MORCEGO

Há sessenta milhões de anos que os morcegos possuem um sistema de orientação verdadeiramente eletrônico, uma espécie de radar natural. Emitem sons de curtíssima duração e de alta freqüência, e o eco desses ultra-sons nos objetos à sua volta, recebidos e interpretados por uma área do cérebro, lhes permite ver o tamanho e forma dos objetos que o cercam, bem como sua posição exata. É assim que eles conseguem voar em plena escuridão, sem sofrerem acidentes. Mas nem todos têm essa capacidade: os megaquirópteros (morcegos frutívoros do Velho Mundo que se distinguem por molares com coroa lisa e por uma garra no indicador), por exemplo, orientam-se pela visão.

 

Chamados cientificamente de quirópteros (do grego chiros = mão e pteros = asas), eles pertencem a uma ordem de mamíferos cujas etapas de transição não são bem conhecidas, mas originadas, segundo se deduz, de pequenos comedores de insetos que viviam nas árvores. Teriam sido animais que ganharam uma membrana entre as patas anteriores e posteriores (patágio), podendo assim planar de uma árvore para outra. Com o aperfeiçoamento progressivo do esqueleto das patas anteriores eles adquiriram condições de vôo, ao mesmo tempo em que alteraram o funcionamento do organismo por dois motivos determinantes: a locomoção aérea e a vida noturna. Seu tamanho varia de três a mais de 40 centímetros (nesse caso a abertura de suas asas chega a 1,50 metro), e seu esqueleto é altamente adaptado para a vida aérea: tem ossos leves, longos e finos, e uma grande cavidade medular.

 

O sistema cutâneo dos morcegos é bem desenvolvido, estendendo-se como uma membrana dupla sobre as patas dianteiras e chegando até a cauda. O dedo polegar, livre dessa membrana, é armado de uma unha forte que serve de garra nos intervalos de vôo. Algumas espécies fixam-se pelas patas traseiras sem despender qualquer esforço muscular porque o peso do corpo estende alguns tendões dos pés e fecham firmemente os dedos. A membrana alar (asas) é formada por quatro regiões: a que vai até o primeiro dedo (propatágio); a que fica entre os dedos (dactilopatágio); a que liga o quinto dedo ao corpo (endopatágio); e a parte que une as patas traseiras e a cauda (uropatágio). Na vasta rede glandular desses vertebrados as sebáceas são mais abundantes e necessárias para manutenção da flexibilidade da membrana alar, sempre ameaçada de se tornar seca devido à intensa transpiração na região, o que explica por que os morcegos bebem muito líquido e preferem lugares úmidos.

 

As fêmeas dos morcegos possuem glândulas que se desenvolvem durante o ciclo sexual, produzindo a secreção odorífera que desempenha papel importante na atração dos machos. Capazes de respirar quantidade de amoníaco que seria letal a qualquer outro mamífero, eles conseguem viver em cavernas e grutas sobre as próprias dejeções, que liberam grandes quantidades de calor e gases amoniacais. Com isso, ao mesmo tempo em que criam ambiente insuportável a seus possíveis predadores, economizam grande quantidade de calor metabólico. Algumas espécies utilizam abrigos temporários, como folhas de bananeira, tocas de porco-espinho e o interior de talos de bambu (duas delas, da zona tropical americana, cortam folhas de bananeira com os dentes e as dobram em forma de tenda, onde se escondem e se protegem).

           

Como a vida noturna dos morcegos praticamente dispensa o sentido da visão, seu tato e a audição se tornaram extremamente apurados. Quase todos eles possuem dentadura semelhante à dos insetívoros, mas como sua dieta é variada, com algumas famílias se alimentando exclusivamente de insetos e outras procurando frutas, néctar (possuem língua adequada), peixes e pássaros (embora existam também os hematófagos, aqueles que sugam o sangue de animais e raramente dos homens), essa diversidade de preferências alimentares deu aos morcegos a condição de se tornarem a segunda ordem de mamíferos em número de espécies, distribuídos pela maior parte do globo, o que é resultante das longas migrações que eles realizam com freqüência, percorrendo centenas de quilômetros (com alguns dos indivíduos levando anéis metálicos colocados pelo homem em seus membros anteriores, para que os deslocamentos possam ser devidamente estudados).

 

Os maiores morcegos são os megaquirópteros que vivem nas zonas quentes da África, Ásia e Austrália, animais que têm a cabeça semelhante a de uma raposa e por isso recebem o nome de raposas-voadoras. Quase todos eles se alimentam de frutas e são freqüentemente caçados durante o ataque aos pomares. Já os microquirópteros, de pequeno tamanho na maioria, estão espalhados por quase todo o globo, e segundo estudos feitos por veterinários, causam sérios prejuízos à lavoura e à pecuária. Daí a recomendação de eliminação sistemática desses animais, principalmente nas regiões onde ocorrerem epidemias do gado. Dentro de suas numerosas famílias (das dez existentes, nove são encontradas no Brasil), algumas apresentam espécies com costumes estranhos. Um exemplo disso é o Noctilio leporinus, chamado comumente de morcego-nadador, que se alimenta de pequenos peixes, mas existem outros, como os falsos vampiros e uma espécie canibal.

 

Os morcegos hematófagos pertencem à espécie Demodus rotundus. Equipados com presas aguçadas que lhes facilitam a sangria dos animais, eles podem atacar até mesmo o homem, quando adormecido, sem que este perceba. Isso acontece, segundo se diz no interior, “porque o morcego abana a ferida com as asas enquanto suga o sangue”. Pequenos e armados de um único par de incisivos superiores, com bordos muito afilados, os verdadeiros vampiros sugam o sangue dos grandes mamíferos, que continuam a sangrar por algum tempo devido à saliva anticoagulante que é depositada sobre o local da perfuração.

 

Uma pequena dica para os mais assustadiços: se porventura um morcego entrar em sua casa porque a janela estava aberta, não se desespere com isso: apague as luzes (para que ele não fique ofuscado) e abra todas as janelas, porque fazendo assim ele achará por si próprio o caminho da saída.