No período das guerras napoleônicas, Portugal sofreu as conseqüências de sua condição de aliado tradicional da Inglaterra. Em 1807, tropas francesas e espanholas, que eram aliadas, ocuparam o país, obrigando a família real a fugir às pressas para o Brasil. Porém, pouco depois o povo português deflagrou uma rebelião que terminou expulsando as tropas francesas da península ibérica, o que contribuiu para o apressamento da queda de Napoleão. Uma dessas manifestações revoltosas aconteceu na vila de Olhão, ou Olhão da Restauração, cujos moradores prepararam uma emboscada às forças francesas que ocupavam o povoado. Isso aconteceu no dia 16 de junho de 1808, data de celebração do Corpo de Deus, e serviu como ponto de partida para a restauração da soberania portuguesa.
No mês seguinte um pequeno caíque de pesca partiu daquela pequena vila pesqueira na região do Algarve, sul de Portugal, com destino à cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, numa viagem repleta de riscos porque a rota da embarcação era orientada apenas pelas estrelas, pelas correntes marítimas e por um mapa rudimentar que os tripulantes possuíam, com a missão de levar a D. João VI a notícia auspiciosa de que a sublevação dos algárvios havia provocado a expulsão dos franceses. O caíque, uma embarcação de vela muito utilizada em Portugal, especialmente na região onde moravam os pescadores, possuía dois mastros, e era empregado na pesca longínqua. Mas embora fosse capaz de realizar grandes viagens levando os pescadores a águas mais ricas em peixes, não era, propriamente, um barco adaptado às travessias oceânicas.
Por isso mesmo, quando ele aportou no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1808, depois de ter perdido o rumo e ido parar primeiramente em Caiena, na Guiana Francesa, e depois em Pernambuco, causou espanto a quantos ficaram sabendo do feito heróico que seus tripulantes haviam realizado. Todos os que viram a embarcação ficaram admirados com as pequenas dimensões daquele barco que fizera tão longa e arriscada viagem, e essa admiração chegou a tal nível que em 1841, trinta e poucos anos após a travessia realizada, o caíque Bom Sucesso ainda era visitado por muitas pessoas no cais em que permanecia atracado, na ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.
Reconhecido pela iniciativa da sublevação e pelo heroísmo da viagem marítima realizada por seus súditos, o rei, no mesmo ano, elevou à categoria de vila o pequeno e desconhecido lugarejo de Olhão, dando-lhe a denominação de Vila da Restauração. Alguns anos depois, com a morte de D. João VI, o seu herdeiro legítimo, D. Pedro I, então imperador no Brasil, considerando ser impraticável a união das duas coroas, abdicou em favor de sua filha Maria da Glória, com sete anos de idade, negociando o casamento dela com seu irmão D. Miguel, a quem deu poderes para representá-lo em Lisboa.
Mas este, aproveitando que a esposa havia viajado para Viena, tomou posse do trono e proclamou-se rei de Portugal, dando início a um confronto que se prolongou até 1832, quando D. Pedro, que havia abdicado do trono brasileiro em 1831, retornado à Europa, tomado o título de duque de Bragança e assumido a regência do Reino de Portugal, cercou a cidade do Porto com suas tropas, derrotou as forças absolutistas e despachou D. Miguel para o exílio. Durante esse período de agitação política e lutas internas, os portugueses de Olhão transformaram sua vila num dos mais fortes baluartes do liberalismo no sul do país, resistindo bravamente aos cercos e ataques feitos pelos miguelistas.
No site da Câmara Municipal de Olhão encontra-se o seguinte registro:
“A embarcação Caíque Bom Sucesso é propriedade da Câmara Municipal de Olhão, como espólio museológico integrado no Museu da Cidade – Edifício do Compromisso Marítimo, e constitui uma réplica de um tipo de embarcação, hoje desaparecida, muito utilizada pelos pescadores olhanenses na pesca costeira e do alto, tendo servido igualmente para o transporte de mercadorias. Para além desta embarcação em muito ter contribuído para o desenvolvimento da actividade marítima, o Caíque faz parte de um passado glorioso que muito honra Olhão. Foi numa embarcação deste tipo que dezassete tripulantes, entre eles o Mestre Manuel Martins Garrocho e o piloto Manuel Oliveira Nobre, partiram de Olhão em 6 de Julho de 1808 para ir ao Brasil levar a D. João VI a notícia da expulsão das tropas napoleónicas do reino. A réplica do Caíque Bom Sucesso, construída em madeira, tem as seguintes características: comprimento 18,00m, boca 5,55m, pontal 1,90m, tonelagem 26,00 T e como meio de propulsão apresenta duas velas latinas com 150 m2 de área vélica, dispondo ainda de um motor auxiliar de 160 H.P. A reconstrução e a regular conservação desta embarcação, registrada na Capitania do Porto de Olhão como embarcação de recreio, assim como a sua navegação e tipo de utilização, incluindo a lotação, são submetidas às normas e legislação em vigor. Tais normas incluem o equipamento com meios específicos auxiliares de navegação e de salvamento”.