A Inconfidência Mineira constituiu o mais importante de uma série de movimentos nativistas que tiveram lugar no Brasil durante o período colonial. O grande desenvolvimento da mineração na capitania de Minas Gerais provocou ali o surgimento de centros florescentes, mas com o incremento da economia tornavam-se cada vez mais obsoletas as normas rígidas de controle que a metrópole exercia sobre as mais diversas formas da vida colonial.
O descontentamento crescia com a adoção de certas medidas consideradas injustas, como a determinada pelo alvará de 5 de janeiro de 1785, por exemplo, que proibia a existência, na colônia, de qualquer manufatura de tecidos, exceção feita à de fazendas grossas de algodão, que serviam para roupas de escravos ou para empacotar fardos.
Por outro lado, o desenvolvimento da vida intelectual que acompanhara o florescimento da economia, provocara na colônia a expansão dos ideais do Iluminismo, sistema de opiniões que se caracterizava sobretudo pela confiança no poder da razão e na possibilidade de se reorganizar radicalmente a sociedade a partir de princípios racionais. Além disso, o exemplo da luta pela independência das antigas colônias da América do Norte constituía outro estímulo para a conspiração. Chegou mesmo a haver contato entre patriotas brasileiros e norte-americanos, conforme o relato de Thomaz Jefferson sobre o encontro que teve, em Paris, com José Joaquim da Maia.
Em 1788, ao assumir o governo de Minas, Luís Antônio Furtado de Mendonça, visconde de Barbacena, resolveu arrecadar o imposto atrasado de um quinto sobre o ouro retirado das minas, o que provocou descontentamento geral. Alguns intelectuais consideraram que aquele era o momento azado para dar início a um movimento libertador, deles fazendo parte os padres Carlos Correia de Toledo, José da Silva de Oliveira Rolim e Manuel Rodrigues da Costa ; o tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, capitão José de Resende Costa; o cônego Luís Vieira da Silva; os poetas Cláudio Manuel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga; o alferes José Joaquim da Silva Xavier, alcunhado o Tiradentes; o médico José Álvares Maciel, que regressara da Europa entusiasmado com as idéias revolucionárias, e outros.
Após algumas reuniões acertaram os conspiradores que o levante se iniciaria em Minas Gerais, no dia marcado para a derrama, estendendo-se depois ao Rio de Janeiro. Além disso, combinaram eles que uma vez efetivada a independência do Brasil, o país seria regido pelo sistema republicano, tendo como símbolo da república a figura de um gênio quebrando cadeias. A bandeira deveria ser branca e nela se inscreveria o lema: Libertas quase será tamem (Liberdade ainda que tarde); a capital seria instalada em São João del Rei, e em Vila Rica criar-se-ia uma universidade.
A saída dos valores depositados no tesouro não seria permitida, declarando-se extintas as dívidas dos contribuintes em atraso. Declarar-se-ia livre a entrada nos distritos diamantinos, e isentos de direitos todos os produtos das lavras. Seriam fundadas fábricas de todos os artigos que vinham sendo importados de Portugal, ao mesmo tempo em que se criariam escolas para a instrução do povo. A escravidão seria abolida dentro de certos limites.
Todavia, em 15 de março de 1789, o coronel português Joaquim Silvério dos Reis, um dos conspiradores, denunciou o plano ao visconde de Barbacena. Foi feita então uma devassa, sendo presos na oportunidade os principais líderes do movimento, sendo Tiradentes detido no Rio de Janeiro. Na seqüência dos acontecimentos os juízes nomeados pela rainha D. Maria I chegaram ao Brasil em 1790. e no decorrer do processo instaurado Tiradentes portou-se com extraordinário heroísmo, assumindo sozinho toda a culpa da conjura, enquanto diversos dos demais inconfidentes deram prova de fraqueza moral. A sentença foi lavrada somente em 1792: dez acusados foram condenados à morte (Cláudio Manuel da Costa suicidara-se na prisão), sendo a pena comutada por nova sentença, em 20 de abril de 1792, substituindo-se a pena de morte pelo degredo, exceto para Tiradentes, cuja sentença foi lida a 18 de abril e a execução feita no dia 21, no campo da Lampadosa, Rio de Janeiro (O Largo do Rossio Grande, depois Campo dos Ciganos, em 1747 passou a ser o Campo da Lampadosa; em 1808 passou para Campo do Polé, depois de 1822 foi a Praça da Constituição, e finalmente Praça Tiradentes em 1890).
A sua memória foi declarada infame, bem como a de todos os seus descendentes, enquanto sua casa em Vila Rica foi arrasada e o terreno salgado, a fim de que não crescendo ali nenhuma erva, ficasse perpetuada dessa forma a lembrança do crime. Após o enforcamento, o seu corpo foi esquartejado e os despojos repartidos para exposição nas praças públicas de diferentes cidades da capitania de Minas Gerais. Todavia, em vez de quebrantar os ânimos, a lembrança do suplício de Tiradentes contribuiu apenas para manter mais vivo o sentimento nativista e o anseio por uma pátria independente.