ESTRELAS CADENTES (01)

O antigo medo de o céu cair nas nossas cabeças não é de todo descabido de razão. O espaço interplanetário está repleto de partículas de poeira e de pedras que irrompem na nossa atmosfera, ardem e na maior parte dos casos, vaporizam-se. Por vezes, alguns blocos maiores atravessam o invólucro gasoso do nosso planeta e chocam com a superfície: são os meteoritos, oriundos, na quase totalidade, do cinturão de asteróides, uma região de miríades de pequenos planetas com órbitas essencialmente compreendidas entre as de Marte e Júpiter. Também quando um cometa se desloca no espaço interplanetário, as suas partículas dispersam-se por todo o lado. Muitas intersectam a órbita da Terra e ao colidirem com a nossa atmosfera produzem longos rastos luminosos a que o povo se habituou a chamar de estrelas cadentes.

 

Meteoritos, ou aerólitos, são pedras pequenas e grandes que caem do espaço sobre a Terra, aquecidas e inflamadas pelo atrito provocado por sua passagem através de nossa atmosfera. Meteoros são os fenômenos atmosféricos que podemos observar, como os meteoros aéreos, que compreendem os ventos, ciclones e outros, onde o ar é o elemento predominante; os meteoros aquosos, que agrupam as chuvas, neve, granizo e nuvens, que têm na água o elemento principal; os meteoros ígneos, que incluem o raio e a faísca, cujo elemento básico é o fogo; ou os meteoros luminosos, como o arco-íris e aurora boreal, provocados pelos efeitos da luz. Entre eles também estão as estrelas cadentes, fenômenos luminosos surgidos no céu e provocados pelos meteoróides, corpos sólidos vindos do espaço e que se desintegram e vaporizam quando penetram na atmosfera terrestre a uma velocidade que pode alcançar os 250 mil quilômetros horários. Como as partículas microscópicas que formam o seu rastro são eletrificadas pela ionização  (decomposição de uma molécula neutra em partes eletrizadas), a luminosidade da estrela cadente pode se tornar ainda maior e mais visível.

 

Esses fragmentos de cometas ou asteróides têm tamanhos diferentes, variando de 0,5 milímetro, equivalente a um grão de areia e dificilmente percebido nas condições normais da atmosfera, até os de um centímetro, com massa suficiente para provocar um risco luminoso no céu. Caso sua dimensão seja maior, o fragmento poderá atravessar a camada gasosa que envolve a Terra e cair no mar ou em terreno firme, mas aí deverá ser classificado como meteorito. Desses, o maior já caído no Brasil, o Bedengó, foi encontrado no município de Monte Santo, interior da Bahia, em 1784, e a análise de uma amostra dos seus 5.300 quilos revelou a existência de 95% de ferro e 4% de níquel. Outras amostras foram enviadas a diversos museus da Europa, e a maior, pesando três quilos, está no Museu de Munique, Alemanha. Desde 1888 o Bedengó encontra-se exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

 

A observação de estrelas cadentes pode ser feita por qualquer pessoa a olho nu, em noites escuras e com o céu limpo de nuvens ou qualquer tipo de nebulosidade. Normalmente é possível acompanhar a rápida passagem de mais de dez estrelas cadentes por hora, algumas delas acompanhadas de explosões abafadas que fazem lembrar o estrondar de um trovão distante.

 

O Observatório Astronômico Frei Rosário, da Universidade Federal de Minas Gerais, instalado na Serra da Piedade, em Caeté, 48 km da capital mineira, publicou em seu site (www.observatório.ufmg.br), texto do professor Renato Las Casas (13/07/98), que transcrevemos abaixo, parcialmente:

 

"Por todo o espaço interplanetário vagam objetos rochosos e/ou metálicos com diâmetros que variam de alguns poucos metros até frações de milímetro. A esses objetos damos o nome de meteoróides. Eles consistem principalmente de fragmentos de asteróides ou restos de cometas e suas quantidades aumentam rapidamente à medida que seus tamanhos diminuem. À medida que a Terra se movimenta em sua órbita em torno do Sol ela vai capturando milhares e milhares de meteoróides. São estimadas que centenas de toneladas de meteoróides caem na Terra diariamente. Quando um desses objetos cai em nossa atmosfera, devido a sua alta velocidade, o atrito com o ar vai derretê-lo e, em alguns casos, quebrá-lo. Se a queda ocorre na parte noite da Terra, a incandescência decorrente da fusão desse meteoróide riscará o céu. A esse fenômeno damos o nome de meteoro ou popularmente de estrela cadente".

 

A grande maioria dos meteoros que vemos são devidos a meteoróides cujos tamanhos vão de meio milímetro a meio centímetro. Essas partículas são completamente destruídas ainda a grandes altitudes. Meteoróides cujos tamanhos vão do de um ovo de galinha ao de uma melancia, têm suas crostas fundidas durante a queda, podendo sua parte interna chegar intacta ao solo. As partes internas de meteoróides maiores que uma melancia normalmente chegam intactas ao solo. A parte do meteoróide que sobrevive à queda é denominada meteorito.

 

Em qualquer noite de céu aberto, se em condições apropriadas de observação, poderemos ver em média uma dezena de meteoros cruzar o céu, por hora. Ocorrem isoladamente em qualquer parte do céu e os riscos que fazem no céu têm orientação aleatória. Durante o ano entretanto, existem algumas noites em que o número de meteoros aumenta consideravelmente e os riscos que deixam no céu parecem divergir de um único ponto. A esse ponto do céu damos o nome de ponto de radiância e a esse fenômeno de chuva de meteoros. Durante uma chuva de meteoros se marcarmos em um mapa do céu os riscos observados, veremos que os prolongamentos de todos esses riscos se encontrarão em um único ponto, o ponto de radiância.

 

As chuvas de meteoros ocorrem quando a Terra cruza ou tangencia a órbita de algum cometa, mesmo o cometa não estando por perto. Ao longo de sua órbita um cometa está constantemente liberando grãos e fragmentos. A taxa de liberação desses grãos e fragmentos aumenta à medida que sua distância ao Sol diminui. Esses grãos e fragmentos irão descrever órbitas semelhantes à órbita do cometa e ocuparão um volume do espaço em torno dessa órbita. Uma chuva de meteoros acontece quando a Terra passa por essas regiões onde gravitam "restos" deixados por cometas. Os meteoros serão produzidos pela queda de parte desses grãos e fragmentos em nosso planeta.