O governo de Artur da Silva Bernardes (1875-1935), presidente da República de 1922 a 1926, foi marcado pela instabilidade política que as revoltas tenentistas criaram ao longo do seu mandato. Desses movimentos de insubordinação participavam militares e civis que se opunham às oligarquias dominantes e ao avanço do movimento operário, o que levou o chefe da nação a governar em permanente estado de sítio. Essa crise continuada foi motivada pela ”política dos governadores”, uma acomodação de interesses engendrada por Manoel Ferraz de Campos Sales (1841-1913), ocupante da presidência na gestão de 1898 a 1902, que previa o apoio federal aos governadores estaduais e seus aliados, enquanto estes, em troca, garantiam a eleição dos candidatos oficiais concorrentes a uma cadeira no congresso. Em outras palavras, esse acerto garantia a continuidade no poder dos representantes das famílias ricas e poderosas.
Tal conchavo político funcionava graças a dois expedientes escusos, mas eficientes. No primeiro, uma Comissão de Verificação formada por deputados recebia as atas eleitorais e livros de votação, para averiguar se havia ocorrido qualquer irregularidade, o que lhes permitia fraudar os resultados e indicar, assim, quem deveria ser reconhecido como vencedor das eleições; no segundo, mais conhecido como “coronelismo”, fazendeiros que haviam adquirido a patente de coronel, da Guarda Nacional, utilizavam sua riqueza para assegurar a vitória dos candidatos que apoiavam, não hesitando em usar da violência contra os eleitores recalcitrantes, a fim de alcançar o resultado desejado.
Relatos da época esclarecem que apesar de o governo federal ter controlado o movimento rebelde ocorrido em 1922, cujo desfecho foi o episódio sangrento conhecido como ”Os Dezoito do Forte”, ocorrido na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, sua ação não eliminou o descontentamento que inquietava e agitava setores do exército contrários à estrutura política que privilegiava os grandes fazendeiros da nação, e por isso mesmo reivindicavam a imediata adoção do voto secreto e a moralização do regime. Nos meses seguintes ao conflito ocorrido em Copacabana, surgiram vários focos de agitação em quartéis espalhados pelo país, dos quais participavam alguns líderes da rebelião inicial, que haviam sido transferidos após o fracasso da insurreição por eles planejada. Até que em 05 de julho de 1924, data escolhida em homenagem ao levante ocorrido dois anos antes na então capital federal, e que dera início às rebeliões tenentistas no país, eclodiu uma nova investida armada contra os governantes.
Na madrugada daquele dia, tropas rebeldes do Exército e da Força Pública de São Paulo, lideradas pelo general reformado Isidoro dias Lopes (ilustração acima), além de numerosos oficiais, entre eles Joaquim Távora (que faleceu durante as operações militares), Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, Índio do Brasil e João Cabanas, tomaram de assalto pontos estratégicos da cidade paulistana, embora alguns focos de resistência, entre eles o do Palácio de Campos Elíseos, residência oficial do presidente de São Paulo, tivessem retardado por algum tempo o avanço das tropas rebeldes. Mas como o palácio tornou-se alvo de intenso bombardeio, Carlos de Campos, que era o chefe do governo paulista da época, achou por bem se retirar em 8 de julho para o interior do estado, e lá aguardar o resultado da reação das forças federais.
Que não demorou, por sinal. Cerca de 15.000 soldados das tropas legalistas chegaram a São Paulo, apoiados pela aviação militar que passou a usar um plano de ação a que davam o nome de “bombardeio terrificante”, atingindo bairros operários como Mooca e Brás, e de classe média, como Perdizes, o que acabou provocando o êxodo da população. Sitiados e atacados, os rebeldes não dispunham de poderio militar que lhes permitisse enfrentar de igual para igual as forças governistas, e por isso decidiram abandonar a cidade em 28 de julho (vinte e três dias depois de a terem ocupado), rumando para Bauru. Lá, Isidoro Dias Lopes tomou conhecimento de que em Três Lagoas, no atual Mato Grosso do Sul, encontrava-se acampada uma tropa federal, e resolveu atacá-la. Sobre esse episódio, o professor americano Neil Macaulay diz em “A Coluna Prestes”, livro de sua autoria, que “1.500 soldados rebeldes” marchavam pelo interior brasileiro após um “movimento militar revolucionário” fracassado. Tais tropas rebeldes, tendo a seu comando Isidoro Dias Lopes, haviam atacado São Paulo em 5 de julho de 1924 e ocupado a cidade por vinte e três dias, exigindo a renúncia do então presidente Artur Bernardes. A data havia sido escolhida em comemoração ao aniversário de dois anos da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. De qualquer maneira, após o bombardeio de regiões como Mooca, Brás e Perdizes, as tropas revoltosas foram repelidas pelo Exército legalista. Desde então, encontravam-se sem destino, vagando pelo estado de São Paulo.
Ainda segundo Neil Macaulay, “Em Bauru, Izidoro [Dias Lopes] soube que havia uma grande tropa federal em Três Lagoas(...). Os rebeldes arremeteriam contra a concentração governista [na cidade] (…). O ataque seria conduzido por Juarez Távora. Em Porto Epitácio(...), seu batalhão reforçado por 570 (quinhentos e setenta) homens(...) embarcou em dois vapores rumo às vizinhanças de Três Lagoas. Ao amanhecer do dia seguinte(...), os soldados de Juarez movimentaram-se para atacar [a cidade] (...). Os comandados de Juarez podiam ouvir o resfolegar das locomotivas da Estrada de Ferro Noroeste(...). O encontro em Três Lagoas deixou um terço do batalhão morto, ferido, aprisionado ou desaparecido. Juarez tinha perdido a mais sangrenta batalha da Revolta Paulista. Talvez tenha sido, também, a batalha decisiva da revolução”.
Vencidos, os revoltosos marcharam, então, rumo ao sul. Chegando a Foz do Iguaçu, no Paraná, eles se uniram aos remanescentes do motim comandado na mesma época pelo capitão Luis Carlos Prestes, no Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, compondo, então, um grupo que mais tarde receberia o nome de Coluna Prestes. A Revolta Paulista havia terminado com um saldo 503 mortos e quase 5.000 feridos.