O joão-de-barro, também chamado de forneiro em alguns lugares, é um dos pássaros mais populares do Brasil. Tem 20cm de comprimento, aproximadamente, porte semelhante ao do sabiá, dorso de coloração marrom avermelhada e penas bem mais escuras nas asas, podendo ser visto com facilidade desde Minas Gerais e Mato Grosso até a Argentina, nas áreas sem vegetação alta, em parques, pomares e jardins de áreas rurais e urbanas (no norte do país uma outra espécie é conhecida como maria-de-barro, oleiro e amassa-barro).
Alegre, o joão-de-barro não se assusta com o homem, parecendo, inclusive, gostar da sua presença. Tanto que se aproxima dele sem medo, e canta como se estivesse sendo observado e admirado. Para alimentar-se ele revira as folhas caídas no solo em busca de cupins, formigas, aranhas, escorpiões e outros artrópodes, tanajuras, minhocas, insetos e suas larvas, possivelmente moluscos e sementes, além de restos alimentares humanos, como pedaços de pão. O macho e a fêmea da espécie não apresentam grande diferença na aparência e porte, ao contrário do que acontece com várias aves (galo e galinha, por exemplo), razão pela qual se diz que seu dimorfismo sexual é pouco acentuado. Quanto à reprodução, a fêmea põe até 4 ovos a cada 4 meses, em média, e o processo de incubação dura de 14 a 18 dias. Uma vez nascidos, os filhotes são alimentados pelos pais durante um período que oscila entre 23 e 26 dias, ao fim dos quais já estarão prontos para voar e cuidar da própria vida.
Diferentemente dos outros pássaros, o joão-de-barro constrói o seu ninho com barro, uma casinha em formato de forno que ele levanta laboriosamente nos mais diversos lugares, desde galhos de árvores, madeiramento de currais, beiral de janelas, postes de iluminação e até mesmo em cima ou ao lado do velho abrigo, usando materiais como o barro, esterco seco e palha (com predominância do primeiro). Macho e fêmea trabalham nessa construção cuja entrada está sempre voltada para o lado oposto de onde predominam os ventos, transportando para ela pelotas de barro amassado com o bico e os pés. Em condições favoráveis o casal consome nessa empreitada por volta de dezoito dias, e três dias após o término eles começam a preparar e forrar a câmara incubadora. Depois de pronto, o ninho terá 40cm de diâmetro, mais ou menos, paredes grossas, e seu interior dividido em duas partes: um corredor e o compartimento do ninho, inacessível a predadores. Este ninho não é utilizado em duas estações de postura seguidas, pois, ao que parece, os joões-de-barro costumam usar, alternadamente, dois ou três deles, reformando os que porventura se encontrem em mal estado de conservação.
O canto do joão-de-barro é festivo, com seqüências rítmicas prolongadas que aumentam e diminuem de tom. O casal costuma cantar nos arredores do ninho, em curiosos duetos, tremulando as asas e emitindo um trinado muito apreciado, assemelhado ao som de uma flauta. Ele canta principalmente ao alvorecer e à tarde e sua cantoria serve para demarcar território e, no caso dos machos, para atrair a fêmea. Muitas histórias folclóricas têm o joão-de-barro como personagem. Uma delas, de cunho indígena, contada pelo historiador, jornalista, geógrafo e músico pernambucano Mário Carneiro do Rego Mello (1884-19598), autor de mais de 50 livros, foi publicada no jornal Folha da Manhã, da capital pernambucana, em 06 de abril de 1952, com o título de “O joão-de-barro na arquitetura e na lenda”, e diz a certa altura:
“Velho caçador possuía um filho único de nome Jaebé. Educava-o de modo que soubesse de tudo ao chegar à virilidade. Enamorou-se de Iponá, moça de outra tribo. Para desposá-la, precisava passar, de acordo com o ritual, por provas de coragem e fortaleza, sobretudo vencer páreos de corrida, de natação e submeter-se a rigoroso jejum de nove dias. Disposto a tudo, pediu ao pai que o acompanhasse à tribo de sua eleita para pedir-lhe a mão ao morubixaba, certo de que sairia vencedor das provas. Fez-se a disputa entre cinqüenta jovens. O vitorioso foi Jaebé. Premiou-o o morubixaba com sua mais forte couraça, feita de couro de anta, ornada de penas de tucano e de papagaio. Venceu, igualmente, a prova de natação e teve como prêmio um manto de peles de cisne, ornado também de plumagem. A mais difícil das provas era a de jejum. Apenas oitos jovens, inclusive Jaebé se apresentaram. Para maior segurança, cada um foi envolvido em peles. Somente Jaebé chegou ao nono dia. Quando desenrolaram o couro que o envolvia, converteu-se em pássaro, recebendo por encanto a plumagem, bateu asas e voou para a árvore próxima. Iponá transformou-se, igualmente em avezinha semelhante, voou e foi fazer companhia ao namorado e pretendente. É por isso que o joão-de-barro constrói sua casa como o homem, vindo daí a denominação popular. O ninho de joão-de-barro é argamassado de argila, que o casal, escolhida a área, leva no bico e nos pés. Trabalham como sob inspiração de arquitetos. Levantam primeiramente as paredes. Deixam-nas secar e continuam com a obra, fazendo no bloco de barro uma abertura côncava. Atapetam, então, o ninho, com penas e flocos de algodão. Consideram-na ave sagrada, porque sua casa está sempre, como as igrejas, voltada para o Oriente e porque não trabalha aos domingos. Não sendo, por isso, perseguido, não teme o joão-de-barro a aproximação do homem”.
Também na música e poesia este pássaro tem presença marcante, já que serviu de inspiração a diversos compositores e poetas. Como no caso da canção de estilo sertanejo que tem o seu nome, da antiga e famosa dupla caipira Tonico e Tinoco:
O João de Barro pra ser feliz como eu / Certo dia resolveu / Arranjar uma companheira / No vai e vem com o barro da biquinha / Ele fez uma casinha / Lá no galho da paineira / Toda manhã o pedreiro da floresta / Cantava fazendo festa / Praquela que tanto amava / Mas quando ele ia buscar o raminho / Para construir seu ninho / O seu amor lhe enganava / Mas nesse mundo o mal feito é descoberto / João de Barro viu de perto / Sua esperança perdida / Cego de dor trancou a porta da morada / Deixando lá sua amada / Presa pro resto da vida / Que semelhança marcando meu calendário / Só que eu fiz o contrário / Do que o João de Barro fez / Nosso Senhor me deu calma nessa hora / A ingrata eu pus pra fora / Onde anda eu não sei.