TUDO NOS TRINQUES

Os dicionários ensinam que trinque é um brasileirismo com duplo significado: um deles relativo a andar no trinque, com o sentido de vestir-se muito bem, com elegância e bom gosto, e outro, a estar no trinque, expressão usada no Rio Grande do Sul para referir-se a alguém embriagado. Na opinião de lingüistas, a palavra seria oriunda da expressão francesa trinquer, que em português quer dizer brindar tocando os copos, beber à saúde ou em homenagem a alguém, uma espécie de saudação normalmente feita por pessoas de melhor categoria social.

 

Outra explicação é dada pelo professor José Augusto Carvalho, mestre em lingüística pela Unicamp e doutor em letras pela USP, em seu site “Coluna do Professor” (www.contraovento.com.br). Diz ele que “O substantivo feminino francês “tringle” significa “gancho, escápula de açougue, vara de cortinado”, entre outros significados, inclusive o de ‘cabide de alfaiate’, segundo ensina Orlando Neves no seu Dicionário das Origens das Fases Feitas. Os alfaiates antigos costumavam pendurar os ternos recém-feitos em escápulas a que chamavam “trinques.. Assim, somente roupas novas e boas se punham nos trinques. Daí a expressão ‘estar ou andar nos trinques’ para indicar que alguém está bem vestido”

 

Em quase todos os esclarecimentos sobre o uso dessa palavra são mostradas frases de autores diversos, confirmando as definições dadas acima. Em uma delas, do conto “Contrabandista”, publicado em “Contos Gauchescos e Lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto, lê-se que “Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaca de rabo”. Em outra, encontrada no livro “Direito por Linhas Tortas” de Joaquim José de França Júnior, a personagem Felisberta recebe a seguinte recomendação: “Hás de andar no trinque, metendo inveja a essas sirigaitas que não te chegam aos calcanhares”.

 

Com o passar do tempo a expressão popularizou-se, alargou seu aproveitamento, passando a transmitir a idéia de que algo é bom. Os exemplos são encontrados em mensagens publicitárias e divulgações de todo  tipo, como na matéria intitulada “Dicas – Nos trinques”, publicada em um grande jornal. O texto, entre outras recomendações, dizia que “Quem não abre mão de andar sempre com o carro limpo e em bom estado, o que pode valorizá-lo na hora de vender, deve prestar atenção a esses macetes. Alguns procedimentos simples podem evitar pequenos estragos e até gerar economia na manutenção do veículo. Por exemplo, quando cai coco de passarinho na lataria, é preciso limpar o mais rápido possível, já que esse material é rico em ácido úrico (que estraga a pintura). Quando a prefeitura está tapando os buracos do pavimento de uma rua, é comum se deparar com o asfalto fresco. Se o carro ficar sujo, o piche pode ser removido usando cera automotiva. Se não resolver, pode-se tentar ainda uma mistura com 95% de água e 5% de querosene”.

 

A Prefeitura de Recife também se valeu do mesmo recurso para divulgar nos órgãos de imprensa da cidade, seu programa de ajuda aos alunos da rede municipal de ensino. Com o título Aluno nos Trinques (na ilustração), dizia o texto que “Calça comprida, sapato, mochila, camisas, caderno, lápis, tesoura e borracha. É o kit ‘Aluno nos Trinques’, entregue todos os anos a todos os alunos matriculados na Rede Pública Municipal e de escolas e creches conveniadas com a Prefeitura do Recife. A iniciativa, que também beneficia os estudantes do programa de Educação de Jovens e Adultos, faz parte da política de inclusão social implementada pela Prefeitura do Recife a partir de 2001. Além de fardamento e material escolar, os estudantes também recebem uma agenda da Educação Municipal, que traz textos sob o tema do ano letivo e “brincadeiras” pedagógicas, com a finalidade de contribuir para a organização das atividades discente”.

 

A mesma coisa acontece no terreno da saúde humana. Em Pressão Arterial nos Trinques (www.saúdeesportiva.com.br), disponibiliza-se a informação de que “O excesso de peso é um fator de risco para a hipertensão. Estima-se que de 20 a 30% da prevalência da hipertensão arterial pode ser explicada por essa associação. Assim, todos os hipertensos com excesso de peso devem ser incluídos em programas de redução de peso. A meta é alcançar um índice de massa corporal (IMC) inferior a 25kg/m2, e circunferência de cintura inferior a 102cm, para homens, e 88cm para mulheres”. Para verificar qual é o seu IMC, divida seu peso (70kg, por exemplo) pelo dobro da altura (1,70 x 1,70).

 

A divulgação de peças teatrais também encontra espaço para a utilização dessa palavra. Como em Suassuna nos Trinques, comentário jornalístico feito em 2009 sobre a montagem carioca do musical Farsa da Boa Preguiça, cujo texto esclarece que “Encenada pela última vez em 1975, Farsa da Boa Preguiça transformou-se agora, sob a batuta de João das Neves, num musical repleto de boas surpresas. Os atores cantam, dançam, tocam instrumentos e manipulam mamulengos (fantoches típicos do Nordeste), tudo sem errar a mão”.

 

Como se observa, a cultura popular adaptou expressão “tudo nos trinques”, ou simplesmente “nos trinques”, à sua vontade, fazendo com que hoje ela possa ser usada como afirmativa de que tudo vai bem, de que tudo está certo, de que tudo está OK, dentro da lei, dos costumes e do desejo de quem assim se manifesta.