ARAPONGA

A araponga é uma ave de hábitos pouco estudados, mas conhecida pelo seu canto estridente que lembra o martelar do ferreiro na bigorna. Ele é descrito como um som semelhante ao produzido por uma marreta quando bate com força em alguma coisa de ferro, e repetido em intervalos de segundos, seguido por gritos mais fracos que se assemelham ao ruído feito pelo atrito de uma lima sobre o mesmo metal. O pouco tempo que separa um e outro é lembrado pelo escritor Guimarães Rosa na citação poética que diz: “Silêncio tenso como pausa de araponga”.

 

O tamanho dessa ave chega aos 28 centímetros, no máximo, e sua longevidade pode alcançar os 12 anos. Normalmente ela vive em matas primárias, ocupando preferencialmente os galhos mais altos das árvores, embora possa habitar capoeiras (matas secundárias) onde encontre frutas à sua disposição. Como a abertura de seu bico é grande, come pequenos frutos silvestres e bagas inteiras. Sexualmente madura até os dois anos e meio de idade, a fêmea da espécie põe dois ovos por ano, em média, cujo período de incubação é de 14 dias. Seus filhotes deixam o ninho entre o 27º e 30º dia pós-nascimento, quando passam, então, a cuidar do próprio destino.

 

Estando livres em seu habitat, cada um dos machos adultos tem um território delimitado, uma árvore escolhida segundo critério ou agrado individual, na qual não é permitida a presença de outros machos, principalmente nos dois galhos preferidos pelo dono: um mais alto, onde ele canta a fim de atrair a desejada parceira, e outro mais baixo, onde ocorre o acasalamento. Pousado no de cima, o candidato canta o dia inteiro tentando trazer para si o interesse e atenção de alguma fêmea, e quando isso acontece (pois cabe a ela o direito da escolha), o encontro se dá um pouco mais abaixo, no galho do acasalamento. Consumada a conquista o macho retorna ao seu galho de canto e dá prosseguimento à cantoria casamenteira. Caso apareça outra fêmea, ele repete o ritual. Na época de reprodução, que ocorre no final do ano, somente a fêmea trabalha na construção do ninho, sendo ela também que se encarrega sozinha da criação dos filhotes.

 

Três espécies de araponga são encontradas no Brasil:

 

- a Procnias nudicollis, ou araponga comum, também conhecida como ferreiro, com 27cm de tamanho, que ocorre da Bahia e Minas Gerais, ao Rio Grande do Sul, sul de Mato Grosso, Argentina e sudeste do Paraguai O macho é todo branco, com a garganta e os lados da cabeça esverdeados, enquanto a fêmea é totalmente esverdeada. Vive em mata primária tanto nas montanhas quanto nas baixadas, alimentando-se de frutas.

 

- a Procnias averano, ou araponga-do-nordeste, vive em Roraima, Maranhão, sudoeste do Piauí, noroeste da Bahia, Ceará e Alagoas, avançando pela Amazônia até a Venezuela e Colômbia. Tem as asas pretas, peito branco, cabeça marrom e vários apêndices carnudos no pescoço, tal como se fossem barba, o que serviu de motivo para que lhe fosse dado o nome popular de araponga de barbela. Com relação a essa espécie, ela está se tornando cada vez mais rara na região nordestina em conseqüência da incessante derrubada das matas que lhe servem de habitat. Também é conhecida como araponga de asa preta, araponga do nordeste, ferreiro (Bahia, Piauí e Alagoas) e guiraponga (Pernambuco).

 

- a Procnias alba, que habita a região do rio Negro, no Amazonas, onde tem o nome de gainambé, mas sobre a qual existem poucas informações. 

 

Além dessas três espécies brasileiras existe uma outra, a Procnias tricarunculata, típica da América Central, encontrada na região do Panamá, da Costa Rica e da Nicarágua.

 

Incluídas entre as espécies que apresentam, a médio-prazo, alto risco de extinção (devido à sua captura ilegal em vida livre e a crescente destruição de seu habitat natural), as arapongas também integram o grupo das mais eficientes disseminadoras das plantas de cujos frutos se alimentam. Isso porque o poder germinativo das sementes não é prejudicado ao passar pelo trato digestivo dessas aves, podendo até mesmo ser maximizado. Infelizmente, porém, elas são muito procuradas no mercado de aves de gaiola, devido ao canto original e coloração característica que possuem, o que aumenta ainda mais a seriedade do perigo de extinção que paira sobre as mesmas.

 

Algumas lendas contam como surgiram as arapongas. Uma delas, da baixada santista, litoral de São Paulo, conta que na antiga fazenda de Nª. Sra. do Engenho, depois Engenho dos Gayas, seu dono tinha dois filhos, João e Pedro. Enquanto o primeiro era perdulário e preguiçoso, o outro trabalhava com afinco, e certamente por isso, quando o pai morreu, deixou-lhe a propriedade como herança, dando a João uma arca de dinheiro. Este não concordou com a partilha, passando então a imaginar como se apoderar de tudo. Até que resolveu matar o irmão, o que fez atirando-o do alto de um morro. Goaturã, um índio que servia a Pedro, tinha um pássaro que recolhera ainda filhote, mas que só emitia um grasnido rouco e aflitivo, como se quisesse gritar. Ele pressentiu a tragédia, mas não conseguiu impedi-la, chegando, porém, a tempo de ver que quando João se afastava, o fantasma do seu pai lhe apareceu, recriminando-o severamente pelo que fizera. Naquele momento Goaturã percebeu que seu pássaro, também branco e alvo como o fantasma, pousara na ponta de um galho vizinho, e o ouviu emitir um grito, fino, altíssimo, que parecia humano e reboava pelas quebradas: - Caim! Caim!  Era o nome que ele lhe ensinara durante tanto tempo. E aí, de todos os cantos e recantos da floresta, nas grotas e nos espigões, surgiram aves brancas como aquela, enchendo a serra bruta da mesma exprobação: - Caim! Caim! Caim!

 

Assim surgiram as arapongas, aves gritadoras, lembrando aos homens o respeito que se deve ter à origem e ao sangue, acima dos egoísmos e das ambições.