Viático é o sacramento da Eucaristia ministrado aos doentes em suas casas. Sobre esse procedimento católico, o folclorista e escritor Alexandre José de Melo Morais Filho, em seu livro Festas e Tradições Populares do Brasil, escreve que:
“Antigamente, quando à cabeceira do enfermo o padre devia substituir o médico, e o derradeiro suspiro daquele que ia entrar na paz dos céus parecia querer exalar-se, a família reunida decidia sobre as ministrações místicas, para o que rápido expediente e singelos aprestos tornavam-se de estilo. De antemão, a pessoa mais velha, ou a mais considerada, predispunha o doente para receber o sacramento; e palavras confusas rolavam no ambiente de um quarto que em breve se empalideceria aos reflexos lívidos de círios ardente. (...) Na casa onde esperavam o viático, uma calma aparente sucedia às lágrimas ardentes; a família, rodeando o enfermo, o confortava; as crias, entristecidas, encolhiam-se, circulando os umbrais das portas; as pretas idosas, magras de vigília e de pesadumes, deitavam flores na banqueta, serviam em salvas de prata copos d’água, amparavam com a mão trêmula o galhinho de arruda de detrás da orelha.(...) Então, o povo em tropa e a ranchada de moleques que fechavam o cortejo entoavam o Bendito e louvado seja O Santíssimo Sacramento da Eucaristia, cujos sons propagavam lúgubres os ecos da noite. A procissão, precedida do tocador de campainha, atravessava a cidade, majestosa e completa. (...). E Nosso-Pai, que vinha à distância, chegava-se mais perto, o badalar da campa era mais forte e as luminárias que se alongavam escondiam a cauda na treva, ao passo que se avivavam adiantando-se".
A “Conjuração de Nosso Pai”, também conhecida como “Revolta contra Mendonça Furtado”, acontecida em Pernambuco, no ano de 1666, foi um dos primeiros movimentos nativistas no Brasil colonial. Naquela época, quando os moradores de Recife e Olinda, as duas cidades mais importantes da região, esforçavam-se para recuperá-las dos estragos provocados pela guerra contra os invasores holandeses, a coroa portuguesa nomeou Jerônimo de Mendonça Furtado como governador da capitania, contrariando os interesses dos senhores de engenho radicados em Olinda, que desejavam um deles ocupando a função.
Extremamente inábil e prepotente no trato com os habitantes locais, Mendonça Furtado em pouco tempo se tornou uma pessoa antipatizada pelos pernambucanos, que logo passaram a tratá-lo pelo apelido de Xumberga, ou Xumbregas, uma alusão ao conde e general mestre de campo alemão Friedrich Von Schomberg, cujo bigode era semelhante ao do governador português. Esse mercenário germânico serviu a Portugal na guerra luso-espanhola iniciada em 1640, quando da restauração da independência portuguesa, oportunidade em que graças ao seu espírito belicoso e arrogante ganhou a incompatibilidade e malquerença dos oficiais graduados ao lado dos quais lutava.
A tirania do governador português estimulou o sentimento nativista entre os locais, e os mais decididos passaram a se reunir às escondidas para tramar contra o administrador que não suportavam. Um desses encontros ocorreu na casa do senhor de engenho João de Novalhaes y Urréa, e contou com a presença do juiz de Olinda, André de Barros Rego, dos vereadores Lourenço Cavalcanti e João Ribeiro, e outros. Nesse dia, os participantes do conchavo decidiram que para se livrarem mais facilmente do governador detestado, eles organizariam uma falsa procissão de Nosso Pai, destinada à extrema-unção dos moribundos, à qual se integravam costumeiramente as pessoas importantes da cidade, entre elas o próprio Mendonça Furtado.
E foi o que aconteceu: ao passar a procissão pelo palácio, a ela se juntou o governador. O chefe da revolta, André de Barros Rego, deu voz de prisão a Mendonça, enquanto a escolta deste era dominada. Na ocasião, encontrava-se aportada em Recife uma esquadra francesa que seguia rumo a Madagascar, e como o governador estava sendo acusado de pretender entregar Pernambuco aos franceses, o povo atacou os marujos europeus que haviam vindo à terra, assim como o convento dos capuchinhos, onde eles se refugiaram. Foi difícil a Barros Rego conter a fúria popular, e depois de o ter conseguido, foi apresentar desculpas ao comandante francês.
Remetido para Lisboa, Jerônimo de Mendonça Falcão acabou sendo condenado à prisão perpétua numa fortaleza da Índia, tendo concorrido para isso o procedimento de seu irmão, Francisco de Mendonça Furtado, que se bandeara para os espanhóis e de quem Jerônimo fora considerado co-réu.
Para evitar um confronto maior com os conspiradores a coroa portuguesa nomeou André Vidal de Negreiros para substituir o Xumbrega, pois como ele mantinha fortes ligações com a colônia e já havia exercido o cargo anteriormente, isso certamente apaziguaria os ânimos populares com facilidade. Entretanto,a gestão de Negreiros durou pouco tempo, pois alguns meses depois um novo governador foi nomeado e empossado. A conjuração de Nosso Pai não obteve repercussões maiores, mas ficou inscrita na história como um dos primeiros movimentos pernambucanos onde o sentimento de brasilidade, ou nativismo, surgiu com toda a sua pujança.
Vale registrar que durante a Guerra dos Mascates, ocorrida anos mais tarde, em 1710, era comum o povo cantar alguns versos que faziam referência ao Mendonça Furtado de que os pernambucanos haviam se livrado:
O Mendonça era Furtado, / Pois dos paços o furtaram; / Governador governado, / Para o reino o despacharam.
A peste já se acabou: / Alvíssaras, ó gente boa! / O Xumbregas embarcou, / Ei-lo vai para Lisboa.