1844 - REVOLTA DOS LISOS (Alagoas)

A história de Alagoas acha-se ligada à de Pernambuco. Até a época da expulsão dos holandeses, sua colonização se limitava a uma estreita faixa litorânea, à exceção do Quilombo dos Palmares, na serra da Barriga. Em 1711 o território foi elevado a comarca, embora ainda pertencendo a Pernambuco, do qual se separou em 1817, formando a província de Alagoas, transformada em estado autônomo em 1899, quando da proclamação da República. Em 1611, nasceu e cresceu em suas terras um povoado com o nome de Vila Madalena de Sumaúma, depois município de Santa Maria Madalena da Alagoas do Sul (1636), e mais tarde (1817) capital da recém-criada capitania de Alagoas (que lhe deu o nome) até 1839, quando perdeu essa condição para Maceió. A cidade, que desde 16 de setembro de 2006 é considerada Patrimônio Histórico Nacional, recebeu a denominação atual, Marechal Deodoro, em homenagem ao marechal Deodoro da Fonseca, alagoano que foi o primeiro presidente da república do Brasil.

 

Por sua vez, a vila de Maceió fora desmembrada em 5 de dezembro de 1815, da Vila Madalena de Alagoas do Sul. Seu território começou a ser povoado no século 17, como centro de produção de cana-de-açúcar, mas como seu desenvolvimento foi muito vagaroso, no século 18 o local da atual cidade não passava de uma pequena povoação, junto a um engenho de açúcar. A partir daí, com seu contínuo processo de desenvolvimento alimentado principalmente pelo porto de Jaraguá, por onde eram exportados açúcar, tabaco, coco e especiarias, ela acabou se transformando em capital da província (9 de dezembro de 1839) com o simbólico ato da transferência do baú do tesouro para Maceió, pelo ouvidor de sua majestade. Este baú encontra-se no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, no centro de Maceió, na ladeira do Brito.

 

A Confederação do Equador, movimento separatista ocorrido em Pernambuco (junho a novembro de 1824) em decorrência da discordância sobre a dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, determinada por D. Pedro I, provocara a formação de focos rebeldes em outras regiões nordestinas, um deles em Alagoas, liderado por Manuel Vieira Dantas. A reação militar do governo serenou os ânimos de forma aparente, porque a abdicação de D. Pedro I, em 1831, reacendeu a discordância entre conservadores, que defendiam a manutenção da ordem então vigente, e liberais, partidários de medidas inovadoras como a de maior autonomia para as províncias. Apelidados de lisos, os conservadores, e cabeludos, os liberais, essas duas forças políticas era lideradas por José Tavares Bastos, os primeiros, e João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (ilustração acima), os segundos, dois homens importantes e prestigiados pelas autoridades imperiais.

 

José Tavares Bastos (1813-1893), era natural da cidade de Alagoas, advogado formado pela Academia de Olinda, e que ao longo da vida foi juiz de Direito em diversas comarcas, vice-presidente da província do Rio de Janeiro, presidente da província de São Paulo, ministro do Supremo Tribunal de Justiça, e condecorado com a comenda da Ordem da Rosa (1866) e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo (1889).  Seu adversário político, João Lins Vieira Cansação de Sinimbu (1810-1906), primeiro e único barão e visconde de Sinimbu, filho de Manuel Vieira Dantas e também bacharel em direito pela Academia de Olinda, ocupou diversos cargos públicos, iniciando pela magistratura e atingindo a diplomacia. Além de presidir a província de Alagoas, de janeiro a julho de 1840, e depois a de Sergipe, de junho a dezembro de 1841, foi ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas (1862), presidente do 27º Conselho de Estado, deputado, e senador.

 

Para defender suas idéias os liberais fundaram a Sociedade Patriótica e Defensora da Independência, depois Sociedade Patriótica Federal, agremiação responsável pela publicação do primeiro jornal da província, “O Íris Alagoano”, depois “O Federalista Alagoano”, dos quais se valia para exigir do governo a demissão dos portugueses e a expulsão do país de todos os lusitanos solteiros. A crise tornou-se séria, a ponto de o conselheiro imperial Manuel Mendes da Fonseca, pai do marechal Deodoro da Fonseca, afirmar, segundo alguns autores, que “como pela opinião em que está o povo, já não pode prevalecer nem a constituição, nem as leis a esse respeito, votava pela vontade do povo”.

 

Em 1840, Bernardo de Sousa Franco, visconde de Sousa Franco (1805-1875), que em sua vida pública exerceu os cargos de deputado geral e presidente da província do Rio de Janeiro, além de ministro, conselheiro de Estado e senador de 1855 a 1875, assumiu o governo da província, mas como apoiava Sinimbu na política nacional, isso inflamou os “conservadores”. Denunciando a intenção do novo presidente da província em instituir uma oligarquia liberal em terras alagoanas, os conservadores optaram pela reação armada, e em razão disso Maceió foi invadida duas vezes, obrigando Souza Franco a refugiar-se em um navio estrangeiro ancorado no porto. Mas apesar do intenso tiroteio promovido pelos homens que defendiam o partido de Tavares Bastos, os lisos acabaram sendo derrotados. O fracasso dessa investida foi compensado pouco depois, quando tropas imperiais chegaram à cidade e colocaram um ponto final na divergência (na ilustração, Bernardo de Sousa Franco).

 

O conselheiro José Tavares Bastos faleceu no dia 8 de agosto de 1893, sendo sepultado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Quanto a João Lins Vieira Cansação de Sinimbu, era ainda presidente do Conselho de Ministros quando foi responsabilizado pela falência fraudulenta do Banco Nacional, mas acabou sendo absolvido. Afastado do centro do poder em virtude da proclamação da República, morreu, segundo os historiadores, quase centenário (1907) e em extrema pobreza.