FLAUTAS PRÉ-HISTÓRICAS

Os homens das cavernas dançavam ao som de flautas. É o que sugere um artigo publicado em junho de 2009 na revista científica Nature que descreve o mais antigo instrumento musical fabricado pelo homem de que se tem notícia: uma flauta com cerca de 35 mil anos, retirada de uma caverna em Hohle Fels, no sul da Alemanha. A descoberta indica que os primeiros europeus modernos já tinham uma tradição musical estabelecida.

 

O responsável pelas escavações, arqueólogo Nicholas Conard, da Universidade de Tübingen, também na Alemanha; declarou que o instrumento musical foi montado a partir de 12 fragmentos de osso de abutre que estavam espalhados pelo interior da referida caverna. Juntas, as peças dão forma a um instrumento de quase 22 centímetros e com cinco furos. Ela é mais completa e parece ser mais velha do que os fragmentos de osso e marfim de outras sete flautas desenterradas também no sul da Alemanha e documentadas.

 

A flauta sugere que há cerca de 35 mil anos os seres humanos haviam estabelecido uma cultura avançada na Europa, disse o arqueólogo Wil Roebroeks, da Universidade de Leiden, na Holanda. Apesar disso, ele afirma ser difícil saber qual o grau de inteligência ou desenvolvimento social do povo em questão. Neandertais também viviam na Europa na época em que a flauta foi feita, e freqüentavam a caverna de Hohle Fels. Tanto Conard quanto Roebroeks acreditam que os vestígios deixados pelas espécies indicam que os artefatos foram criados por humanos.

 

April Nowell, pesquisadora da Universidade de Victória, no Canadá, e especializada no período paleolítico, disse que a data da flauta antecede a outros instrumentos descobertos, mas não em período que chegue a surpreender. Nowell não participou da investigação realizada por Conard.

 

Um texto publicado em Ciência Hoje On-line, assinado por Bárbara Marcolini, esclarece que os mais antigos instrumentos feitos pelo homem, encontrados até hoje, eram um grupo de 22 flautas datadas de 30 mil anos, descobertas na França, e uma flauta de aproximadamente 20 mil anos, na Áustria. Os doze pedaços que compõem a flauta recém-descoberta foram encontrados na caverna de Hohle Fels, na região da Suábia (Alemanha), em setembro de 2008. O instrumento, esculpido a partir do osso de um abutre, tem 21,8 centímetros de comprimento e 0,8 de diâmetro. O que mais chamou a atenção da equipe que o descobriu foi a semelhança da peça com as flautas modernas. O instrumento tem cinco orifícios para o posicionamento dos dedos e uma das pontas com abertura em forma de ‘v’, provavelmente por onde saía o som.


Durante as escavações, também foram recuperados outros três fragmentos em marfim, que pertenceriam a duas flautas. Os pesquisadores salientam que, por serem de um material mais resistente que o osso de ave, essas flautas demandaram técnicas mais apuradas de fabricação.  

 

As peças foram encontradas a apenas 70 centímetros do local onde estava uma escultura de corpo feminino feita em marfim (batizada de Vênus de Hohle Fels), também descrita por Conard na Nature em maio deste ano. Segundo o arqueólogo, tanto as flautas como a escultura são exemplos das manifestações culturais do homem que viveu no período Paleolítico Superior (entre 40 mil e 10 mil anos antes de Cristo). “A descoberta dessas peças prova que naquela época o homem já apresentava habilidades artísticas e tinha uma linguagem simbólica similar à atual”, diz o pesquisador à CH On-line.

 

De acordo com o artigo, a existência de uma tradição musical no período Paleolítico pode ter colaborado para a manutenção de redes sociais e, assim, ajudado na expansão territorial e demográfica do homem moderno. Os neandertais, hominídeos  que viveram nesse mesmo período, tinham manifestações culturais mais acanhadas e talvez por isso tenham permanecido isolados.