1912 - GUERRA DOS PELADOS

A guerra dos Pelados (também denominada Guerra do Contestado), acontecida de 1912 a 1916, consistiu no choque entre militares enviados pelo governo federal e grande número de camponeses acampados em uma faixa de terra na região oeste de Santa Catarina. Esta área pertencia à Brasil Railway, empresa americana que havia paralisado as obras de construção de uma ferrovia para a qual fora contratada, desempregando muitos operários e atraindo trabalhadores rurais que pretendiam se estabelecer no terreno adjacente ao leito da ferrovia. Além do mais, o mesmo pedaço de chão também era objeto de um questionamento de fronteiras entre os estados de Santa Catarina e do Paraná, que reivindicavam sua posse, daí ter ficado conhecida como Contestado.

 

Para complicar ainda mais a situação, alguns místicos que se diziam curandeiros e profetas chegaram à zona conflagrada, influenciando negativamente os acontecimentos. O primeiro foi Gian-maria d’Agostini, italiano de Piemonti, com entrada no país em 1844, e classificação profissional de “solitário eremita”. Os registros da época dizem que pouco depois de sua chegada, esse João Maria  - nome que ele dava a si mesmo - desceu para Santa Maria da Boca do Monte (SC), onde passou a erguer capelas e cruzes. Solitário, dormia na floresta, comia frugalmente, martirizava a si mesmo durante a madrugada, enquanto cantava e orava, e talvez por isso logo juntou em torno de si cerca de 200 pessoas que buscavam cura para seus males físicos e espirituais. Considerado santo milagreiro, desapareceu um dia misteriosamente, e ninguém mais soube dele. Anos depois foi a vez de Anastás Markaff, “nascido no mar e criado em Buenos Aires”. Chegou a Santa Maria por volta de 1890, pregava penitências e profetizava calamidades, mas assim como seu antecessor, também desapareceu antes do final da primeira década do século 20: sem deixar rastro. 

 

O terceiro, Miguel Lucena de Boaventura, desertor do exército que dizia ser José Maria, irmão do profeta João Maria, era de aparência singela e bondosa, gostava de popularidade, e em pouco tempo passou a ser visto pelos acampados como possuidor de aura mística, embora fosse muito mais um rebelde. Talvez por isso tenha conseguido reunir em torno de si, em setembro de 1912, cerca de setecentos seguidores cheios de fé, da mesma forma como muitos anos antes havia acontecido com Antônio Conselheiro em Canudos, na Bahia. Entre rezas e ameaças de invasão às cidades vizinhas, ele organizou seus adeptos à maneira militar, e isso preocupou os moradores de Taquaruçu. Assustados com tanta gente estranha andando armada pelas redondezas, os moradores do lugar induziram as autoridades a expulsá-los para outras paragens, o que foi feito. Os seguidores do místico seguiram então para Campos do Irani, na época pertencente ao Paraná, mas quando a notícia desse avanço chegou à Curitiba, dizia que eram catarinenses invadindo terras paranaenses, para garantir a sua posse. Acreditando na veracidade dessa informação, o governador despachou para o local cerca de 60 homens, uma metralhadora e 11 cavalarianos, comandados pelo coronel João Gualberto Gomes de Sá, com a missão de dispersá-los. Mas na luta que se seguiu a tropa do governo foi derrotada, o coronel e o “monge” morreram, e todo o material bélico do exército caiu nas mãos dos rebeldes, que abandonaram o local. Quando novas forças do governo chegaram, nada mais havia a ser feito.

 

O ano seguinte encontrou os seguidores de José Maria reagrupados na “cidade encantada de Taquarussu”, tendo à frente o fazendeiro Euzébio Ferreira dos Santos, um fanático que impunha aos mais de 300 sertanejos agrupados naquele reduto com suas famílias, normas religiosas severas, punindo os divergentes com castigos físicos. Uma delas obrigava os homens a rasparem cabeça e barba à navalha, o que acabou dando ao conflito o nome de “guerra dos pelados”. Em 1914 esse líder tresloucado enviou ao Rio de Janeiro uma Carta Aberta, na qual ameaçava a República pela omissão cometida contra os sertanejos que o acompanhavam. As autoridades reagiram enviando soldados para a região, mas como estes fracassaram nas investidas iniciais, o governo decidiu intensificar a repressão colocando na área de conflito cerca de sete mil homens bem equipados, sob o comando do general Setembrino de Carvalho. 

 

Essa decisão provocou divergências entre os rebelados, e com elas a formação de grupos radicais como o de Adeodato Ramos, o “Flagelo de Deus”, que contava com dois mil homens armados. Tais bandos passaram a assaltar fazendas e queimar cartórios como forma de protesto contra as leis agrárias vigorantes, cobrindo, nessa ação, uma área do tamanho de Alagoas. Em pouco tempo eles contavam com a simpatia de quase vinte mil adeptos, e por isso a revolta, que inicialmente reunia um punhado de homens desalentados pelo abandono, se transformara em um levante separatista que pretendia criar “um Estado dentro de um Estado”. 

 

Porém, a perseguição que as tropas federais lhes faziam foi aos poucos diminuindo a área de ação dos revoltosos, e quando finalmente os soldados invadiram Santa Maria da Boca do Monte, em abril de 1915, a encontraram deserta e destruída. Seus defensores haviam fugido para as montanhas, de onde, valendo-se da escuridão noturna, disparavam suas carabinas contra a cidade. A chegada de reforços militares provocou a debandada dos homens de Adeodato Ramos, mas quando logo em seguida as tropas do exército se retiraram, os sertanejos mais uma vez trataram de se reagrupar, mas dessa vez por pouco tempo: milícias formadas por mercenários não tiveram muito trabalho para desbaratar esses grupos remanescentes, colocando assim um ponto final no conflito responsável por um número desconhecido de mortes ao longo dos seus cinco anos de duração.

 

Esse episódio da história brasileira serviu de enredo ao filme “A Guerra dos Pelados”, com direção de Sylvio Back , 1976, cuja sinopse diz : “Outono de 1913, Taquaruçu, interior de Santa Catarina, Campanha do Contestado. A concessão de terras a uma companhia de estrada de ferro estrangeira para explorar suas riquezas e a existência de reduto messiânico formado por posseiros, geram um sangrento conflito. Por exigência dos coronéis da região, forças regulares intervêm para liquidar as tensões”.