LENDA DA LAGOA VERMELHA - Lagoa Vermelha - RS

O município de Lagoa Vermelha, situado na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, tem uma história interessante. Em 1809 seu território pertencia a Santo Antônio da Patrulha, um dos quatro primeiros municípios emancipados em terras gaúchas (os outros três foram Porto Alegre, Rio Grande e Rio Pardo).

 

Quando o município de Vacaria foi criado em 1850, Lagoa Vermelha era um dos seus distritos, mas essa situação foi invertida sete anos depois (1857) com a transferência da sede municipal para ela e o retorno de Vacaria à condição distrital. Inconformados com o fato, os vacarienses reagiram, o que levou a Assembléia Legislativa estadual a anular a emancipação dos dois municípios, recolocando-os sob a jurisdição de Santo Antônio da Patrulha.

 

Mas em 1876 recriaram o município de Lagoa Vermelha e o instalaram no começo do ano seguinte, com as terras de Vacaria incluídas outra vez em seu território. O que motivou nova revolta dos habitantes dessa região e a repetição do resultado positivo conseguido anteriormente. Em 1878 Vacaria reassumiu sua condição de município e retomou o domínio administrativo sobre Lagoa Vermelha, que perdia dessa forma sua emancipação política de dois anos (durante esse tempo os lagoenses ficaram sob a administração de uma Câmara de Vereadores nomeada). Até que as autoridades responsáveis decidiram colocar um ponto final nesse vai e volta intermitente: Em 10 de maio de 1881, pela Lei n° 1.309, Lagoa Vermelha foi emancipada mais uma vez, tendo sua instalação definitiva ocorrido em 26 de janeiro de 1883.

 

A história registra que padres jesuítas espanhóis em atividade nas possessões de seu país na região do rio da Prata, que corre entre o Uruguai e a Argentina, foram os primeiros povoadores brancos que se estabeleceram nas terras hoje pertencentes aos municípios de Lagoa Vermelha e Vacaria. No século 17 os bandeirantes paulistas passaram a arrebanhar indígenas para fornecê-los às lavouras açucareiras de São Paulo e Rio, e por isso marcharam para o sul e atacaram as missões construídas pelos religiosos no vale do rio Uruguai e em alguns outros. Foi nessa época que ocorreu o episódio originador da lenda cuja lembrança resistiu à passagem de séculos e chegou aos nossos dias.

 

Conta-se que nessa época em que as Missões e Reduções Jesuíticas transformaram-se em alvo de bandeirantes, os padres procuravam esconder dos mesmos o seu gado e coisas de valor que guardavam em suas propriedades. Certa ocasião, alguns desses religiosos acompanhavam uma caravana que avançava tranqüila pelos campos, planaltos e pequenas áreas de matos da região que percorriam, conduzindo bens e valores da riqueza sacra pertencente à sua ordem religiosa. Com eles também viajavam os índios encarregados de cuidar dos animais da tropa, alimentando-os quando necessário e mantendo-os sempre em passo firme e cadenciado para que a duração da viagem não ultrapassasse o tempo previamente estabelecido para ela. Eles estavam buscando uma lagoa existente em local conhecido, onde deveriam dar de beber aos animais. Mas precisariam caminhar um pouco mais para alcançá-la antes que a noite chegasse trazendo a escuridão com ela, a tempo, portanto, de providenciar sem pressa todas as tarefas que normalmente cada um deles precisava realizar antes de cada pernoite em campo aberto.

 

Foi quando os caravaneiros perceberam um grupo dos temidos rapinadores marchando aceleradamente em sua perseguição, mas ainda separados deles por uma boa distância, e por isso os animais dos jesuítas também foram instigados a acelerar o passo na tentativa de escapar do perigo que vinha em seu encalço.

 

Diz a lenda que essa distância foi ficando cada vez mais curta, e quando a caravana finalmente alcançou a lagoa com os perseguidores praticamente em seus calcanhares, não restou aos seus integrantes outra solução senão a de entrar com os animais em suas águas, onde foram desaparecendo um a um, levando com eles a preciosa carga que transportavam.

 

Dizem que de lá para cá as águas dessa lagoa tornaram-se de cor vermelho-amarelada que nunca mudou de tom, simbolizando o ouro sagrado que em seu fundo ficou depositado.

 

Os contadores de histórias afirmam que ninguém pode desvendar o mistério da lagoa porque ela é profunda, e segundo alguns, nem fundo tem. Outros relatam que os moradores mais antigos do lugar afirmam que a lagoa geradora da lenda não mais existe, aterrada que foi pelos administradores da cidade que cresceu à sua volta e ganhou o seu nome. Na versão deles, a atual, que é ponto turístico, nada tem a ver com a história.