ANIMAIS DESDENTADOS

Surgidos no Pleistoceno, mesma época em que o homem apareceu na Terra, os animais  desdentados (ou edentados) compreendem hoje apenas três famílias: a dos tamanduás, de focinho alongado e costumes arborícolas ou terrestres; a das preguiças, de cabeça pequena e hábitos arborícolas; e a dos tatus, animais terrestres, de corpo longo e chato, revestido externamente por uma carapaça. São sobreviventes de um vasto grupo de vertebrados só encontrados no continente americano, que já contou com espécies gigantescas. Os maiores exemplares de hoje, porém, jamais chegam a ter tamanho maior que o de um grande lobo.

 

Característica comum a esses mamíferos é a constituição de sua dentadura, sempre anormal: os tamanduás, por exemplo, não possuem dentes, enquanto nas preguiças e tatus eles se assemelham a molares mal conformados, rudimentares, desprovidos de esmalte e raízes. O notável desenvolvimento das unhas (com as quais escavam e se defendem, procuram alimentos e trepam nas árvores), e a curiosa temperatura do corpo (elas sofrem pequenas variações conforme a do ambiente em que se encontram), são outras características dos desdentados.

 

Entre as formas extintas (eram sete famílias, com 113 gêneros) uma das maiores era o Megatherium americanum, com cerca de 7 metros de comprimento, que viveu nos pampas argentinos. Também gigantesco era o Glyptodon clavipes, muito parecido com o tatu, coberto por poderosa armadura formada pela superposição de placas ósseas poligonais.

 

O tamanduá se alimenta de formigas e cupins, cujos ninhos consegue encontrar graças ao seu faro sensível. Ao chegar a um cupinzeiro, ou formigueiro, ele o derruba com os braços fortes, ou o abre com as garras em forma de gancho, introduz nele a língua comprida que possui (entre 20 e 40 centímetros), recoberta por secreção viscosa, e com ela vai recolhendo dezenas de insetos a cada vez que procede dessa forma (cerca de 150 vezes por minutos), garantindo assim uma refeição diária composta por cerca de 30 mil desses insetos. Exceção feita ao tamanduá-bandeira, os outros são pequenos, e a maioria deles passa grande parte do tempo nas árvores, agarrando-se aos galhos como se fossem macacos.

 

A preguiça (ilustração acima), dona de garras compridas e recurvadas como se fossem ganchos, vive dependurada nas árvores, dormindo durante grande parte do dia, só descendo ao chão para urinar e defecar. Um dos aspectos mais curiosos com relação a esse animal é a sua capacidade de girar a cabeça 270 graus, sem virar o corpo, o que lhe é possível fazer graças à traquéia excepcionalmente longa e flexível, e à peculiaridade de sua coluna vertebral. Apesar de extremamente lenta nos movimentos que faz, ela nada bem e atravessa rios com facilidade, conseguindo ficar imersa por períodos de até 40 minutos porque consegue acumular o ar em suas vias respiratórias. A preguiça só come folhas e não bebe água, matando sua sede com as gotas de orvalho existentes no alimento que ingere. Para achá-lo ela usa o tato e o olfato, pois sua visão não é das melhores. Como tem os braços maiores que as pernas, as preguiças não conseguem ficar em pé sozinhas. Os ancestrais desse mamífero tinham 6 metros de altura, pesavam cinco toneladas, viviam no hemisfério norte e foram extintos no final da Idade do Gelo.

 

Quanto aos tatus, eles são encontrados desde a Argentina até o sul dos Estados Unidos, existindo no Brasil mais de 20 espécies, todas providas de garras fortes que usam na escavação de túneis e tocas, valendo-se da língua comprida e estreita para capturar os insetos, minhocas, aranhas e caracóis com que se alimentam. Além da forte couraça que lhes recobre o corpo, o que mais chama a atenção nesses animais é a sua dentadura, que chega a ter um total de cem dentes fracos e pequenos, bem no fundo da boca, razão pela qual eles não podem morder para se defender.

 

Em compensação, sua melhor proteção é a carapaça, composta de muitas placas pequenas de substância óssea, ajustadas umas às outras. Dura e forte, a carapaça é articulada no dorso do animal, o que permite a alguns gêneros encurvar-se e transformar-se em uma bola dura e compacta que lhe oculta e protege a cabeça e os pés. Mas isso ele só faz como último recurso, porque geralmente corre para a toca ao pressentir o primeiro sinal de risco.

 

No passado, em tempos mais recentes que o dos dinossauros - de 1,5 milhão a 11 mil anos atrás - quem chamava atenção eram as preguiças gigantes (ilustração acima), que lembravam um pouco as atuais, mas como o próprio nome sugere, eram bem maiores. Um adulto tinha seis metros de comprimento, um metro e meio de mão, incluindo as garras de 50 centímetros, e peso por volta de quatro toneladas. Como não podia pendurar-se nas árvores, do mesmo modo que as atuais, andava pelo cerrado se alimentando de plantas, e quando há 11 mil anos mudanças climáticas reduziram substancialmente a disponibilidade de vegetação nos campos, ela se extinguiu por falta do que comer.

 

Já o tatu gigante podia ultrapassar dois metros de comprimento, pesar quatrocentos quilos e ter cerca de 1.500 placas de osso recobrindo o seu corpo, a sua cauda e parte da sua cabeça. Pensa-se que túneis com mais de meio metro de diâmetro, encontrados por pesquisadores, teriam sido escavados por esses gigantes que também eram herbívoros.