Entre setembro de 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial, e agosto de 1942, quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo e se uniu definitivamente às forças aliadas, muita coisa aconteceu no país. Nessa época, as relações do Brasil com os Estados Unidos foram pautadas pela negociação do alinhamento brasileiro. Tratou-se do fornecimento de materiais estratégicos aos Estados Unidos e da permissão para o estacionamento de tropas norte-americanas nas bases do Nordeste; e como contrapartida, o governo brasileiro reivindicava financiamento para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Antes que os termos do alinhamento fossem finalmente acertados, entretanto, o país já sofria os efeitos do conflito mundial. O Brasil ainda não estava em guerra, mas a guerra certamente já havia chegado ao Brasil.
Ao se iniciar a guerra na Europa, as relações internacionais do Brasil caracterizavam-se por uma política de eqüidistância pragmática que consistia, basicamente, na aproximação simultânea com os Estados Unidos e a Alemanha. Entretanto, diante da evolução do conflito europeu e do esgotamento de seus recursos de barganha, o Brasil tornou-se a cada dia mais comprometido com os preparativos norte-americanos para a entrada na guerra ao lado dos Aliados.
Através das conferências interamericanas, o governo norte-americano vinha procurando garantir para si, na hipótese de generalização do conflito, o apoio do conjunto dos países latino-americanos. Inicialmente, na conferência do Panamá (1939), foi declarada a neutralidade das repúblicas americanas diante da guerra na Europa. A seguir, em Havana (1940), foi afirmada a solidariedade continental em face de uma agressão externa a qualquer país do continente. Visando especificamente ao apoio brasileiro, o presidente Roosevelt favoreceu a ida aos Estados Unidos da Missão Aranha e a assinatura de uma série de acordos, que previam a concessão de créditos ao Brasil em troca do compromisso do governo brasileiro de regularizar o pagamento das dívidas e das remessas de lucros. Além disso, Washington iniciou ferrenha batalha contra a forte presença germânica no continente latino-americano em geral, e no Brasil em particular, através de uma ofensiva política e ideológica sem precedentes na história das suas relações. Na expressão cunhada pelo historiador Gerson Moura, era o Tio Sam que chegava ao Brasil para fazer frente ao fantasma do Eixo.
Entretanto, até que o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos se consolidasse, Vargas procurou obter financiamento para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, assim como para o re-equipamento e modernização das Forças Armadas. Os Estados Unidos, por seu lado, reivindicavam permissão para o estacionamento de tropas norte-americanas em bases do Nordeste, e o fornecimento de materiais estratégicos. Esse processo de negociação do alinhamento chegou ao fim com a entrada dos Estados Unidos na guerra após o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, em dezembro de 1941. A partir de então, e tendo em vista os compromissos assumidos pelo Brasil desde a Conferência de Havana, tornou-se inevitável o rompimento de relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo.
O rompimento foi declarado por ocasião da Reunião de Chanceleres do Rio de Janeiro, em janeiro de 1942. Convocada por Washington em seguida ao ataque japonês, III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas realizou-se no palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, de 15 a 28 de janeiro de 1942. O principal objetivo da reunião era a aprovação unânime de uma resolução de rompimento imediato de relações diplomáticas e comerciais dos países americanos com o Eixo. Ao final, por força da recusa argentina e chilena em firmar tal posição, foi aprovada uma resolução que apenas recomendava o rompimento de relações.
De toda forma, a conferência logrou a aprovação de uma série de resoluções que consolidavam a colaboração dos países do continente com os esforços de guerra dos Estados Unidos. Os países latino-americanos se prometeram fornecer matérias-primas estratégicas para a indústria bélica norte-americana, criar condições propícias ao livre movimento de capitais e manter a ordem interna para evitar a alteração de compromissos políticos assumidos com os Estados Unidos.
O fato de não ter havido qualquer compromisso na área militar gerou insatisfação em setores das Forças Armadas brasileiras interessados em participar militarmente no conflito mundial ao lado dos Aliados. A resolução a respeito limitava-se a criar uma agência de estudos sobre a defesa continental, isto é, uma agência que visava a encorajar a solidariedade hemisférica no plano militar, mas que não se destinava propriamente a assumir funções relevantes de defesa da região.
Como parte de sua estratégia de negociação do alinhamento brasileiro aos Estados Unidos, Vargas deixou para o último momento o anúncio do rompimento brasileiro com os países do Eixo. Finalmente, tendo obtido do governo Roosevelt o compromisso de reequipar suas Forças Armadas, o Brasil anunciou sua decisão de romper relações diplomáticas com a Alemanha, a Itália e o Japão, no dia de encerramento da Conferência.
O preço dessa decisão não tardou a ser cobrado, com o afundamento de navios mercantes na costa brasileira. A partir daí, com a população enfrentando as restrições impostas pelo cotidiano da guerra, iniciou-se forte mobilização civil e militar mobilização civil e militar contra o Eixo. Mas apesar desse movimento crescente em direção ao alinhamento do Brasil aos Estados Unidos, as vitórias dos alemães na Europa e na África continuaram a exercer forte influência sobre as Forças Armadas, o que levou "aliadófilos" e "germanófilos" a se entrechocar por mais algum tempo dentro do governo brasileiro. Finalmente, em agosto de 1942 começaria a história do Brasil na guerra (na ilustração, notícia sobre o afundamento do navio cargueiro Buarque, em 15/02/1942, ocorrido na costa leste dos Estados Unidos).
Fonte: CPDOC – Fundação Getúlio Vargas