LENDA DO BOI FALÔ - Campinas - SP

Campinas é um município paulista localizado a noroeste da capital do estado, distando desta cerca de 90 quilômetros. Com uma população estimada (em 2009) de 1.064.669 habitantes, o município – o décimo mais rico do Brasil e responsável por pelo menos 15% de toda a produção científica nacional – é formado pela cidade de Campinas e por quatro distritos: Joaquim Egídio, Sousas, Nova Aparecida e Barão Geraldo.

 

Este último, situado a doze quilômetros da área central da sede municipal, é famoso por ser um centro tecnológico que abriga importantes instituições públicas e privadas, além de renomados centros hospitalares e grandes indústrias ligadas ao ramo de alta tecnologia, notadamente as da área de informática. Seu nome é uma homenagem a Geraldo Ribeiro de Sousa Resende, tornado barão em 1889, que foi proprietário de uma extensa propriedade rural situada no local, a Fazenda Santa Genebra, transformada por ele em um dos mais significativos centros agrícolas do Estado de São Paulo.

 

Da biografia de Geraldo Resende consta que ele se dedicou à vida política, comandou o Partido Conservador em Campinas, tendo ocupado os cargos de vereador e deputado. Recebeu, ainda, os títulos de Comendador e de Barão de Iporanga, dado por D. Pedro II, este último alterado por opção dele mesmo, agraciado para Barão Geraldo de Resende. Muito conhecido por seu caráter humanitário, o barão faleceu subitamente no dia 01 de outubro de 1907, aos 61 anos de idade.

 

A Lenda do Boi Falô - que por sinal é a única originada em Campinas - surgiu no ano de 1888, pouco antes da abolição da escravatura, e conta que um dos escravos da Fazenda Santa Genebra - conhecido pelo nome de Toninho, que trabalhava nas plantações de cana-de-açúcar e café da propriedade, recebeu do capataz da mesma a ordem de ir ao pasto, trazer de lá o boi Caprichoso e nele colocar a canga para que pudesse trabalhar na aração da terra que estava sendo preparada para o plantio de café. O dia era uma sexta-feira santa.

 

Apesar do físico franzino o moço não enjeitava serviço, e por isso tratou de cumprir sem demora a determinação que lhe fora passada. Então ele foi até o pasto onde ficavam os animais de trabalho, nas proximidades da sede, e uma vez lá logo se aproximou do boi que deveria levar consigo. Este, que estava deitado embaixo de uma árvore frondosa, não deu a menor atenção ao comando de “vamos, boi”, dito e repetido pelo rapaz, que por causa disso tratou de cutucá-lo firmemente com a vara de ferrão que levava na mão. Foi nessa hora que o boi Caprichoso olhou para o escravo, deu um mugido contrariado, dizendo em seguida, em voz alta e firme: “hoje é dia santo, é dia do Senhor, não é dia de trabalho”.

 

Ao ouvir isso o escravo Toninho apavorou-se e saiu de lá correndo para a casa grande, gritando o mais alto que podia: "o boi falô, o boi falô, o boi falô!" Segundo a lenda, o capataz ainda teria tentado castigar o moço pela aparente insubordinação, mas este continuou procurando o Barão Geraldo de Resende, até encontrá-lo. Este, ao ouvir o relato feito por seu assustado serviçal, teria acreditado na história e dado ordem para ninguém mais, na sua propriedade, trabalhar naquele dia santificado. Daquele momento em diante o escravo passou a prestar seus serviços dentro da casa, até o dia de sua morte, sendo enterrado no cemitério da Saudade, em Campinas, junto ao túmulo do barão. Dizem que ele é um dos mais visitados no dia de Finados, principalmente por pessoas que querem alcançar alguma graça.

 

Outra versão dessa lenda, embora não tão popular quanto a primeira, conta que o escravo Toninho, sendo forçado a trabalhar numa sexta-feira santa, obedeceu, mas ao chegar ao pasto do boi este o olhou e disse: “Hoje não é dia de trabalhar, hoje é dia de se guardar”. O escravo voltou correndo e contou ao patrão o que tinha acontecido, e por isso, naquele dia, ninguém mais trabalhou. O barão, que era homem descrente, virou rezador, enquanto Toninho passou a trabalhar dentro da casa grande até o dia de sua morte, sendo enterrado ao lado do patrão.

 

A Lenda do Boi Falô deu origem a uma festa (Festa do Boi Falô), mas como existiam dúvidas quanto à data exata de sua comemoração (uns defendendo que ela deveria ser na Sexta-Feira da Paixão, ao passo que outros indicavam o 6 de agosto, dia do Senhor Bom Jesus), o então governador de São Paulo, Mário Covas, decidiu que dali em diante sua realização aconteceria  nas Sextas-feiras Santas, o que passou a ser feito, oferecendo, inclusive, farta macarronada aos participantes.

 

Segundo comentários publicados na imprensa local, a festa, que não tem fins lucrativos e mantém como objetivo maior não deixar morrer a única lenda originada em Campinas, já é realizada há 15 anos não consecutivos, e sua freqüência vem aumentando nas últimas comemorações. Sua realização depende da colaboração e boa vontade de voluntários da região. Na última, por exemplo, os que dela participaram puderam apreciar apresentações culturais, exposição de produtos artesanais, produtos de reutilização de materiais, como jornal, feitos por alunos da escola Agostinho Pattaro, e o principal: o tradicional macarrão preparado ao molho de sardinha.

 

Segundo o sub-prefeito de Barão Geraldo, Miguel Tadeu Rodrigues, sem a ajuda dos voluntários o evento não existiria. Só no dia da festa, por volta de 200 pessoas auxiliam na organização, preparação do macarrão e distribuição das camisetas.