Em 1650 a indústria açucareira do Maranhão não conseguia custear as despesas com a importação de escravos africanos, e por isso os senhores de engenho locais procuraram resolver seus problemas de mão-de-obra capturando índios evangelizados nos aldeamentos jesuítas, onde eles eram aproveitados pelos religiosos nas pequenas lavouras e na coleta das chamadas “drogas do sertão”, que consistiam em raízes, folhas e cascas que serviam de base para a fabricação de produtos farmacêuticos europeus, além de especiarias como a canela, pimenta, castanha, cravo, baunilha, urucum, salsaparrilha, cascas, folhas e raízes aromáticas que ajudavam a conservar ou temperar alimentos, e sobretudo aves exóticas de plumagens belas e coloridas, vendidas na Europa por preços elevados. Diante dessas incursões a Companhia de Jesus recorreu à Coroa portuguesa, que interveio e proibiu a escravização do índio, provavelmente porque ela não trazia lucro para a metrópole, além de conceder aos religiosos a jurisdição espiritual e temporal sobre os nativos, o que forçava os colonos a adquirir escravos negros.
Para resolver o problema que a carência de escravos causava aos proprietários rurais maranhenses, os portugueses criaram em 1682 a Companhia Geral de Comércio do Estado do Maranhão, empresa que além de se encarregar obrigatoriamente de todas as exportações para Lisboa, e de monopolizar o comércio dos gêneros alimentícios na cidade, também deveria trazer anualmente, durante vinte anos, cerca de quinhentos negros africanos, e vendê-los por cem mil réis, cada um. Sem conseguir cumprir o prometido, e ainda por cima pagando preço baixo pelos produtos maranhenses, enquanto oferecia mercadorias de má qualidade, a preços elevados, a empresa agravou a crise econômica e fez crescer o descontentamento na região. Essa situação, aliada à insatisfação do povo em relação ao governo e à atuação dos jesuítas na região, foi o estopim da revolta que teve Manuel Beckman como líder. Nascido em Portugal (1630), filho de portuguesa com um alemão, e chamado por todos de “Bequimão”, ele era homem com idéias adiantadas para a época. Inteligente e bom orador, foi vereador (1668) em São Luís, mas indispôs-se com o governador e por isso acabou sendo deportado durante dois anos.
Iniciado o movimento rebelde, primeira insurreição da colônia contra Portugal, os revoltosos prenderam o comandante da guarnição portuguesa, depuseram o governador Francisco de Sá e Menezes, que apesar de se achar em Belém, mandou oferecer dinheiro e honrarias a Beckman, caso ele acabasse com a revolta, mas sua proposta não foi aceita. Logo em seguida foi nomeada uma junta governativa que tomou de imediato algumas medidas de ordem administrativa, entre elas a substituição de funcionários suspeitos, a depuração da infantaria da praça, a organização de uma guarda cívica e criação de postos de guarda em diversos locais. Quanto aos padres, foram embarcados para a Europa em dois navios de carreira.
Nesse meio tempo, o tenente-coronel Gomes Freire de Andrade, nomeado governador do Grão-Pará e Maranhão, saiu de Portugal com 150 homens, trazendo consigo a incumbência de restaurar a ordem em São Luis e julgar os rebeldes. E foi o que ele fez tão logo chegou à cidade: mandou prender os líderes do movimento. Todos eles fugiram, com exceção de Beckman, que atraiçoado por Lázaro de Melo, seu afilhado, acabou sendo preso no engenho de Mearim, onde se escondia. Julgado sumariamente e condenado à morte, ele exclamou, no momento da execução (02.11.1685), que morria contente pelo povo do Maranhão. Cheio de remorsos, Lázaro Melo, o traidor, suicidou-se logo após o enforcamento de seu padrinho. No lugar onde Beckman foi enforcado, há atualmente um obelisco, monumento quadrangular, alongado, de pedra, sobre um pedestal.
Embora português de nascimento, Manuel Beckman está colocado, na história do Brasil, ao lado dos grandes patriotas que deram sua vida em holocausto às idéias de independência do país. E para manter viva a sua memória histórica, o governo maranhense publicou o livro “O Bequimão - Esquisso de um romance”, de Clodoaldo Fretas, Coleção Maranhão Sempre, que “Ao tomar como objeto um dos mais legítimos e controvertidos episódios da riquíssima história colonial do Maranhão dos idos do século XVII - a tão conhecida revolta de Beckman -, recupera camadas densas e superpostas da história e da memória, cujo olvido é ameaça permanente do tempo”.