1708 - GUERRA DOS EMBOABAS

Sem contar com riquezas, São Paulo permaneceu relativamente isolado do resto do Brasil durante os primeiros séculos de colonização, e com isso, os paulistas desenvolveram um governo próprio e foram se tornando cada vez mais ciosos da autonomia que haviam obtido. Até meados do século 17 eles se mantiveram a salvo da interferência da Coroa, mas quando Fernão Dias, em 1685, foi instado por ela a tentar descobrir ouro no sertão, a independência bandeirante começou a ser quebrada. Com a decadência do açúcar nordestino a Coroa buscava novas fontes de renda, o que também era interesse dos paulistas, mas com a descoberta do ouro era inevitável que a administração portuguesa viesse a se instalar na região. E a Guerra dos Emboabas (1708/1711) marca a perda do domínio que os paulistas exerciam sobre os sertões que haviam desbravado.

 

No início da exploração aurífera o governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes, pretendendo evitar atritos com os paulistas, anistiou Borba Gato (que assassinara um emissário do rei), e o nomeou tenente-general e governador do distrito aurífero do rio das Velhas. Em seguida, diante do protesto dos bandeirantes quanto à afluência de forasteiros à região do ouro, deu parecer de que as terras pertenciam efetivamente aos paulistas, proibindo, também, o comércio (exceto o do gado) entre Minas Gerais e Bahia, que estava ocasionando o contrabando de ouro rumo ao norte do país. Paralelamente, tomou providências para que o bandeirante Garcia Rodrigues Pais construísse uma estrada ligando o rio das Velhas ao Rio de Janeiro, visando facilitar o escoamento de ouro. Mas ele não possuía meios para tornar efetiva a proibição do comércio com a Bahia, nem tampouco impedir que “estrangeiros” continuassem a afluir à área de mineração.

 

Na região das minas, os forasteiros - denominados genericamente de emboabas (do tupi, galinhas calçudas, referência pejorativa ao hábito dos portugueses usarem calças e botas) - iam dominando o comércio e enriquecendo com o contrabando, o que constituía a principal fonte de atrito entre paulistas e emboabas. Um destes, frei Francisco Menezes, que chegara a Sabará em 1707 e monopolizara o comércio de gado, fumo e aguardente, cobrando preços astronômicos, fez com que Borba Gato, em conformidade com Fernando de Alencastre, novo governador do Rio de Janeiro, fixasse preços-teto para os produtos, procurando impedir a exploração desenfreada. Obrigado a acatar a ordem, Francisco Menezes começou a conspirar contra o governo procurando ajuda junto ao emboaba, Manuel Nunes Viana, o maior contrabandista da região, que apoiado pelo frei se tornou líder dos emboabas, já então muito mais numerosos que os paulistas.

 

Eles não precisaram esperar muito pela chegada da ocasião propícia para agir. Quando em outubro de 1708 o bandeirante Jerônimo Pedroso de Barros acusou um português do roubo de uma arma de fogo, Nunes Viana colocou o suspeito sob sua proteção e desafiou o paulista para um duelo. Chamado a intervir, Borba Gato determinou a expulsão do emboaba do distrito aurífero, mas este se recusou a obedecer. Diante disso, Borba Gato se retirou para sua fazenda, mas logo depois dele ter ido embora um português foi assassinado numa rixa comum, e por isso os emboabas, em represália, lincharam José Pardo, pai do criminoso. Foi então que começaram as lutas.

 

Inferiorizados em homens e armas os paulistas iniciaram uma retirada. Saindo de Caeté chegaram Sabará, onde tentaram organizar uma linha de defesa, mas diante da superioridade inimiga preferiram continuar se afastando rumo a Parati e São Paulo. Durante essa fase o conflito se resumiu a choques esporádicos entre as duas facções, até que em 15 de fevereiro de 1709 uma coluna de emboabas cercou um grupo de paulistas que pretendia atravessar o rio das Mortes. Negociando sua rendição com Bento do Amaral Coutinho, líder dos sitiantes, os sitiados receberam garantia de vida e por isso depuseram as armas, mas tão logo as deixaram foram massacrados pelos adversários (razão pela qual o lugar ganhou o nome de Capão da Traição). Enquanto a luta prosseguia, Borba Gato escreveu a Fernando de Alencastro pedindo providências, e este encaminhou ao rei um relatório em que dizia: “Meu propósito é conservar os paulistas nas minas, por serem estes os seus descobridores, e só eles são capazes de prosseguirem e aumentarem, pois nos forasteiros se não acha o préstimo de talharem o sertão para novos descobrimentos”. Depois, o governador resolveu visitar as minas (março de 1709), mas não conseguiu fazê-lo porque os emboabas o impediram com tropas superiores, obrigando-o a retornar ao Rio de Janeiro.

 

Em 11 de junho de 1709, quando o novo governador assumiu o posto no Rio de Janeiro (Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho), uma de suas primeiras providências foi seguir sem escolta militar para o distrito aurífero, levando consigo a proposta de uma nova política: que ao invés da supremacia paulista, houvesse equilíbrio entre as partes litigantes. E mais: sabedor de que a presença de Nunes Viana e Amaral Coutinho impediria a pacificação, conseguiu convencer o primeiro retornar à sua fazenda no São Francisco, e encaminhou o outro para o Rio de Janeiro. A sugestão agradou aos emboabas, cujos negócios estavam sendo prejudicados pela interrupção da atividade nas minas, e isso fez com que eles entregassem as armas e começassem a se dispersar. Mas os paulistas não se dispunham a proceder da mesma maneira. Ao procurá-los, o governador encontrou cerca de 13.000 deles reunidos em Guaratinguetá, prontos para marchar sobre as minas. Como a proposta de paz não sensibilizou seu comandante, Amador Bueno da Veiga, o governador Albuquerque Coelho enviou mensagem aos emboabas dando-lhes conhecimento do que ocorria, e sugerindo-lhes que se preparassem para a luta. Foi o que aconteceu. Os dois exércitos se encontraram no arraial da Ponta do Morro (hoje cidade de Tiradentes), onde Amador Bueno conseguiu sangrenta e difícil vitória após vários dias de combate.

 

Finda a batalha, com os dois lados enfraquecidos pelas perdas tanto materiais como humanas, o governador se dispôs a intervir novamente, conseguindo não só que eles guardassem as armas, mas, também, que o rei João V, em novembro de 1709, declarasse São Paulo e Minas capitanias da Coroa, passando a nomear diretamente o governador. Como São Paulo era uma capitania hereditária, seu donatário, o marquês de Cascais, foi devidamente indenizado pelo rei. Ao mesmo tempo, Albuquerque Coelho, primeiro governador paulista nomeado, acalmou a população local argumentando que daquela data em diante ela não mais dependeria da administração do Rio de Janeiro, e que pelo novo estatuto, a vila deveria ser elevada à categoria de cidade, o que de fato aconteceu em 1711.

 

Em 1720, um edito real criou a capitania de Minas Gerais, separada de São Paulo, eliminando, assim, a influência paulista sobre a zona de mineração.

 

Fonte: Encicloplédia Abril