pelo chefe da nação sobre a possibilidade de implantação da aviação no Brasil. Em seu livro “O que eu vi, o que nós veremos”, de 1918, Santos Dumont não só divulga a sugestão contida nessa correspondência, mas também torna pública a resposta recebida:

 

- “(...) Aproveito esta ocasião para fazer um apelo aos senhores dirigentes e representantes da Nação para que dêem asas ao Exército e à Marinha Nacional. Hoje, quando a aviação é reconhecida como uma das armas principais da guerra, quando cada nação européia possui dezenas de milhares de aparelhos, quando o Congresso Americano acaba de ordenar a construção de 22.000 destas máquinas e já está elaborando uma lei ordenando a construção de uma nova série, ainda maior; quando a Argentina e o Chile possuem uma esplêndida frota aérea de guerra, nós, aqui, não encaramos ainda esse problema com a atenção que ele merece! Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1917. Santos-Dumont”. S. Exa. agradeceu-me e disse-me que no futuro, se tivesse necessidade de meus conselhos, me preveniria.

 

Dez anos depois, Dumont regressava de mais uma temporada na Europa. O dia era 3 de dezembro de 1928. Quando o navio em que ele viajava já se encontrava no interior da baia de Guanabara, pronto para atracar, um hidroavião iniciou manobras para lançar sobre a embarcação uma mensagem de boas vindas ao ilustre passageiro que chegava. Infelizmente, a aeronave caiu no mar durante a execução desse procedimento, matando todos os seus ocupantes. Este acidente provocou uma grande e prolongada depressão no inventor, que presenciou a queda da aeronave.

 

Já nessa época o “pai da aviação” sofria de esclerose múltipla, doença degenerativa e progressiva que o impedira de continuar voando. Em razão disso ele passou vários anos vivendo entre o Brasil e a Europa, internando-se várias vezes para tratamento da doença e alternando períodos depressivos e de vida relativamente normal. Quando retornou ao Brasil em meados de 1931, depois de outra temporada no estrangeiro, seu estado de saúde piorara bastante, e Dumont demonstrava grandes dificuldades de locomoção e muitos períodos de melancolia. Por isso ele decidiu morar em Guarujá, onde as caminhadas matinais que fazia na praia foram seus últimos momentos de bem estar.


Em 9 de julho 1932 irrompeu a Revolução Constitucionalista. Cinco dias depois de iniciado o conflito (14 de julho), Dumont redigiu um manifesto conclamando os mineiros a se unirem aos paulistas, contra o governo de Getúlio Vargas. Mas na manhã de 23 de julho, quando inventor presenciou os vôos rasantes de duas aeronaves do Exército que atacavam o cruzador Bahia, e escutou o estrondo das bombas que explodiam uma após outra, ele se acabrunhou com o que acontecia, retornou ao hotel, entrou em seu quarto e não mais saiu. Como não descesse para almoçar, os funcionários ficaram preocupados com a sua ausência e foram procurá-lo; bateram na porta do aposento, e não obtendo resposta, forçaram a entrada, encontrando o inventor no banheiro, já sem vida. Havia se enforcado com duas gravatas.

 

Registros sobre o triste acontecimento dizem que a certidão de óbito ficou “sumida” por 23 anos, e que o motivo da morte foi omitido porque a ditadura de Getúlio Vargas achava que não ficaria bem revelar ao povo a existência de um herói suicida. E quando foi finalmente encontrada, verificou-se que dava como causa da morte um suposto colapso cardíaco. O próprio governador da época, Dr. Pedro de Toledo, determinou: “Não haverá inquérito. Santos=Dumont não se suicidou.”  Cumpridas as ordens do governador, somente a 3 de dezembro de 1955 seria registrado o óbito.

 

Mario de Andrade, em uma de suas crônicas intituladas "Paulicéia Desvairada", assim se manifestou sobre a tragédia:

 

"Morreu no banheiro de um hotel de luxo, na praia, em Santos. Uma bela manhã de 23 de Julho, em 1932. Os paulistas estavam rebelados desde o dia 9, contra o regime de Getúlio Vargas. Arrufos da elite, sabe-se. No mesmo dia um homem entrou esbaforido no gabinete do chefe da revolução. Era gordo, poeta e tira. Um outro homem gordo, vesgo e general, com ar de arruaceiro de cervejaria alemã, o recebeu contrafeito. O poeta-tira chamava-se Emílio de Menezes. O de cara de beberrão inconveniente era Bertoldo Klinger, que mais tarde iria tentar reformar outra coisa que o irritava profundamente além da democracia: a ortografia da língua portuguesa. O gordo das musas de distrito, ignorando a rispidez do general, foi logo contando da tragédia. Alberto Santos=Dumont, orgulho da pátria, acabara de cometer suicídio. O general detestou saber que o alucinado inventor escolhera matar-se logo em plena revolução, ainda mais no banheiro de um hotel. Coisa mais suspeita matar-se num banheiro. Sabia que o suicida padecia de destelhámento do juízo, metia-se onde não era chamado e não andava ultimamente comportando-se como uma glória nacional. Assim, antes que o caldo entornasse e a honra da pátria acabasse respingada, ordenou que fosse suspenso o inquérito policial e, da mesa de autópsia, saísse um cadáver com morte honesta e sem equívocos, como devem ser as mortes de grandes patriotas. Era evidente que Alberto Santos=Dumont, se abilolado não se encontrasse, jamais cometeria gesto tão impensado. Homens como ele morrem na cama para a consternação dos justos e exemplo à juventude. Então, para arrematar, ordenou que, nos comunicados distribuídos à imprensa fosse suprimido um outro inconveniente biográfico. O homem morrera celibatário. Morrer solteiro, sem deixar viúva e numerosa descendência. Como, no futuro, os mestres iriam explicar a solteirice do herói sem despertar suspeitas entre os pubescentes alunos? Melhor esquecer detalhe de somenos importância. E assim foi feito”.