O Tratado de Madri foi uma convenção assinada entre Portugal e Espanha, em 13 de janeiro de 1750, para assentar as fronteiras das possessões daqueles países na América do Sul. Verificada a impossibilidade de ser mantida a linha estabelecida no Pacto de Tordesilhas, assinado em 1494, foram revogados todos os atos ali especificados.
No novo tratado uma cláusula determinava que a Espanha cedia a Portugal suas Sete Missões, no Uruguai, em troca da Colônia do Santíssimo Sacramento, mas as dificuldades na execução de tal medida, que acarretara despesas tremendas com a guerra das Missões, levaram à sua anulação e substituição pelo Tratado de El Pardo, em 1761. Porém, este compromisso foi abandonado logo depois para dar lugar primeiramente ao Tratado de Paris (1763), em seguida ao de Santo Ildefonso (1777), e finalmente ao Tratado de Badajoz (1801), que acordou a paz entre Portugal e Espanha, na Europa, mas não ratificou a convenção anterior (Na ilustração, mapa do Brasil com as terras da Coroa da Espanha na América Meridional, em 1749, utilizado pa delimitar os domínios dos reinos de Portugal e Espanha na América do Sul, fixados pelo Tratado de Madri).
A Colônia do Santíssimo Sacramento, construída na margem esquerda do rio da Prata, defronte à cidade de Buenos Aires, Argentina, teve desde sua criação, em 1680, até 27 de agosto de 1828, data em que o Brasil reconheceu a independência da República Oriental do Uruguai, sua vida conturbada por seguidas ocupações e desocupações praticadas por portugueses e espanhóis, num autêntico “toma-lá-dá-cá” cujo início é descrito pelo intelectual e historiador brasileiro, Pedro Taques (1714-1777), em “Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica”, em três volumes, obra da qual consta a informação de que tendo recebido carta datada de 12 de novembro de 1678, com ordem para fundar uma nova colônia na ilha de São Gabriel, no estuário do rio da Prata, D. Manoel Lobo saiu de Lisboa com patente de governador e capitão general do Rio de Janeiro, instruído de que tão logo fosse empossado no cargo deveria rumar para o referido rio a fim de cumprir sua missão. Foi o que ele fez, chegando ao destino com o corpo militar de infantaria do presídio do Rio de Janeiro e do que veio da Bahia, equipados com todos os apetrechos de guerra, além de artilharia grossa destinada à nova fortaleza a ser construída.
Mas os portugueses nem bem haviam terminado os trabalhos de construção da fortificação e da nova cidade, quando o governador e capitão general da província de Buenos Aires, dom José de Garro, sabedor do que ocorria do outro lado do rio, solicitou e conseguiu o apoio dos governadores da província do Paraguai, das cidades de Córdoba e Tucuman, do vice-rei do Peru, e também do superior dos jesuítas das missões dos índios, o padre Christovam Altamirano, que liberou, somente da redução de Yapejú, distante vinte léguas de Buenos Aires, rio acima, “3.300 índios de armas, 2.000 cavalos em pêlo, 500 mulas de carga e 200 bois de carretas”. Formado, assim, o seu exército, Garro enviou mensagens a Lobo, exigindo-lhe que desocupasse a área aonde se instalara porque ela pertencia ao rei de Castela, mas como não foi atendido, partiu para o confronto armado.
No dia 6 de agosto de 1680, o exército inimigo iniciou seu avanço organizado da seguinte forma: quatro mil cavalos em pêlo e sem cavaleiros, vinham à frente de três mil guerreiros divididos em três batalhões comandados pelos também índios João de Aguilera, João de Frutos e Alexandre de Aguirre, secundados pelos soldados espanhóis que tinham como comandante dom Francisco de Gusmão e Tajeda, da cidade de Córdoba. Porém, a meio caminho os índios começaram a murmurar que se os cavalos ficassem assustados com o som da artilharia e disparassem em direção contrária, eles, que vinham logo atrás, seriam atropelados e pisoteados pelos animais, com o que concordou o mestre de campo dom Antônio de Vera Moxica, mandando, então, afastar os eqüinos e reiniciando a ofensiva que Pedro Taques descreveu assim:
“Travou-se entre portugueses e inimigos uma vigorosa disputa de armas assim de fogo como de balas em funda, maças e outros instrumentos de guerra de que vinham apetrechados os índios. Neste dia estava enfermo, de cama e purgado, o governador dom Manoel Lobo, porém as forças do corpo lhe não diminuíram o valor do ânimo. Em viva peleja sustentamos três horas largas este assalto, com valor e obstinação portuguesa. Entre muitos se fez bem distinto Manoel Galvão, capitão da infantaria da praçado Rio de Janeiro, que montado a cavalo, com a espada na mão, feria e matava animando a todos e reforçando por muitas partes os batalhões, até perder a vida. Imitou a seus altos espíritos sua mulher, que ao lado do marido movia a espada tão ligeira que parecia um raio, e continuou assim ainda depois de o ver morto, até que teve a mesma sorte que a de seu esposo. Perdemos a batalha e a praça, ficando muitos prisioneiros (...) entre eles o governador Lobo e o tenente-general Jorge Soares de Macedo, mandados para Córdoba onde ficaram até 9 de novembro de 1681, quando foram soltos para assistirem a entrega e restituição da Nova Colônia”.
Nessa primeira devolução, ajustada pelo Tratado Provisional de Lisboa (7 de maio de 1681), Portugal se comprometia a efetuar somente pequenos reparos nas fortificações danificadas, ficando impedido de construir novas fortalezas ou edifícios de pedra ou taipa que caracterizariam uma ocupação permanente. Mas em 1705 a Espanha voltou a retomar a área, nela permanecendo até 1715, quando o Tratado de Utrecht (de 6 de fevereiro de 1715) a devolveu aos portugueses. Vinte anos se passaram, até que em 1735, aproveitando um incidente diplomático, os espanhóis sitiaram a cidade e seu cinturão de defesa durante dois anos (de 3 de outubro de 1735 a 2 de setembro de 1737), quando foi assinado o armistício. Mais à frente, em 13 de janeiro de 1750, foi firmado o Tratado de Madri, e depois dele, os já mencionados acima.
Em 1821 a Colônia de Sacramento voltou a mudar de dono quando o território uruguaio foi anexado pelo Brasil em 9 de maio daquele ano, recebendo o nome de Província Cisplatina. Mas com a proclamação da independência do Uruguai, em 25 de agosto de 1825, e o reconhecimento brasileiro dado em 27 de agosto de 1828, através do Tratado do Rio de Janeiro, os habitantes da Colônia do Santíssimo Sacramento, hoje simplesmente Colônia, finalmente passaram a respirar em paz.