As famílias de negros e mestiços que viviam em barracos miseráveis erguidos às margens dos rios e riachos da cidade de Belém do Pará, eram conhecidas pelo nome de cabanos. Em 1822, época da independência, eles apoiaram os paraenses Felix Antônio Clemente Malcher e Batista Campos, que lhes prometiam reformas sociais para eliminar a miséria reinante.
Mas elas não vieram, apesar dos dois líderes integrarem o governo provisório da província, e por isso manifestações de revolta começaram a eclodir na cidade, culminando com o atentado contra John Pascoe Greenfell, capitão inglês cujas tropas tinham a missão de controlar a colônia portuguesa de Belém e garantir a independência. Atribuindo aos cabanos a autoria do ataque, Greenfell reagiu violentamente: mandou prender Batista Campos, fuzilou alguns negros, e fez atirar um carregamento de cal sobre trezentos homens detidos no porão de um navio, exibindo depois à população os cadáveres queimados.
Essa demonstração de força e crueldade desmedida serviu como estopim para guerra civil que começou em 7 de janeiro de 1835. Com o assassinato de Bernardo Lobo de Souza, presidente da província, e do coronel Silva Santiago, comandante das armas, Felix Antônio Clemente Malcher assumiu o governo como o primeiro presidente cabano, porém acabou sendo morto logo depois, após um desentendimento com Francisco Pedro Vinagre, outro chefe da mesma facção, passando o seu antagonista a ser o segundo presidente cabano. Para reprimir a revolta foi enviado o marechal-de-campo Manuel Jorge Rodrigues, depois barão de Taquari, auxiliado pelas forças navais do comandante José Taylor, que conseguiu tomar posse do governo em 26 de janeiro de 1835.
Mas ele foi obrigado a retirar-se em agosto daquele ano, deixando Belém nas mãos dos rebeldes chefiados por Eduardo Francisco Nogueira Angelim e Antônio Vinagre, e estes então iniciaram um verdadeiro “ajuste de contas” com os inimigos, fazendo com que os proprietários fugissem de Belém; que no interior da província os cabanos e lavradores ocupassem as fazendas e massacrassem os patrões que não conseguiam fugir; enquanto tropas imperiais enviadas de Pernambuco eram detidas e rechaçadas. Em maio de 1836 o marechal Francisco José de Souza Soares de Andréia, depois barão de Caçapava, e a esquadrilha naval do comandante Frederico Mariath, bloquearam a cidade, forçando Angelim à rendição.
O nome da guerra civil irrompida em Belém, capital da província do Pará, tem ligação com as rebeliões conhecidas como Cabanada, ocorrida em 1832, em Alagoas, e Abrilada, ou Guerra dos Cabanos de Pernambuco, em abril de 1832, cujos revoltosos também eram chamados de cabanos porque viviam em cabanas, ou choupanas. Sobre este episódio da história brasileira, cujos detalhes são praticamente desconhecidos pela população de agora, assim se manifestou o escritor e historiador Pasquale Di Paolo, em “Cabanagem, a Revolução Popular da Amazônia”, 1990:
"Os martírios aplicados aos cabanos chegaram a chocar o frio bacharel Souza Franco e o prevenido historiógrafo Raiol: “Ninguém imagina os martírios de que foram vítimas os infelizes que caíram em poder das chamadas expedições! Falam somente da selvageria dos cabanos, e esquecem a brutalidade dos apregoados legais! Destes referem atos cruéis que não depõem menos contra a natureza humana!”.
"O quadro de torturas que se instalou na Amazônia foi sem precedentes pela ferocidade e pela extensão: “Os rebeldes, verdadeiros ou supostos, eram procurados por toda parte e perseguidos como animais ferozes! Metidos em troncos e amarrados, sofriam suplícios bárbaros que muitas vezes lhes ocasionavam a morte! Houve até quem considerasse como padrão de glória trazer rosários de orelhas secas de cabanos! Conhecemos um célebre comandante dessas expedições, que desvanecia-se em descrever com ostentação os seus feitos de atrocidade e equiparando os rebeldes a cobras venenosas, dizia que não deviam em caso algum ser perdoados! Muitos dos entroncados nas viagens por canoas lançou ele nos rios, e outros muitos mandou espingardear nos calabouços a pretexto de quererem arrombar as prisões! Nos dias de pior humor fazia dependurar, em cordas presas ao teto da casa de sua moradia, os que lhe inspirava maior antipatia, e comprazia-se em arremessá-los com violência de encontro às paredes, de mãos e pés atados, sem nenhum meio de poderem eles evitar os terríveis choques que lhes fraturavam os ossos!”.
(...) "O número de mortos nos martírios e torturas tornou-se incalculável: “Consta aproximadamente a mortandade dos rebeldes que pereceram nos navios de guerra, nas prisões, nos hospitais e nos conflitos; mas é inteiramente desconhecida a que teve lugar em maior escala pelo centro da província, nas correrias das expedições e longe das vistas do governo”.